quinta-feira, 22 de maio de 2014

Satyne Haddukan, de monge católico ao bate-cabelo


Por Cláudia Rodrigues*  
James Nobre na infância

Ao primeiro olhar identifico a tradução exata do que quer dizer a palavra fascínio. Fita-me com um sorriso enigmático uma mulher gigante, de 1.90m, rosto belíssimo, maquiagem suave, pele de um branco rosado, olhos verdes, longos cabelos negros escorridos sobre os ombros largos e os seios delicados. Pela voz emerge o homem, de fala grave, sedutora, sem o menor sinal de afetação; chega destruindo imediatamente o estereótipo espalhafatoso que eu havia feito de uma drag queen.
A blusinha básica e a minissaia jeans, de onde saem duas pernas longas e torneadas, não conseguem simplificar o atropelo de mensagens que vêm desse alguém assim planetas, mais parece um ser intergaláctico. É minha primeira vez em intimidade, olhos nos olhos, com uma pessoa tão intensamente andrógina, metade homem, metade mulher.

Decidimos ir a uma padaria tomar um capuccino; para descontrair falamos sobre depilação e o conforto glamuroso de se usar lâminas, o mais antigo ritual das mulheres para livraram-se dos pelos. A timidez dela se mantém, pergunto a razão, já que está acostumada a dar entrevistas, ela explica mansamente, segurando a xícara no ar: “Já dei várias entrevistas sobre minha vida profissional, sobre os shows, as técnicas de maquiagem específicas para drags, mas sobre minha vida pessoal é a primeira vez que abro, não sei até que ponto podemos ir”.

Satyne Haddukan, que comanda e apresenta shows na boate Divine desde 2007, a mais antiga e tradicional casa GLSTB de Fortaleza, também lança drags e faz shows de humor em várias capitais do país, como São Paulo, Teresina, Porto Alegre e Florianópolis. Poliglota, domina italiano, croata e inglês. Atualmente dá continuidade aos estudos de Desenvolvimento de Liderança em Programação Neurolinguística e, apesar de não ter concluído as duas graduações que iniciou na Universidade Federal do Ceará – Ciências Atuariais, que deixou no terceiro semestre; e Letras, que trancou no quinto semestre –, já fez cursos de Computação e Hotelaria, além da Teologia, carreira que abraçou dos 18 aos 24 anos.
Jovem, antes de entrar para a Igreja


Nasceu menino, batizado como James Nobre no dia 15 de junho de 1975. Filho de mãe solteira, foi criado pela avó a partir dos cinco anos, quando a mãe casou e saiu de casa. Lembra-se de ter vivido uma boa infância, não sabia o que era bullying, diante de eventuais provocações escolheu uma vida mais solitária, de poucos amigos e amigas. “Até meus 4,5 anos não me sentia diferente, não sabia o que era de menino, o que era de menina, aí um dia pedi uma sandália melissinha, achei linda, queria muito e minha mãe comprou, foi a primeira vez que percebi o feminino em mim, mas meu melhor amigo deixou de querer brincar comigo, as crianças ficavam falando que eu estava com uma sandália de menina, então entendi que havia um jeito certo de me comportar por ser menino.” A avó temia muito pela segurança do neto, James não podia brincar na rua, ter más companhias, foi matriculado numa escola tradicional, o Colégio Santo Inácio, de padres jesuítas. “Minha avó queria que eu estudasse, sempre fui um exemplo, só tirava novas altas, mas era solitária, sabia que não podia gostar de brincar de boneca e panelinhas, então brincava muito de playmobil, fazia famílias de astronautas e de panelinhas eu brincava também, quando dava, gosto até hoje, adoro cozinhar, minha especialidade são as massas.”   

