sábado, 6 de setembro de 2014

A inocência ética das crianças

Cláudia Rodrigues








Minha filha de 12 anos resolveu dar uma olhada no programa eleitoral e fez seus comentários e questões, andamos conversando sobre o tema entre uma e outra partida de xadrez, voltas da escola e durante as refeições, com outros membros da família, o que não torna o tema mais fácil do que o das religiões, espíritos, almas, crenças, paixões, fundamentalismos, racismos, homofobia e todo o caldo cultural que ela começa a alcançar já com capacidade de reflexão e interpretação de texto bem apuradas de acordo com a idade.

Como é bom ter uma filha de 12 anos em casa!

“Mãe, é ético um candidato falar mal do outro, gastar tempo nisso em vez de conversar e explicar o que ele vai fazer?”


“ Eles têm pouco tempo e gastam falando do que fizeram e mal dos outros, no fim não dá para saber direito o que eles vão fazer e tem os outros que falam o nome deles correndo e o número e só dizem eu vou fazer, eu vou acontecer, todos iguais”.

Difícil explicar que é difícil entender que a política é um jogo de comportamentos municipais, estaduais, federais e de escalas internacionais. Bolsões de capital que andam por aí a produzir outros bolsões de miséria, diferenças e o que parece inverossímil: imensas minorias. “Se são imensas não são maiorias, não é a maior parte?”


“Tu é contra a Marina?”
Não, a Marina é uma das figuras políticas do Brasil. Ela veio do estado do Acre e teve projeção nacional defendendo os seringueiros, minorias de sua região, viu muito mais, entrou para o movimento ambientalista, esteve no PT e no PV, não conseguiu ficar, discordou, pontuou bem, fundou a Rede Sustentabilidade, era para ser um Partido Novo, não rolou por entraves jurídicos, acabou sendo candidata a vice daquele senhor que morreu no acidente aéreo, Eduardo Campos, do PSB.

É preciso explicar que o Partido Socialista Brasileiro não é socialista, mas um partido que tem uma proposta de apoiar o agronegócio, por exemplo, que exige muitos bolsões de dinheiro: agrotóxicos, maquinário caro, uma infinidade de produtos químicos e combustíveis, grandes concentrações de terra, desmatamento, queimadas, enfim, nada a ver com a visão socialista de distribuição de renda, investimentos em muitas pequenas propriedades, agricultura familiar, orgânica, melhor controlada diretamente, sem necessidade de vastas intervenções.

 “ Humm lembro dessa história que conversamos no ano passado, do socialismo, comunismo, capitalismo e que sempre pode acabar em corrupção, de um jeito ou de outro.”

 Pois é, há muitos partidos com as expressões “socialista”, “comunista”, que não são socialistas nem comunistas. E não, não tem um partido que se autodenomine “capitalista”, embora o capitalismo seja o jogo mundial que rege o mundo. Voltamos ao ponto dos bolsões de riqueza e pobreza, desigualdades, crenças, racismo, homofobia, direitos das mulheres.

“ Tu é contra a Dilma?”

Não, a Dilma nasceu política na luta estudantil, foi presa pelos militares porque lutava por direitos políticos e democracia em Minas Gerais. Ela foi da luta armada contra os militares, ficou presa durante três anos e então continuou estudando, se formou em economia, ajudou a fundar o PDT para ser um partido de esquerda verdadeiro, foi secretária da fazenda, foi sempre muito competente em sua área, acabou sendo convidada pelo presidente Lula, do PT, para ser chefe da Casa Civil. Arrasou, depois trabalhou na administração da crise energética, assunto que ela já dominava. Foi eleita presidente e manteve a economia brasileira estável, mesmo o Brasil sendo caudatário da crise mundial. O Brasil vem se defendendo bem da crise econômica, está fazendo alianças mais fortes com países fora do eixo Europa e EUA e isso, se estivesse melhor, certamente teria trazido mais miséria, mas nos governos do PT a miséria está diminuindo, as pessoas estão podendo estudar mais, hoje só 7% da população do país é analfabeta.

Ainda é um país que professores ganham mal, é conservador, muita gente tem saudade da época do militares, quando as pessoas não podiam nem reclamar de ganhar mal, se reunir, reivindicar direitos, é tudo muito complexo.
“Por que os políticos roubam, a Dilma e a Marina roubam”?

 Não, nenhuma das candidatas tem qualquer mancha em seu nome, não que eu saiba e muitos políticos, de diversos partidos, não roubam, não se envolvem em negociatas, não aceitam favores em troca de voto, não usam o voto como arma de empresas e bancos contra a população, mas no jogo político para formação de bolsões, muitos políticos “precisam” fazer isso. Por exemplo, se um banco investe dinheiro em um candidato, ele vai esperar retorno do partido do candidato. Os bancos têm a política de ganhar em cima da distribuição, dão um X para faturar 6X, 10X. Quanto mais eles faturam, mais aumentarão os bolsões de pobreza que alimentam os bolsões de pobreza. Quando não existe limite para o lucro está feita a festa de poucos sobre muitos, livremente. Quando o Estado toma o lucro para si e não distribui adequadamente pode dar no mesmo, mas o Estado pode prestar contas, o poder privado não tem essa obrigação.

Os bancos, por exemplo, poder privado, faturaram muito nos últimos governos desde a época da ditadura, as empresas privadas de grandes capitais vêm crescendo e quanto mais ganham, menos impostos pagam. Isso nunca mudou, está atrelado à política internacional, às grandes marcas, indústria bélica, de alimentos, medicamentos, drogas de dentro e de fora das farmácias, pequenas e grandes guerras.

“Todos os partidos são iguais, não tem um partido novo para o bem da maioria das pessoas da minoria, que diminua essa coisa dos bolsões de dinheiro dos venenos, da destruição do meio ambiente? Não é o da Luciana Genro, o PSOL?”

É, então, lembra da Dilma e da Marina, que passaram de um partido para outro, pois o PSOL nasceu dos descontentes do PT quando o PT cresceu. Os partidos são assim que nem matrioskas, vão saindo uns de dentro dos outros, só que são matrioskas que crescem, vai enchendo de gente e entram os interesses das gentes e quando estão bem grandes é porque se fez muitos acordos, estão em outra escala.


“É, estudei as escalas, maior em dispersão, menor em concentração, maior em concentração, menor em dispersão.”




“Então, não tem saída, mãe, vai ser sempre igual até o mundo acabar?”

