segunda-feira, 13 de abril de 2015

A criança de dois anos e os terríveis adultos que cuidam dela


Cláudia Rodrigues
A criança de dois anos ainda é, em parte, um bebê, o mais esperto e apto dos bebês. Do segundo para o terceiro ano de vida ela vai deixando o jeitão de bebê para trás e tornando-se o que consideramos de fato uma criança, em plena fase social e lúdica. Quando os adultos respeitam e aceitam o desejo de autonomia que surge na criança a partir dos dois anos, ela sai das fraldas, desmama, larga a chupeta, dorme mais facilmente sem embalo apreciando uma história, uma conversa de fim de dia. É apta para ser uma companheirinha, já consegue esperar, entende o que falamos, responde, pergunta, imita nossos gestos e afazeres.

Mas o que mais se vê é criança de dois anos sendo apelidada de terrível, existe a expressão terrible twos para dar referência à fase de desejo e aptidão por autonomia, muitas vezes confundida pelos adultos como teimosia.

Afinal, o que perdem os pais com a criança maiorzinha?


Perdem controle e são exigidos em musculatura e criatividade, isso irrita alguns adultos que se engalfinham em brigas com as pequenas criaturas.
A criança de dois anos acha divertidíssimo vasculhar a casa, pesquisar, abrir torneiras, desembolar meias, puxar rolo de papel higiênico, subir em cadeiras, bancos, armários, mexer com água, terra, farinha. Se ela não for levada para brincar em uma praça, um parque, fará da sua casa o seu "playground"e se for também fará, talvez apenas com um pouco menos de intensidade. Cabe aos pais ensinar como se folheia livros sem rasgar, como pintar tal parede forrada com papel e não outra, como carregar por alguns metros um copo de vidro sem quebrar, aliás essa última é uma façanha que toda criança de dois anos ama fazer, mas que fará muito mal com cuidadores nervosos, ansiosos e pré-prontos para um drama de escadaria.


A maior parte dos bebês ao completar dois anos já dorme a noite inteira justamente porque o dia é alucinante em desfrutes depois da longa jornada de 24 meses em que se dedicaram a ver melhor, ouvir melhor, decodificar a linguagem, além de arrastarem-se até engatinhar e andar. Foi um baita trabalho, o adultos têm o dever de compreender isso!

Aos dois anos a criança está comemorando o gran finale da primeira parte do seu desenvolvimento e fica irritadíssima ao ser tratada como idiota, alguém sem "opinião". Ficam frustradas se as arrancam do chão para o colo em caso disso não ter sido minimamente compreendido e da mesma forma ficam furiosas se pedem colo e não ganham, em caso de tédio ou cansaço. O adulto, irado, muitas vezes acha que a criança é apenas folgada e "cheia de vontades", mas ela é somente um bebezão e os raciocínios mais complexos estão iniciando.

Ela absolutamente não entende que está na hora de ir embora se isso for feito de supetão, ela precisa de duas ou mais vezes de uma mesma frase de repetição para elaborar e aí sim pode ser uma colaboradora melhor. Por exemplo, no parquinho: "olha, nós vamos encher o balde mais três vezes e e depois vamos". Ela pode não entender matematicamente o que são três vezes, mas vai ficar fascinada em ouvir e ver o que são três vezes e vai colaborar. Agora, quando o adulto diz "vamos, está na hora!" ela é capaz de surtar nos tais terrible twos  simplesmente porque sua autonomia é seu calcanhar de aquiles. Ela aceita aprender, aceita e gosta de imitar o adulto, mas há uma linha tênue aí na hora do adulto tratá-la como se ela estivesse com um ano. Bebês de um ano aceitam melhor a engambelação feita pelos adultos, protestam por poucos minutos e logo se distraem com outra coisa, mas crianças de dois anos simplesmente não aceitam engambelação, exigem respeito, são pequenas cidadãs.