Na escola não gostava de ser obrigado a jogar futebol, mas resolveu o problema destacando-se em outros esportes, como vôlei, basquete e natação. Aos poucos foi entendendo que precisava se masculinizar para ser aceito socialmente. “Fui suprimindo minha feminilidade a partir dos 15 anos, eu era muito inocente, não tinha noção de sexualidade e comecei a desenvolver mecanismos para me adaptar, aos 17 me apaixonei por uma garota de 14, aconteceu, meu coração palpitava, sentia desejo, mas o namoro foi proibido pelos pais dela porque ela era muito jovem.”
Nos tempos do sacerdócio, ainda de barba
Aos 18 anos passou no vestibular para Ciências Atuariais, na Universidade Federal do Ceará, mas depois de cursar três semestres escolheu seguir a conversão ao cristianismo. Começou pela Renovação Carismática Católica. “Segui de maneira radical, iniciei com grupos de oração até me sentir atraída pela vida sagrada do celibato.” Aos 20 anos, por indicação de uma amiga, entrou para um convento misto em Quixadá, no Ceará. Ali viveu uma vida contemplativa, em oração, estudos, penitência e trabalho no próprio mosteiro. O gosto pelos estudos fez com que levasse tudo muito a sério, tornou-se líder de grupos de orações e resolveu continuar a carreira religiosa, o que trazia muito orgulho para sua família, extremamente católica. Após seis meses em Quixadá, foi para Passo Corese, na Itália, onde concluiu seus estudos teológicos. Passou a ser postulante, tornou-se noviço, religioso de fato, com votos de pobreza, obediência e castidade. “Vivi isso intensamente, a minha ética, a minha moral me fizeram viver isso integralmente, eu não estava lá fugindo da minha sexualidade, eu estava vivendo aquilo, acreditava e gostava”, explica Satyne, sem alterar o tom de voz, sempre com seu jeito educado e discreto.

A entrevista continuou em sua casa. Pelo avançado da hora, ela precisava iniciar os preparativos para a grande noite da semifinal do concurso Top Drag Queen, na Divine; o jeito foi encarar a vergonha confessa de mostrar seu quarto, um lugar normal, com bagunças típicas de mulher vaidosa, gavetas repletas de bijuterias, perucas, sandálias, acessórios e roupas de festa. De um armário ela retirou, com suas mãos incrivelmente femininas, dedos finos e unhas bem feitas, um álbum de fotografias antigas. Intercalado por gravuras de santos, santas e cartões postais, aparecem fotos do menino James, do jovem monge, sempre com seu hábito em festas familiares no Brasil; com colegas em Passo Corese, na Itália e com colegas em missão na Bósnia- Herzegovina, em 1999. É difícil juntar a imagem do rapaz alto, barbudo, magro e sorridente com a figura atual de Satyne, mas é ela, o mesmo rosto, o nariz pequeno, o sorriso sincero.

Aponta uma foto dos seus 24 anos, explica que foi feita pouco antes de cair em severa depressão, na Itália. Não gosta de falar sobre as causas de sua depressão e com muita elegância explica seu respeito pela religião. “Minha família toda é católica, respeito muito a crença dela, cada um tem sua história, eu não gostaria de mexer na crença e na parte boa do catolicismo, não culpo a religião pela minha depressão, eles sabem que alguma coisa aconteceu lá, mas não falamos sobre isso, prefiro não falar, eu mesma respeito a religião, continuo rezando, não perdi minha fé.”

A dedicação ao catolicismo persiste

A depressão em 2000 fez com que James recebesse licença-saúde para voltar ao Brasil e passar um período com a família, tratar-se. “Eu poderia voltar, mas resolvi ficar aqui, larguei o hábito e comecei a fazer um tratamento com um psiquiatra, ele não me forçava a pensar de um jeito ou de outro, não interferia na minha vontade, nas coisas que eu estava descobrindo.” Na mesma época resolveu voltar para o mercado de trabalho e para isso fez um curso de computação. Fez estágio numa óptica, foi quando lembrou que a mãe havia contado sobre seu pai ter sido funcionário de uma famosa óptica, a Kings Jóias. Por coincidência o patrão conhecia gente na antiga rede e soube informar o paradeiro de uma tia, Rute, irmã do pai. O próprio psiquiatra, Dr Masueto, o ajudou a procurar a família paterna. “Fui imediatamente aceita, tanto pela minha tia, quanto pelo meu pai, não fizemos teste de DNA, eu sou a cara dele, ele não teve dúvidas, o encontro com meu pai não foi uma coisa de emoções, choros e abraços, não havia como, mas foi bom, preenchi aquele vácuo, conheci meus irmãos e a mãe deles, pessoa muito boa, tenho cinco irmãos por parte de pai, um do primeiro casamento e quatro do segundo.” Satyne tem ainda uma irmã mais nova, Rogeane, por parte de mãe. A convivência com a família paterna passou a existir, ela lembra com muito carinho da avó, mãe do pai. “Muito idosa ela passou a falar só em italiano, era um dialeto, mas na família só eu compreendia o que ela falava, gostava disso, todos gostavam de saber o que ela queria dizer, foi uma época muito boa, descobri minha ascendência italiana por parte de pai e por coincidência havia estudado italiano e vivido na Itália.”