A saída sempre tem, a saída é todo dia, aprendendo, conhecendo, melhorando como pessoas, nós vamos melhorando, o mundo vai melhorando em algumas coisas, vai perdendo e ganhando de um lado e de outro e de todos os lados. Os seres humanos sempre mataram uns aos outros, sempre brigaram e em todas as épocas sempre houve seres humanos que procuraram entender os outros e conversar sem brigar. Mesmo quando quase todos os pais batiam nas crianças, havia pais que não batiam, que apostavam nas conversas, na educação. A escravidão que já foi lei, hoje ainda existe, mas em escala menor em muitos lugares do mundo. As lutas religiosas, políticas e sociais sempre vão existir, como cidadãos devemos praticar o que acreditamos e lutar por isso. Ao errar reconhecer que erramos, tentar enxergar as coisas pelo ponto de vista do outro, assim como no xadrez, por diversão de entender o melhor e fazer o melhor e não para destruir o outro. Nós sabemos que a graça não é dar xeque-mate no terceiro lance, mas pensar bem em todas as peças do jogo, de um lado e de outro, com todos os jogos anteriores memorizados e cada vez mais possibilidades de prever a maior quantidade de lances. A maior graça da vida é a graça de se sentir melhor e para isso só fazendo melhor, aí vai colhendo alegrias, trocas saudáveis, ganhando saúde, sentindo prazer.


“Ué, mas então quem faz tudo para si mesmo e só quer se dar bem não é quem se sente melhor”?

Não, aí a pessoa se torna maior, não melhor. Quem faz mal aos outros em pequena ou grande escala, sempre se sente pior, mais cedo ou mais tarde, então xeque-mate!



terça-feira, 2 de setembro de 2014

Oficina especial para profissionais

Com base prática no grupo semanal de movimento com gestantes de Porto Alegre, após 100% de partos naturais no ano de 2014, nasce a oficina Gestação, Parto e Leitura Corporal a pedido da psicóloga e doula Vânia Bezerra, que já produziu as outras oficinas por duas vezes na cidade de São Carlos.







domingo, 24 de agosto de 2014

Multiplicação de conhecimentos não se faz dentro de panelas

Cláudia Rodrigues




Quase sempre que alguém resolve promover uma das minhas oficinas, surge a dúvida sobre o perfil das participantes e uma das frases que mais ouço é: "tem essa pessoa ou esse grupo, mas elas são mãezinhas", esse último um termo designado entre as ativistas do parto e do nascimento humanizado para estereotipar mulheres que ainda não têm informações sobre os valores qualitativos e quantitativos de um parto natural, da amamentação ou da criação amorosa e respeitosa com as crianças a partir de estudos que contrariam as práticas conservadoras, adquiridas de geração para geração por meio oral e não pela leitura e interpretação reflexiva de várias linhas de pesquisa e conhecimento.

A recomendação que faço é sempre de abertura, qualquer mulher interessada no tema é bem-vinda. Não devemos nutrir preconceitos ou alimentar medos de ouvir e argumentar com as mulheres que não estão dentro dos saberes básicos sobre a humanização do parto e do nascimento. Todas as teorias e práticas de educação têm algo de bom e servem de maneira diferenciada e diversificada para melhorar o atendimento às crianças. Todas as formas de nascimento têm seu valor, é preciso ouvir e compreender aquele milionésimo de diferença que separa uma pessoa de outra, mesmo quando o milionésimo nos ilude como sendo anos luz. Quanto mais distantes nos achamos do nosso interlocutor, mais próximos estamos dele e não o contrário.


Quando fechamos a porta para quem pensa diferente, não só deixamos de multiplicar informações, como deixamos de aprender com quem sabe outras coisas que não sabemos. É muita onipotência pensar que uma "maezinha" não tem nada a acrescentar e só fará as ativistas perderem tempo e paciência, quando poderiam estar crescendo juntas. Ledo engano, panela nunca foi solução e nem multiplicadora de conhecimentos, panelas promovem sub-panelas e hipocrisias, estabelecem relações verticais, mitos e babação de ovo. No final das contas não há como oxigenar as relações, cheias de nós e cada vez com menores possibilidades para práticas horizontais de relacionamentos.

Em 2011, em uma oficina em Belo Horizonte, apareceu uma moça completamente por fora do que era humanização, ela ganhou um bolsa de uma ong e foi lá conferir o que era aquilo. Foi uma das melhores oficinas justamente pelas perguntas que ela fazia, pelas contestações. Houve um momento em que o grupo chegou a ficar "revoltado", como se ela estivesse me agredindo, mas estava ali uma pessoa deliciosa que questionava ao seu modo, com o que trazia e de maneira brilhante traduzia o pensar do status quo. O que ela exigiu de mim? Que eu desse uma aula mais profunda e foi o que ocorreu. As informações que dei a ela acabaram nutrindo as ativistas, que costumam concordar com o que eu falo, com o que eu mostro. Discordar nunca é um problema quando escolhemos troca de informações e questões, complexidades em vez de neutralizar ou desqualificar aquele que discorda de nós. Assim que para multiplicar e abrir conhecimentos que temos, precisamos sempre estudar mais, ler mais, ler o outro, trazer mais o outro para dentro de nós em vez de apenas penetrar o outro com o que temos para dar. Dar é sempre mais fácil do que receber, dar é bom para o ego, alimenta o nosso narcisismo, receber exige humildade, descer do pedestal, partir do princípio de que podemos ser sempre menores do que nos auto-julgamos.


O que é mais fácil e mais lucrativo em panelas é a agregação de semelhantes, de iguais, mas assim os pensamentos e ações congelam-se em padrões repetidos de comportamento. Se uma mulher teve uma cesariana que considera desnecessária e está fechada, enclausurada numa panela de ativistas, o que ela terá de conexão em identificação com suas semelhantes será ok, mas poderá faltar ainda a conexão com uma igual em sentimentos, em internalizações que as levaram a esse auto-engano. Assim é com a amamentação, aprendemos tanto com quem se identifica com nosso problema, como com quem se desindentifica. É um erro pensar que só crescemos entre iguais. Os iguais, os semelhantes, fortalecem nossos egos, mas são os diferentes que nos fazem ir além.

Assim é com leituras. É maravilhoso ler um autor com quem concordamos muito, dá vontade de saltar e beijar seu rosto, conversar sobre o tema, descobrir semelhanças de nossas leituras e sempre haverá semelhanças, sincronicidade, isso é sem dúvida excelente, um prazer, mas um desafio não é. Ficamos mais longe da problematização e nos escapam eventuais buracos e complexidades. O desafio é lermos também gente que pensa diferente, pesquisar outros princípios, ver sentidos em outros paradigmas, mesmo que o outro paradigma seja o de massa, aquele que lutamos para oxigenar. Não ficamos maiores em nossos saberes ao conhecer quem difere de nós, não crescemos em expansão, mas ficamos mais nítidos, mais vivos, mais conscientes de nossas inconsciências. Se o outro nos provoca, que interessante perceber isso em nós, que desafio entender o ponto de vista do outro, suas estratégias de sobrevivência, sua busca pelo prazer. Somente com diferentes, entre diferentes, podemos exercitar nossa capacidade crítica junto aos semelhantes e ela é fundamental para não nos encerrar em relações hipócritas e aparentemente confortáveis, costumeiramente lucrativas por meio de exercícios mentais leves e psiquicamente indolores.