A boa nova é que se bem tratada e compreendida no funcionamento de seu cérebro, a criança de 3, 4 anos chega a essa fase sem ataques de birra e capaz de conversar, até mesmo argumentar. Agora, se foi pouco ouvida, se o que ela queria valia uma vez e outra não, se pais, mães ou cuidadores não tiveram critérios e nem paciência para entendê-la, ela chegará um monstrinho aos quatro anos porque finalmente, com capacidades mais desenvolvidas, vai colocar para fora o que viveu e o que não pôde viver aos dois anos. Fase de entender regras mais complexas, como não roubar em jogos, por exemplo, a criança de 4 anos pode se recusar a isso e o que está por trás é nada menos que mágoa por não ter sido respeitada anteriormente. Ela vai precisar processar e jogar para fora, elaborando do jeito dela o que fizeram com ela. Se foi manipulada, vai manipular, se foi desrespeitada vai desrespeitar, se não foi ouvida, vai gritar.

E aí, quem sabe, vão inventar o terrible four, mas de verdade o maior trabalho e a maior alegria de cuidar de uma criança é compreender como ela funciona de acordo com seu estágio de desenvolvimento, sempre mais recebendo do que dando, observando mais do que determinando, sacando o que ela sente por trás de seus raciocínios bem simples, mais vinculados com prazer do que com dever.

Criança que fica mimada não é criança que se sente compreendida, crianças mimadas são crianças que foram incompreendidas, preenchidas com coisas para calarem suas bocas e tudo que uma criança a partir de dois anos precisa é de menos investimento oral e nível quase zero de engambelamento. Comum que coma menos do que comia com um ano, comum que não prefira ficar vendo TV e comendo, mas aprontando livremente pela casa. O doce como suborno sempre funciona de imediato, assim como palmadas e gritos, insultos e isso faz não só com que o adulto traia a criança, mas ela própria se sinta em traição a seus desejos, o que é bem mais complicado. É mais rápido escolher a educação violenta, sedutora ou combinar essas duas formas de levar a criança, mas o preço pode ser alto para a convivência com os filhos, que é para sempre.

A partir de dois anos a criança está apta para livrar-se dos consolos orais, da mamadeira ao peito, da chupeta ao mingau, mas para isso necessita de adultos dispostos a soltá-la para correr, fuçar, pesquisar o ambiente e interagir com ela de maneira menos oralizada. Adultos preguiçosos costumam reclamar mais de cuidar de crianças de dois anos, adultos preguiçosos são adultos, eles mesmos, pendurados na fase oral do desenvolvimento.






domingo, 8 de março de 2015

Mulheres, deletem o machismo dentro de vocês

Cláudia Rodrigues

Tenho consciência sobre os sofrimentos femininos, os mandos e desmandos de uma sociedade machista, as injustiças, desigualdades sociais, históricas e econômicas e a violência que ainda paira contra as mulheres das formas mais nefastas no mundo inteiro. Mas não consigo mesmo compartilhar textos e quadrinhos contra os homens no estilo avesso: "vai pegar no tanque, me traz uma cerveja gelada".

Não consigo, por mais empática que eu seja, por mais que já tenha convivido com homens machistas e que os veja aqui e ali pelas ruas, nas casas de conhecidos, o que tenho para dizer é que hoje, 8 de março, levantei às 6h da manhã para dar tchau aos homens da minha vida, meu marido e meu filho que estavam de saída para uma viagem a trabalho.

Eles, como eu,  não se ligam em datas, estavam fazendo silêncio para eu não acordar, o café já estava pronto, até o que eu como, a tapioca, o tomate e o queijo já estavam postos na mesa para me receber quando eu acordasse. Acordei antes para dar tchau. Foram amorosos, atenciosos sem a menor noção sobre a data 8 de março, na agenda deles apenas uma data de trabalho.

Eles saíram felizes, amam trabalhar juntos. Marido, antes de sair, fazendo um carinho no meu rosto, recomendou que eu não esquecesse de recolher a roupa que ele pendurou no varal logo cedo. (como ele sempre faz) porque ele não poderia recolher (como sempre faz).