No retorno ao Brasil terminou encontrando-se verdadeiramente no mercado de trabalho como professor de italiano na Interschool, em Fortaleza, mas não parou de estudar, fez um curso de hotelaria e chegou a iniciar carreira numa rede hoteleira como recepcionista e administrador contábil. No meio do caminho algumas paqueras, às vezes com homens, outras com mulheres, mas tudo muito contido no início da vida livre dos votos religiosos. Essa fase não está registrada em imagens no álbum de fotos de papel, então nos debruçamos sobre seu laptop, rapidamente ela acessa uma de suas contas no Orkut, tem três, todas lotadas. Em uma delas destaca-se a foto de um James já sem a barba do monge, cabelos curtos, roupas típicas de um jovem rapaz no início dos anos 2000, aparece com o rosto colado ao de uma moça, uma namorada, de quem fala com muito carinho. “Estávamos apaixonados aqui, olha como era linda, ela morreu, foi suicídio”, conta Satyne, sem entrar em detalhes. Em outro álbum, uma sequência de fotos em diversão com amigos e amigas, já deixando seu lado feminino aflorar mais, quando começou a frequentar o mundo GLSTB. “Nessa época comecei a viver minha adolescência tardia, quando não estava trabalhando, gostava de sair, ir para a balada, perdi a virgindade de fato somente aos 25 anos, por minha timidez precisei pagar, não foi tão bom, mas acabei ficando amigo do profissional e conheci um amigo dele, por quem me apaixonei.”
Festa de formatura como designer de moda

Em outubro de 2002, numa festa Halloween, resolveu travestir-se pela primeira vez. “Meus amigos achavam que eu jamais conseguiria por ser grande, másculo demais, mas não desisti e acabei perdendo o namorado, ele disse que se quisesse uma mulher pegava uma biológica, achei aquilo muito ruim, ninguém manda em mim, quando eu decido algo vou lá e faço, se ele gostasse de mim de verdade não iria se importar.” O namorado, ao vê-lo travestido, cumpriu o prometido, fingiu que não o conhecia, terminando assim um relacionamento de longos meses.
Apesar de ter percebido que o efeito não estava bom naquela primeira vez, persistiu e passou a “montar-se” com freqüência, até que as pessoas começaram a gostar. Uma noite estava numa boate na Praia da Iracema, a Bird Cage, e foi convidada para substituir a drag residente. “Foi espontâneo pegar o microfone e sair com tiradas humorísticas, tive aceitação imediata do público e passei a ser a drag residente da boate.”
Em evento com amigos
 James Nobre foi deixando aflorar cada vez mais seu lado Satyne Haddukan, nome composto pela personagem de Nicole Kidman em Moulin Rouge e uma ginasta olímpica, Andrea Radukan, até que em 2005 cindiu em nova depressão. A mãe foi cuidar dele e durante o período de recuperação, com apoio dela e de medicamentos, acabou contando tudo sobre sua vida. “Estava muito mal, precisava contar o que estava vivendo para minha mãe, abri meu álbum de shows, contei do meu trabalho, ela aceitou, disse que o importante era eu ser feliz, todos na minha família aceitam como coisa artística.” Satyne entregou o apartamento que alugava na praia de Iracema e foi morar numa casa conjugada com a da mãe, da avó e de uma tia, a casa em que concedeu a entrevista, regada a coca-cola e ao saboroso bolo-mole, tradicional no Ceará. 
Na Suiça, em ensaio fotográfico

É nesse ambiente familiar que ela projeta, produz e borda as próprias fantasias, reúne os amigos, trata perucas, mexe e remexe numa caixa gigante de maquiagens e manuseia uma quantidade considerável de acessórios tradicionais de uso feminino. A noite quente e seca do inverno cearense anunciou a hora dos banhos, das maquiagens e produção geral de preparação para o show da noite. Os amigos, que a chamam de mãe, começam a chegar. Ela maquia um deles, seu assistente da noite; com precisão, gestos delicados e rápidos transformam em 40 minutos o rosto de um jovem rapaz em alguém que lembra a modelo Jerry Hall em seus tempos de juventude. Trata-se de um tipo específico de maquiagem, “Drag Camaleoa Flúor”. A base serve para retirar qualquer vestígio de barba, um jogo de sombras e luzes afina o nariz, eleva as sobrancelhas, aguça a expressão dos olhos, feminiliza os traços masculinos típicos de um rosto de homem. É notável o efeito no jovem que mantinha um cavanhaque minutos antes de fazer a barba para a maquiagem. Satyne conta que para ela foi importante livrar-se da barba. “Em 2010 resolvi me assumir, fiz laser para tirar a barba, agora só preciso tirar os fios brancos e os loiros porque o laser não funciona para brancos e loiros, coloquei cabelo, preenchi aquele fundo masculino nas nádegas e por último o peito, mas foi só isso.”