Multiplicar conhecimento sobre temas que estudamos não pode se encerrar em fazer a cabeça das pessoas, do tipo quem tem cabeça feita entra para a panela e cumpre as regras da panela, quem pensa um quê de diferente sai da panela, fecha a panela, aumenta a pressão. Multiplicar conhecimento é abrir mão do ego em prol de um melhor afinamento empático, não pode ser um combate e muito menos doutrinas excludentes.

Em relacionamentos horizontais não partimos da premissa que sabemos mais, mas que podemos saber mais e entender melhor a partir do outro. Em relacionamentos verticais excluímos quem pensa diferente, quem sente diferente e damos por completo e pleno o conhecimento, que é sempre mutável, está sempre em movimento.

Em relacionamentos horizontais de propagação e troca de conhecimentos e informações, crescemos juntos em movimentos constantes, a bola não para. Em relacionamentos verticais seguramos o conhecimento e as informações entre nossos pares, não há crescimento real para todos, a bola fica parada, há um ponto final no conhecimento que passa a ser inquestionável. A arrogância toma conta dos comportamentos, perde-se a ética, inicia-se a demonização de atitudes, pessoas e objetos a partir de verdades-únicas não só fora da panela, mas especialmente dentro dela.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Você pensa que toca o sagrado?

Keretxu Miri em desenho feito por Gaia Hasse a partir de uma foto, em 2012
Cláudia Rodrigues  

A relação do ser humano com o sagrado é muito antiga. Dessa ligação humana com as coisas, sentimentos e atitudes inexplicáveis, nasceram as religiões, cultos, veneração a deuses e crenças, muitas crenças, muita imaginação. Não tenho dúvidas que o sagrado existe, mas ele não pode ser tocado, muito menos seguido, perseguido e vira um mal desnecessário quando serve para culpabilizar e impedir os prazeres humanos, sejam eles carnais ou espirituais. Sim, atrás de uma simples taça de vinho, pode haver um sagrado pensamento, por mais banal  e luxurioso que seja o ato de sorver uma taça de vinho.

Descobri isso conversando com a pajé e parteira da tribo Tekoa Porã, Keretxu Miri, durante uma entrevista sobre partos. Muito lúcida, foi extremamente transparente na entrevista http://pib.socioambiental.org/anexos/7144_20091202_105857.pdfhttp://pib.socioambiental.org/anexos/7144_20091202_105857.pdf mas em um dado momento, quase se arrependeu de citar o "getapaurã", instrumento de madeira, semelhante a uma tesoura, que é usado para cortar o cordão umbilical do bebê. Muito educadamente explicou que o "getapaurã" é sagrado e no sagrado não se toca.

Para ela, até a decisão de uma jovem da tribo de ir para o hospital do homem branco, em vez de parir com ela, era uma decisão sagrada. O sagrado, segundo Keretxu, nunca está no pensamento, não é fruto da imaginação, mas dos sentimentos e cada pessoa tem o seu sagrado. Lá pelas tantas, quando ela me relatou sobre ser sagrada a morte de animais, que depois de serem comidos tinham suas peles e dentes transformadas em adornos, como reverência e uma certa imortalidade, tanto quanto ser sagrado o ato de colher umas folhas de chá e sua intenção na hora da colheita, acabei juntando, talvez confundindo, o sagrado com o amor e o prazer genuíno dos nossos atos. Fui para casa conversando com a minha companheirinha mirim, a menina Gaia, então com 6 anos, sobre nossas aventuras quinzenais na tribo. Parecia um vício, sempre retornávamos. Não havia tanta coisa para fazer lá, ela ficava solta com os amigos, um dia a maior alegria era subir e descer sobre a montanha de farinha de mandioca, em outro era colher palmitos na mata, aprendendo que palmito estava maduro, que palmito ainda não poderia ser colhido, podia ser também um fazer nada, andar ao léo, brincar de arco e flecha ou com os instrumentos musicais, enquanto os adultos conversavam, mas era sempre uma espécie de vício, não se passava um mês sem uma saudade e um ter que voltar.

Aquilo tão simples, tão normal, era um pouco do sagrado ou mexia com o sagrado em nós. Havia regras, mistérios, lugares que não podíamos ir, coisas que não podíamos tocar ou ver. No sagrado não se toca, no máximo podemos sentir, mas ele foge de nós em segundos. O sagrado é a perfeição de um momento, o momento não dura mais do que alguns segundos. O desespero humano, entretanto, tenta reter o sagrado, compreendê-lo, esmiuçar e criar regras a fim de não deixar que ele escape e é aí mesmo que tudo se vai pelos ares. O sagrado é como o rio que corre, não se pode pegar a água do rio, aquela água visualizada a ser tomada com as mãos no rio, acabou de passar, já estamos na próxima água e ela já não está mais lá. Muito espertos, inventamos a represa ou o copo, mas neles a água não corre e se não corre, é apenas água que mata a sede e hidrata o corpo, mas sagrada só mesmo a água do rio, correndo no rio, do rio para o mar.

Um dos sintomas dessa perseguição ao sagrado hoje em dia, se refugia nos dogmas de um espiritual separado do corpo, nosso rio de águas em  movimentos constantes, nosso único rio sagrado. Nós o desprezamos, queremos soluções mágicas e para isso usamos a imaginação como sendo a suprema fonte do sagrado e caímos em culpa, represamos nosso rio interno enchendo-o de pensamentos mágicos persecutórios. Fantasiar com penitências a serem pagas é deixar de sentir prazer, é como encher um rio com sacolas plásticas, é poluir nossas águas internas, só para fingir que sabemos o que estamos fazendo.



Fico triste quando vejo uma jovem mãe achando que perdeu ou não encontrou a mulher sagrada em seu corpo porque não pariu ou porque não amamentou. O sagrado feminino não se encerra no parto e nem na amamentação, o sagrado não é coisa alguma quando visa doutrinar. O que é sagrado está livre de culpa, é livre para o prazer. Pode ser que haja uma vida espiritual e sem corpo depois da morte, posto que depois da morte corpo não há, mas o sagrado aqui na terra, o sagrado de corpo vivo, se mora em algum lugar, não é na culpa e na impossibilidade de prazeres. Ok, parto é prazer, não tenho dúvidas disso, mas é também o olhar contemplativo para o recém-nascido; as águas do nascimento correm rio abaixo para o próximo momento. Já foram, já passaram. Se pode pensar sobre elas com o cérebro, com reflexões, mas temos que deixar o rio correr em vida porque ele corre inexoravelmente para a morte e o nascimento de alguém mata o momento do parto para que nasçam outros momentos.

A morte até pode ser um estado de espiritualidade sem corpo, pode ser que seja apenas o fim dos fins, sem nada mais, mas o conceito de que estamos sendo punidos porque não pegamos tais milímetros de água enquanto o rio corria, é fugir de um estado de vitalidade pulsante para um estado de letargia imaginativa.

Isso é muito comum em religiões. Em algumas, a explicação de uma cesariana ou de um filho com uma doença grave, até mesmo a morte de um ente querido, é usada de maneira a resignar a pessoa a um lugar de menos prazer. "ah , isso foi de uma vida passada, um karma", ou seja, a pessoa tem que arcar com uma culpa medonha a partir de um imaginário obviamente criado por uma mente humana, em vida.

O sagrado começa a vir cheio de doutrinas e explicações que fogem completamente da única luta sagrada que podemos desfrutar, que é o prazer. Investe-se em melancolia como uma promessa de passagem para uma vida melhor, sabe-se lá em que milênio do futuro. O presente, mal vivido historicamente, politicamente, ambientalmente, o presente das relações de afeto acaba comprometido, paralisado entre um passado e um futuro imaginário.


A vida, tal como conhecemos, a que nos é dada aqui nesse terreno de ar, começa no nascimento. Lentamente vamos tomando consciência do mundo, de tudo que está fora, nos desenvolvemos pelo prazer, vamos adquirindo consciência sobre nossos sentimentos, nossos corpos e finalmente, adultos, passamos a temer a morte, o rio que corre para o fim. O conflito de saber que somos finitos muitas vezes nós faz morrer antes da hora, um pouco a cada dia. As fugas são muitas, variam entre shoppings e cultos mil e no fundo toda a parafernália cultural nos promete o troféu que nunca virá, da vida eterna. Ansiosos pelo porvir, lacrimosos pelo que passou, morremos aqui e agora.

Entre mil e umas maneiras de comer e amar, pensar e fazer, vamos nos desconectando do sentir, o único sagrado que temos aqui, vamos nos segurando em formas e fôrmas competitivas e apressadas, mesmo quando a lei do nosso culto, da nossa crença, é para sermos lentos. Não tem saída, não há centenas de deuses, mas bilhões deles, o supremo é o louco que nos habita e ele nunca deve ser seguido. A descomunhão não se dá por excesso de deuses, mas por excesso de ovelhas. Sobra paixão pelo que está fora e falta amor para o que está dentro. Não aguentamos ver o rio passar, queremos que ele passe a nossa maneira.


Aprender a ver, cheirar, ouvir, sentir e deixar correr o nosso rio interno é uma tarefa mais árdua quando partimos de pressupostos imaginários, de crenças que nos foram impostas, de saídas estratégicas que criamos para sobreviver. Os filtros da família, do mundo, da cultura, do conhecimento, têm um papel importante para nos fazer sair dessas zonas de (des)conforto. Podemos e devemos receber as sementes dos outros em nós, mas se o outro é pântano e eu sou deserto, há sementes que não vão vingar, mas não é por isso que a via sacra do deserto vai ser menos bela que a via sacra do pântano ou da floresta, da selva ou do cerrado, da caatinga, da montanha ou da mata da praia. A via sacra é o sagrado de cada um. Ainda que seja apenas um jardim ornamental, que seja o mais vicejante que pode ser.

Temos uma natureza gigantesca, exuberante e ao mesmo tempo extremamente simples que reflete o melhor de nós aqui mesmo, ao alcance dos nossos olhos, mas nos deixamos levar pela ganância de dominá-la, compreendê-la mais do que senti-la em nossos corpos.




terça-feira, 19 de agosto de 2014

Adultos infantilizados X crianças birrentas

Cláudia Rodrigues  

Um dos exercícios que fizemos hoje na oficina Inscrições Corporais, no Solar do Caminho, em Porto Alegre, foi o de remeter o adulto ao seu corpo de dois anos. Por meio de exercícios que "imitam" o que se passa no corpo do bebê entre o primeiro mês e o segundo ano de vida, o adulto sentiu na pele o quanto o bebê se esforça desde o nascimento para um "acordar-se" para a vida.


No caso o que tratamos
 foi acordar o adulto para a importância de atender bem essa fase, de maneira emocionalmente segura e cognitivamente eficiente.


O acordar do bebê para vida começa pela ligação ao peito da mãe ou pela mamadeira, a busca do alimento o salvará, ele vive isso, ele pulsa para a vida. Já lutou para nascer ou nasceu por meio de cesariana e pulsa em direção a essa novidade de viver no ar.

Sai do seu lugar de peixe, passa um bom período evoluindo no seu lugar reptiliano, adquire a capacidade de rastejar, engatinhar, parar em pé, passa a ouvir e decodificar sons. Antes disso, por volta dos quatro meses, desenvolveu seu olhar para longe, passou a ver a copa das árvores ou topo dos prédios, coisas que antes apareciam difusas para ele, desfocadas.

Por volta de um ano, um pouco antes, um pouco depois, ele para em pé sem apoio e começa a dar os primeiros passos. É uma grande vitória, depois de muito esforço.

Costuma chegar aos dois anos ávido por prazeres com seus braços e pernas, olhos, ouvidos, olfato, paladar apurado para a variedade de alimentos que experimentou. Vai pedir o que conhece, estará embasado no que conhece, no que foi oferecido a ele nesses primeiros dois anos de vida.

O filhote humano aos dois anos é capaz de muitas coisas, de quase tudo o que sonhou. Ele vai querer saber mais, lutar para se desenvolver mais e melhor, mas os últimos dois anos foram de uma evolução intensa e rápida. De movimentos involuntários, ele chegou a uma alta capacidade de ser locomover, é muito capaz, merece se divertir, movimentar-se, explorar a casa, o pátio, os parques. O bebê de dois anos é um pesquisador, completou sua graduação em pesquisa do desenvolvimento de seu próprio corpo.

O mestrado é entre 2 e 4. Ele vai exigir mais dos seus orientadores, agora já não se contenta em ser orientado apenas para fazer coisas, ele começa a pensar de maneira mais elaborada, ele tem ideias próprias. Algumas dessas ideias podem parecer absurdas para os adultos, ilógicas e não são raros os cabos de guerra, as seduções, ameaças, insultos, castigos ou as tais dinossáuricas palmadas, que estabelecem uma relação escravagista com a criança.

Tudo o que ela quer e precisa para ficar bem, sem ataques, é que o adulto seja mais inteligente do que ela. Quando uma criança entre 2 e 4 anos teima com um adulto e recebe de volta apenas um não, ela se desespera e não consegue explicar suas razões. Ela ainda não tem desenvolvimento cortical suficiente para raciocínios elaborados por meio da argumentação complexa a ver com as necessidades dos adultos.