Satyne assumiu sua identidade feminina integralmente, tanto na noite como durante o dia, no início do ano de 2010 e por coincidência na mesma época se apaixonou por uma mulher, uma “racha”, como diz o vocabulário do meio GLSTB.“Eu gosto de pessoas, não importa o gênero, faz um ano e dois meses que estou namorando uma mulher, aconteceu, numa noite após um show um amigo me apresentou uma mulher que levava uma vida supercareta e estava passando por um processo de separação do marido, começamos um relacionamento na brincadeira, na base do vamos chocar, nos divertir, mas fomos ficando próximas, amigas, companheiras, a ponto de virar um compromisso; é leve, sem ciúmes, nos falamos diariamente, é bom estar com ela, transar com ela, fantasiamos viver juntas um dia.” Pergunto como é o orgasmo de  homem com homem e de homem com mulher, se existe diferença de intensidade ou sensação. Ela explica didaticamente, com sua voz grave e baixa, que existem dois tipos de transexuais, as que não se sentem bem com sua genitália e as que estão bem assim. “O que define o sexo é minha cabeça, orientação sexual, gênero e preferência sexual são diferentes, eu sou do tipo de bem com minha genitália.”
Palestrando


Afirma com convicção que jamais passou por sua cabeça fazer uma cirurgia de redesignação sexual, que já tomou hormônios, mas não toma mais porque eles atrapalham seu humor e sua libido. O orgasmo vindo de dois orifícios pélvicos ao mesmo tempo é um fato relevante, mas quando pergunto se com sua namorada não sente falta de um complemento, se não fica faltando alguma coisa, ela tem uma reação máscula, levanta os braços enormes, como fazem os jogadores de futebol para sinalizar que não cometeram faltas, e exclama: “Peraí, o que é isso, não falta nada, é perfeito com ela!” Rimos todos, ela e seus três amigos, que estão ali a transitar com perucas e bijuterias, em pleno alvoroço que antecede a noite que está por vir.  

A vida profissional dos trans de masculino para feminino é muito limitada pelas imposições sociais, especialmente quando começam a assumir-se em identidade feminina integralmente nas 24 horas do dia. Sobram poucas profissões como maquiadoras, cabeleireiras, apresentadoras e artistas de shows ou garotas de programas.
Apesar de reconhecer que existem limitações sociais, Satyne não vê nada como impossível e fala de seus conflitos atuais, que se misturam a sonhos com a atual parceira. “Tenho tido conflitos, às vezes tenho vontade de assistir missa, minhas raízes católicas afloram, minha vida espiritual não sumiu, é forte isso em mim.”
Na boate Divine
Explica que a fórmula para administrar a ansiedade e os conflitos é viver um dia depois do outro, mas está em seus planos de futuro próximo retomar o curso de Letras, já que faltam só três semestres. Não descarta a possibilidade de voltar ao mercado de trabalho formal e deixar a vida profissional de drag queen. “Uma coisa que tem me incomodado é essa sobrancelha de drag, raspada, puxada assim para cima, gosto de ter minhas sobrancelhas mais femininas, a drag é uma caricatura de mulher, cada vez mais gosto de maquiagem normal de mulher, do jeito que uso durante o dia, mas vou levando, fazendo planos, sonhando, agora estou bem assim, mas não descarto nada para o futuro, nem mesmo ter um filho, uma vida em família.”

Nobre Satyne James Haddukan despede-se já maquiada para a noite, é a própria confirmação material do conceito de equilíbrio oriental entre o Yin; passivo, noturno, sombrio, frio e o Yang; ativo, diurno, luminoso e quente.
Satyne em sua formatura como designer de moda em 2013


* perfil feito originalmente para a revista Contigo, em setembro
de 2011










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