Quando uma criança escolhe uma roupa de verão para usar no inverno e seus cuidadores têm dificuldade de convencê-la a colocar uma roupa mais adequada, costumam ficar teimando com argumentos de adulto, explicam sobre o clima e muitas vezes isso vai irritando ainda mais a criança. O ideal seria que antes de explicar o adulto tentasse receber a criança e sua fantasia, que talvez fosse algo como, "hoje sonhei que estava na praia, acordei com calor, lembrei dessa roupa e decidi colocar". Mas a criança não consegue narrar com 2, 3 anos, dessa forma, para argumentar com um adulto, especialmente se o adulto já estiver surtado, insultando a criança. De qualquer maneira, tentar seduzir, induzir, convencer, nem sempre evitam a crise.

Bater, gritar e insultar obviamente também não seriam soluções inteligentes e promotoras de um bom desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças.

A única coisa que a criança quer realmente é ser compreendida, desabafar isso de alguma forma, antes de sucumbir ao entendimento da lógica adulta e fazer o que precisa ser feito. A criança entre 2 e 4 anos luta por sua autonomia e contra a submissão. Ela pode compreender os limites, respeitá-los, fazer a sua parte, pode chegar muito bem ao final dos quatro anos, mas vai ser mais difícil se tiver sido uma luta inglória, se foi impedida de se desenvolver: provocada, desafiada, insultada, ameaçada, estapeada, surrada, seduzida.

Apenas porque nessa fase o primordial para ela era justamente sentir-se mais capaz em sua autonomia.

Os adultos pais de crianças entre 2 e 4 anos precisam ser apenas mais inteligentes do que seus filhos, não para manipulá-los, mas para compreendê-los e a partir dessa compreensão, dar continuidade ao relacionamento, que aliás agora pode ser um pouco mais democrático do que entre 0 e 2 anos. Entre 2 e 4 anos a criança que foi respeitada em suas dificuldades e frustrações, consegue e aprecia cumprir regras simples, esperar por uma comida, brincar por mais tempo sozinha ou com outras crianças. Aos 4 anos já evoluiu bastante sua linguagem, consegue argumentar, se interessa muito pelo mundo, faz perguntas, está apta ao final desse período para elaborações mais profundas. Já não apenas imita e faz, ela agora produz e tem senso de sua produção: desenha, algumas já se interessam por letras e palavras, elaboram pequenas histórias orais, teatros, são capazes de criar canções e letras espontaneamente, têm imaginação fértil, viver é um estado lúdico permanente.

Cabe aos adultos, diante da criança que tenta imitá-los, evitar regredir e entrar em competição para ver quem é o mais forte, evitar cair no drama de infantilizar-se diante da evolução natural da criança. O adulto que xinga, teima, barganha, ameaça, insulta, seduz,
está recorrendo ao seu corpo infantil, incapaz de dar conta de alguém que, inacreditavelmente, cresceu e precisa um outro status de relacionamento.

sábado, 16 de agosto de 2014

Trabalho de Parto


Por Cláudia Rodrigues
Parto é vida, nascimento, luz, mas também sombra, a morte de um estado de simbiose. Um corpo que se prepara para parir vai viver uma grandiosa transformação, multiplicadora de vida. E marcadora do final de um processo.
Focando bem, veremos que é relativamente rápida a evolução de um óvulo fecundado, um pontinho, que em cerca de 40 semanas virou um feto que já não cabe na barriga da mãe.Com tantos estímulos externos não percebemos a passagem dessas semanas como percebíamos no início da civilização. Nossa capacidade contemplativa está escassa, viemos ganhando em diversidade e pasteurização ao longo da história da civilização, mas perdendo em contemplação e foco. A gravidez tem o mesmo tempo de antes, ainda somos bípedes que andam cerca de 4 km por hora, mas vivemos correndo. O corpo atropelado pela velocidade crítica do pensamento e da “fazeção” interfere no contato com nossos próprios sentimentos.
Como dar conta de expulsar um ser tão frágil? Como lidar com a própria fragilidade? Como administrar harmonicamente o nosso eu visceral, tão necessário nessa fase, com nosso eu cultural? Especialmente nas primíparas abundam as fantasias de dilaceração. Como um bebê enorme pode passar por um buraquinho daqueles sem causar um grande estrago?
Mesmo contra todas as evidências, algumas mulheres acreditam na necessidade de episiotomia e duvidam da elasticidade de suas vaginas. O bebê enorme e cabeçudo que nasce rasgando a mãe, partindo-a ao meio não é visto ou sentido como simbolismo do processo da dor da separação, mas como uma ameaça à integridade do corpo físico da mãe.
O corpo enorme da grávida no final da gestação, a irrigação sanguínea aumentada, os hormônios, os líquidos lubrificantes não são vistos ou sentidos como força, como aumento do poder daquele corpo prestes a passar por uma das mais belas transformações da natureza, mas como um corpo vitimado pelo fantasma de um ser gigante que habita o ventre e virá pra destruir a mulher e não para ajudar a construir a mãe na mulher. Aí reside o grande medo de deixar o bebê passar, fundamentado externamente pelos ultrassons que atestam o gigantismo, os cordões malignos que enforcarão o bebê na passagem e boicotarão o parto. Lá está a mulher com o bebê trancado na pequena vagina indefesa. O medo natural de não ser capaz de salvar e salvar-se na luta pela sobrevivência encontra na sociedade tecnicista um campo fértil para desresponsabilizar a mulher pelo processo de desencadeamento do parto. O corpo tenta, ele produz as contrações, mas a mulher culturalmente comprometida pela tragédia mítica associada ao parto pode adiar o trabalho de parto fechando a pelve, erguendo os ombros, apertando os dentes e desoxigenando o feto com uma respiração curta e superficial. Desesperada, sentindo-se encurralada, ela pode recusar-se inconscientemente a parir e conscientemente apelar para uma solução externa.
O trabalho de parto é historicamente longo. Os relatos de partos tsunâmicos, de mulheres que não conseguiram chegar aos hospitais e pariram nas ruas são fatos reais, mas se formos observar caso a caso veremos que sintomas, provavelmente pouco dolorosos, estiveram presentes desde o dia anterior ou pelo menos horas antes da busca pela ajuda externa. Fato é que o período expulsivo em si pode ser mais longo ou resolvido por algumas mulheres em curto espaço de tempo. A ambivalência bem vivida nos três primeiros meses, quando a mulher se deixa levar sem culpa pelos penosos sentimentos de ser ou não capaz de tornar-se mãe daquele filho naquele momento de sua vida fazem toda a diferença na hora da expulsão sob o ponto de vista emocional. Da mesma forma, nesse dia da expulsão, faz diferença que o segundo trimestre tenha sido de confiança e permissão para a simbiose com o bebê no útero. “Sim, eu passo bem, sim meu corpo é capaz de gestar um bom bebê, sim, estamos bem, obrigada”. Cada fase da gravidez vivida plenamente de acordo com as necessidades do corpo faz a sua parte na construção de um trabalho de parto alegre e sereno para uma expulsão igualmente feliz.
O excesso de tecnologia, as necessidades institucionais que transformaram o parto em linha de montagem hospitalar podem atrapalhar muito o bom desencadeamento do parto, um processo íntimo que pede um ambiente em que a mulher se sinta segura e tranquila para expelir o bebê. Casas de parto, partos domiciliares e maternidades humanizadas fazem parte dos novos paradigmas que visam dar à mulher um ambiente mais propício, livre de intervenções desnecessárias e principalmente respeitadores do tempo natural que é único para cada mulher. A maior parte das intervenções a que são submetidas as mulheres durante o parto normal hospitalar deve-se fundamentalmente a questões práticas focadas na linha de montagem das maternidades. Infelizmente essas intervenções, como episiotomia e a manobra de kristeller, além de desnecessárias, podem transformar a vivência essencialmente benigna de um parto em uma experiência traumática e excessivamente dolorosa.
Para algumas mulheres a expulsão é sentida como solução. O famoso parto quiabo pode ser meio frustrante para a mulher que não chega a perceber-se em trabalho de parto e não tem tempo de elaborar uma despedida por meio da dança da separação. Todo parto quiabo tem em comum com os partos mal-sucedidos que terminam em cesariana; a urgência, a correria. Não existe um trabalho de parto ideal, todo trabalho de parto é único e surpreendente, sendo ideal que a mulher ao ver-se próxima a dar à luz, entre em contato alegre e com disposição física para acompanhar a descida do bebê até o momento final: a alegria de expelir e receber o bebê com suas próprias mãos. A inteligência humana deu um salto em relação aos outros mamíferos justamente pela habilidade manual no trato com o bebê. Curiosamente, mulheres saudáveis a partir do início do século XX passaram a ter pés e mãos amarradas no momento do parto. O trabalho de parto é uma experiência corporal, fisiológica e inteligente. Utilizar o cérebro para sentir o corpo, observá-lo e receber a revolução corporal que está ocorrendo é o caminho mais amistoso para dar passagem ao bebê.
Separar-se da vida simbiótica com o bebê pode ser uma experiência dignificante, vivida como um passo para a religação que se estabelecerá pelo seio, mas para algumas mulheres esse meio de caminho pode tornar-se um fim; labirinto sem saída para a continuidade do processo: os cuidados com o bebê. A natureza faz bem a sua parte e torna a grávida de cerca de 40 semanas um ser pesado, mas psiquicamente, inconscientemente para algumas mulheres, o bebê poderia ficar 18 meses na barriga e já nascer andando.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Transtorno bipolar



Apoio à Lei Estadual nº9.176, sobre a reforma psiquiátrica e do movimento anti-manicomial que patina desde a década de 1980 no Brasil por meio de importantes vozes políticas da psiquiatria, como a do psiquiatra Carlos Salgado, presidente da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. Na última quinta-feira ele escreveu artigo no jornal Zero Hora. Como ele, a maior parte dos psiquiatras é contra a lei, é a voz oficial da psiquiatria não apoiar a formação de comunidades terapêuticas, não aprofundar os laços familiares e a compreensão dos distúrbios de afeto. Por trás da polêmica, há a indústria de laboratórios e muito corporativismo.

Em tempos de defesa dos manicômios, de grandes centros de contenção para os doentes mentais, compartilho essa ficção.


Cláudia Rodrigues

Encontrou-a de costas na cozinha, parecia estar fazendo café, mas quando se aproximou enlaçando-a carinhosamente pela cintura percebeu, apenas pelo olhar, que a doença havia voltado, manifestava-se como um pesadelo depois de 7 anos. Ela começou a falar sem parar, já havia separado várias caixas com objetos da casa para doar e pela quantidade de coisas estava claro que não dormira. Ele tentou conversar, explicar sobre a doença, mas Ela estava alta demais, pairava, apenas pairava, não se comunicava mais com a realidade. Havia acontecido de novo e Ele mais uma vez não iria interná-la, precisava organizar as coisas, cuidar do filho, ligar para o psiquiatra, esperar passar a crise.
O médico recebeu-os eufórico, ele mesmo parecia estar em surto de animação pelo novo medicamento para TAB, Transtorno Afetivo Bipolar, doença psíquica caracterizada por alternância de fases de depressão e hiperexcitabilidade.
Mudariam o remédio. Ele tentou explicar que a velha medicação estava funcionando bem, mas Ela, por algum motivo, não vinha tomando regularmente; a suspensão do remédio era o fator desencadeante da crise. O Dr. não quis saber, a nova droga era excelente, sem vários dos efeitos colaterais do antigo regulador de humor, seria perfeita para os sintomas dela, estava decidido e prescrito, era hora de mudar porque a doença progredira e agora havia um medicamento novo a ser experimentado.
Ela parecia até que bem para alguém em surto, colocou umas roupas para lavar, começou a rabiscar um desenho, mas de repente achou que a máquina estava lenta demais, retirou as roupas de lá ainda ensaboadas e começou a torcê-las manualmente. Ele foi ajudar, ofereceu para enxaguar, mas Ela deslanchou lindamente sobre uma teoria nova de lavagem de roupas, era necessário deixar um pouco de sabão porque assim se manteriam livres dos germes e bactérias por mais tempo e ficariam praticamente engomadas, afinal quem foi que desinventou a goma e por qual motivo? E o anil, a trouxinha azul anil onde estavam usando? Em balas e guloseimas e não mais nos jeans?
À noite inventava mil receitas para fazer com o filho, ficavam ambos lambuzando-se com doces, tortas e bolos na cozinha até de madrugada. E assim foram levando, Ele sempre achava melhor não contrariar, nas experiências anteriores havia funcionado melhor trazê-la para a realidade por meio de uma comunicação mais direta e carinhosa com aquele mundo interno bizarro. Medicação, afeto e liberdade vigiada eram as melhores opções, mas o novo medicamento não dava sinais de ajuda. Ela piorava visivelmente, o antidepressivo de alguma maneira parecia estar alterando o desenvolvimento da doença, Ela estava mais acelerada, não deprimia, não oscilava mais. Ele ligou para o psiquiatra que insistiu na mesma medicação, acrescentando um remédio para dormir. As coisas foram degringolando, ela dormia mal, passava a manhã apatetada rindo sozinha, não desenhava, não pintava, não lia, não fazia qualquer coisa que gostasse; sintomas que Ele não vinculava como sendo da doença. O médico explicou que era normal, que bipolares apresentavam novos sintomas a cada crise, ele sabia, estudara para isso.
Conforme o dia avançava, Ela voltava a uma aceleração exagerada, bastante incomum em comparação com as outras crises. O médico insistiu, aumentou a dosagem de ambos os medicamentos explicando que os familiares, leigos, não sabiam diferenciar o que era sintoma da doença do que era efeito colateral das drogas. Ela piorava a cada dia, dormia mais e quando acordada já não se comunicava, não fazia mais farra com o menino pela casa, não recitava teorias e nem versos de seus poetas favoritos. Ele a levava para passear e Ela apresentava novos sinais, agora de vazios, brancos, falta de memória. Ele chorava sozinho debaixo do chuveiro, já não era um homem, não sentia mais desejo, queria Ela inteira, a vida deles de volta, nenhuma crise dela havia passado de 15 dias, aquilo se estendia já por dois meses. Ele estava exausto, abatido, começava a fantasiar uma internação para poder viver, jogar futebol com o menino, apenas respirar sem ter que pensar minuto a minuto na doença dela, nos sintomas dela, na falta de prazer que havia tomado conta da vida tão boa que viviam. Parecia inútil lembrar dos últimos anos, repletos de prazer: Ela sempre tão sensata, cheia de idéias, realizadora, sexualmente criativa, de bem com a vida, pessoa denominada como genial pelos colegas e amigos. Riu sozinho, com o canto da boca, ao recordar de quando se apaixonou, sabia que Ela era rara, sempre soube desde o primeiro momento, mas não imaginou que existiriam esses raros episódios, 1% da vida deles, 1% de insanidade em altíssima intensidade que colocava todo o amor em questão. Como uma pessoa poderia virar do avesso daquele jeito?
Naquele final de tarde Ela foi firme, não quis ir junto buscar o menino na escola, Ele foi correndo, apreensivo deu um sorvete para o pequeno, que já não era tão pequeno, aos 8 anos perguntou se mamãe estava melhor e Ele então percebeu que as coisas seriam ainda mais difíceis com uma criança maior, não sabia como explicar, se devia explicar e apenas disse que sim, mamãe estava melhor e iria ficar boa logo.
Chegaram em frente ao prédio, Ela estava a descer da cabine do caminhão do lixo, íntima dos lixeiros, anotava num bloquinho as falas deles e dezenas de dados sobre os itens recolhidos, as histórias de machucados com vidros e latas, os incríveis achados nos lixos dos bairros mais ricos. Ele se aproximou gentilmente, ajudou-a se despedir dos novos amigos, com quem Ela jamais havia falado antes. Em casa tentou lembrá-la disso, que nunca havia falado com os lixeiros, muito menos dado uma volta no caminhão. Para Ela aquela lógica dele era machista, descabida, discriminatória, puro preconceito de classe! Segundo ela o mundo ia mal, muito mal, muitos excessos e muitas faltas.
O que faz falta para você no mundo?
Entenda, querido, os excessos estão aí, olha só quantos dados coletei com os lixeiros, mas como posso organizar isso se já não existe mais fita para minha Remington? Antes uma fita se encontrava em qualquer papelaria barata, qualquer armazém de esquina, agora temos tantas papelarias chiquérrimas, supermercados, esses labirintos de consumo, mas não se encontra nessa imensa cidade uma simples fita para máquina de escrever!
Querida, tente colocar os dados no computador.
Ah que ótima idéia, como fui esquecer do computador!?
Ele a abraçou carinhosamente, deu o medicamento, abriu a planilha na tela e foi ajudar o menino nas tarefas da escola. A vizinha bateu na porta, trazia as roupas secas do varal, misteriosamente elas estavam na sua área de serviço. Ela levantou-se rapidamente da cadeira e recebeu a vizinha, convidou para sentar e foi passar chá com biscoitos moídos na cafeteira, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Mais naturalmente ainda explicou que Ela mesma havia jogado as roupas para a área de serviço ao lado porque aquela era uma labuta muito chata e os vizinhos precisavam ajudar. Percebendo a indignação da vizinha, Ele intercedeu, pediu desculpas encaminhando-a até a porta e após a mulher ir-se, desentendida da situação, sentou-se com Ela e explicou que aquilo não seria tolerado, que Ela precisava se concentrar em um papel social aceitável ou então precisariam interná-la. A idéia da internação apavorava-a, Ele não gostava de ameaçá-la, mas às vezes era necessário, apenas funcionava e às 22h, depois de um dia interminável, as coisas simplesmente precisavam funcionar. Ela foi chorar acocorada num canto, mais parecia um animalzinho machucado, em nada lembrava a figura linda, ponderada, equilibrada, a mulher brilhante, organizada, competente, concentrada, tão amável, tão amada.
Ele precisou deixá-la ali, talvez viesse a depressão, de qualquer forma Ele precisava colocar o menino para dormir, dar um beijo de boa noite.
Papai, mamãe é louca?
Não, não é.
Mas na escola estão dizendo que ela é louca e eu acho que ela é louca, eu acho, você está mentindo para mim, está mentindo, mentindo!
Ah sim, filho, as pessoas usam esse nome, essa palavra “louca” para definir tudo aquilo que não entendem sobre inteligência e sensibilidade. Você acha que uma pessoa certa, qualquer pessoa, qualquer outra mãe pinta esses quadros bonitos assim como sua mãe? Você sabia que pessoas certas nunca entram de roupa dentro do mar, como sua mãe entrou com você no último verão?
Pai, eu lembro do sabiá que ela criou comigo aqui na área de serviço, ninguém acreditava que ele seria nosso amigo sem gaiola e ele é nosso amigo até hoje, e sem gaiola! Tia Cris chamava mamãe de louca por causa do Salíbero, mas isso é mesmo uma inteligência.
Sim, isso mesmo, as pessoas que são chamadas de loucas fazem coisas que as outras não entendem porque as outras não são capazes. As outras também têm nome, mas nós somos elegantes e não usamos esse nome para defini-las porque não há razão para separar as pessoas em nomes tão assustadores.
Que nome têm as pessoas certas, pai?
Elas se chamam normopatas, mas não usamos, ok? Fica segredo entre nós porque chamar as pessoas de normapatas é dizer que elas são meio burrinhas, não sabem voar em pensamentos, muito menos em atitudes e ainda vivem condenando a liberdade de pensamentos e ações dos outros.
Pai, ela vai ficar assim inteligente para sempre, jogando as roupas na casa da vizinha, colocando bolo para assar no sol, andando com os lixeiros? É que eu prefiro mamãe mais burrinha mesmo, essa coisa pata aí.
Ela vai ficar boa, vai ficar mais burrinha e certinha, nós vamos acertar um bom remédio normalizador de mamãe e nós vamos ter a nossa vida de volta, só mais uns dias, vamos ter paciência, o importante é que nós sabemos e não podemos esquecer que ela é muito legal e nós gostamos muito dela, para sempre.
Sim, pai, boa noite, nós amamos mamãe para sempre…Pai?
Sim…
Você acha que eu sou muito inteligente e sensível ou normal pato?
Hummm, você é na medida exata.
Como você sabe qual a medida exata?
Eu não sei, é tudo por enquanto, as coisas vão mudando, nós vamos buscando, encontrando as soluções, o importante é nunca desistir do caminho do meio, entre os loucos e os normopatas.
Na manhã seguinte Ela estava quase normal, suava e tremia muito, mas já havia telefonado para a cunhada vir buscar o menino, estava com anotações de nomes e telefones de vários psiquiatras.
Olhou para Ele e muito seriamente perguntou se o seu comportamento naquela manhã parecia minimamente aceitável socialmente. Ele sorriu e disse que sim, enquanto colocava um casaco sobre seus ombros.
Então se prepare para não enfurecer porque faz 24 horas que não estou tomando as novas drogas, eu burlei, senti que o remédio estava errado, preciso voltar a tomar minha medicação e quando estiver bem devo me convencer a não burlar e continuar tomando, sistematicamente. Vamos a outro médico? Pode ser?
Pode, vou te ajudar, nós vamos conseguir de novo.
Segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, o Transtorno Afetivo Bipolar atinge 8,3% dos paulistanos.
No Brasil estima-se que quase 3 milhões de pessoas sejam portadoras de TAB e mais da metade delas não faz o tratamento adequado.
A doença, que inicialmente foi denominada como Psicose Maníaco Depressiva, leva em média 10 anos para ser diagnosticada. É comum ser confundida com esquizofrenia e o uso de álcool ou outros psicoativos pode dificultar tanto o diagnóstico quanto o tratamento.
O uso de antidepressivos e anticonvulsivantes em bipolares deve ser cuidadoso, criterioso e nunca generalizado.
A bipolaridade não tem cura. Quando tratado adequadamente o bipolar apresenta comportamento normal e por isso para de tomar a medicação preventiva.
O histórico do paciente deve prevalecer sobre qualquer marketing vindo dos laboratórios.

domingo, 3 de agosto de 2014

Oficinas em Porto Alegre


A oficina Gravidez, Parto e Simbiose é centrada nas experiências psíquicas da fase reprodutiva, seus transtornos e as possíveis soluções para uma gestação, um parto e uma amamentação boas o bastante para vida emocional da dupla mãe/bebê.
A oficina Inscrições Corporais é focada na prevenção de neuroses por meio da compreensão das fases do desenvolvimento humano de 0 a 6 anos, os transtornos mais comuns em cada etapa, o reconhecimento das inscrições corporais no adulto e a prevenção dessas dores a fim de atenuar as projeções em nossas crianças.

Oficina Gestação, Parto & Simbiose
Um mergulho teórico e prático nas singularidades emocionais que travam o corpo feminino impedindo-o de parir, amamentar e viver simbiose e separação.
Com Cláudia Rodrigues*

Público: Profissionais e interessados em humanização do parto e do nascimento. Psicólogos, enfermeiros, médicos, mulheres que tiveram cesarianas desnecessárias ou sofreram violência obstétrica, mulheres e homens interessados no que se passa com o corpo e os processos emocionais X culturais diante da fecundação, gestação, trabalho de parto, momento da expulsão e ressimbiotização via amamentação. 
A oficina é artesanal e costuma ser espontaneamente direcionada para as singularidades do grupo e suas questões.

Programa
Fecundação Quando corpos sadios não se deixam fecundar A separação entre o desejo e a vontade A mãe mal vista – a mulher ressentida  

Gestação 
Os três primeiros meses – a implantação Sentimentos Ambivalentes Danças dos hormônios – os sintomas Simbiose e Rejeição Os três meses do meio – o desenvolvimento O rei na barriga – ou seria uma rainha? Tornar-se mãe – deixar de ser filha Os três meses finais - ansiedade de separação O medo do parto: grande mestre ou vilão  

Trabalho de parto 
O medo de expulsar - fantasias de dilaceração A expulsão vista como tragédia A expulsão sentida como solução Dar a passagem – dar à luz Cortar a simbiose ou continuidade somática? Os seis padrões básicos durante o TP Leitura corporal Tendências de cada caráter Busca de soluções singulares  

Amamentação
 A agressividade da expulsão reparada pela amamentação A agressividade da expulsão e a euforia do parto Transtornos da amamentação após o parto Transtornos da amamentação após a cirurgia Amamentação e simbiose do bebê Amamentação sentida como prisão Amamentação: uma viagem rumo à autonomia do bebê Corpo, Arte e Conclusão 


Oficina Inscrições Corporais
Padrões genéticos e educação, uma reflexão sobre o tema: Como a educação pode reforçar ou atenuar as dores dos padrões genéticos no corpo humanocom Cláudia Rodrigues*

Público
: Educadores, psicólogos, mães, pais, avós, babás e cuidadores da criança de 0 a 6 anos. Os grupos podem ser mistos ou restritos a um determinado público. A oficina é artesanal e costuma ser espontaneamente direcionada para as singularidades do grupo e suas questões.
 
Programa
Introdução teórica e prática sobre compreensão de singularidades via padronizações na vida adulta por uma tendimento inadequado ou excessivo nos primeiros 6 anos.
Tipo A Padrão regido na barriga e nos três primeiros meses Características físicas Características comportamentais. Desvios de comportamento mais comuns. Reforços positivos e o incrível poder de criação desse caráter Dinâmica corporal 
Tipo B Padrão regido nos dois primeiros anos de vida Características físicas Características comportamentais. Desvios de comportamento mais comuns Reforços positivos e a excelência de comunicação desse caráter. Dinâmica corporal.
Tipo C Padrão regido por remissão à fase anterior Características físicas Características comportamentais. Desvios de comportamento mais comuns. Reforços positivos e a capacidade de liderança desse caráter. Dinâmica corporal.
Tipo D Padrão regido por volta de 2 a 4 anos de idade Características físicas Características comportamentais. Desvios de comportamento mais comuns. Reforços positivos e a incrível resistência desse caráter. Dinâmica corporal.
Tipo E Padrão regido por remissão à fase anterior Características físicas Características comportamentais.Desvios de comportamento mais comuns. Reforços positivos e o poder de organização desse caráter. Dinâmica corporal.
Tipo F Padrão regido entre 5 e 7 anos Características físicas Características comportamentais.Desvios de comportamento mais comuns. Reforços positivos e a louvável persistência desse caráter Dinâmica corporal 

O lado A e o lado B de cada caráter Como o atendimento às necessidades da criança previne a neurose. Como projetamos nossas dores repetindo comportamentos com nossos filhos Nossas dores e prazeres Identificando porcentagens de cada fase em nossos corpos. Dinâmica para identificação em nossos corpos. A dor libertária de saber quem somos, quem estamos nesse momento. 

A continuidade somática e o livre arbítrio

 Corpo, arte e conclusão














*Cláudia Rodrigues é jornalista desde 1986 e terapeuta reichiana desde 1998. Autora de "O Lado Esquerdo da Asa da Borboleta Amarela”, Ed. Céu e Terra, 1997 e de “Bebês de Mamães Mais que Perfeitas”, Ed. Centauro, 2008. Seu trabalho foca o universo psíquico nas várias fases de desenvolvimento do ser humano.