Cá estamos, as três mulheres, sentindo a falta deles, acumulando as tarefas que eles pegam juntos conosco todo santo dia.



Assim que com essa convivência diária, minha luta é a favor das mulheres, mas jamais será contra os homens, até porque aos 19 anos eu já estava enfrentando o primeiro chefe e ele era machista, escolhi ficar desempregada e perder "empregão no melhor lugar da cidade". Cheguei em casa, contei ao meu pai o ocorrido e ele disse: "isso mesmo minha filha, não vai engolir sapo de homem nenhum, vais encontrar um local de trabalho que te respeite, não precisa ser em um lugar famoso, fizeste muito bem, já vais conseguir, sempre tem trabalho para quem quer trabalhar". Tive vários namorados machistas e os dispensei nos primeiros minutos do primeiro tempo. Tive azar de encontrar machistas, mas não foi sorte tê-los dispensado sem demora.

Por isso o meu recado é: mulheres, queridas, não deem chances ao machismo do mercado, isso pode ser feito de várias formas para além das importantes denúncias e pedidos de demissão. No amor, no namoro, fiquem espertas, não fiquem sem graça diante de um comentário machista, observem se ele entendeu, se não entendeu nem quer entender, não serve, o mundo está cheio de homens maravilhosos, o boicote aos machistas é fundamental.

E o mais importante, se auto-observem como mães diariamente, como fazem, o que dizem, o que sentem e se isso tem relação direta com o gênero da criança. Não fomos nós, mulheres, que inventamos o machismo, mas somos nós, mulheres, que ajudamos a mantê-lo com nossos comportamentos de cinderelas desamparadas e repetições, casando com o babaca das piadinhas, engravidando do babaca agressivo, fazendo, fazendo e reclamando do mal feito do outro sem conseguirmos nos impor. É assim que tem sido por séculos, isso precisa terminar! É possível amar, cuidar e ser amada e cuidada de forma igualitária.

Amor é e sempre será a promoção do outro. De um lado e de outro. Amar quem não nos trata bem, quem não pega junto, quem nos agride, é submissão e submissão é o alimento maior do machismo.


domingo, 1 de março de 2015

Dos avós que fazem diferença afetiva entre os netos

Para minha amiga Suzana Maringoni, que está iniciando essa jortudo





Cláudia Rodrigues

É um assunto difícil de abordar, espécie de alienação parental às avessas praticada pelos avós que se sentem mais livres para amar e desamar. Estão na deles, muitas vezes levam para a terceira geração os problemas que tiveram com seus filhos. Alguns reparam, se foram mais distantes do filho X, tratam de ser mais próximos dos filhos do filho X, descontando nos filhos dos outros filhos o excesso que julgaram ter dado.

Há a repetição da repetição, surge em frases como "fulano é igual ao pai dele, fulana é mesmo como a mãe dela". A criança que veio ao mundo e não tem culpa nem responsabilidade pelos atos de seus antepassados leva a conta, sendo mimada ou deixada de lado de programas, abraços, afetos, convites, conversas, brincadeiras. O jeito mais raso de fazer isso é por meio das comparações, infelizmente é bem comum, muitas vezes feito na frente das crianças. 




A coisa toda pode se dar com ou sem a justiça por meio da distribuição de matéria. Dinheiro, de qualquer maneira, não é o que mais importa, embora muitas pessoas hoje confundam dar coisas, comprar coisas, como afeto. Um tipo de afeto o que é material contém, isso é um outro recorte, mas vamos ficar apenas no universo afetivo mesmo, que é mais difícil e costuma ser o pior elaborado.


Os pais de crianças que sofrem a falta de proximidade afetiva com os avós costumam sofrer, mas ficam sem saber o que fazer, o que dizer, afinal sentimento não se reivindica. Vai crescendo um buraco e afinal se eles resolvem pontuar, cobrar de alguma forma, quando a coisa extrapola e não cabem em si de dor, são facilmente chamados de ciumentos. "Ora, você sempre foi ciumento, eu gosto de todos iguais, o que dou para um dou para outro. Ah, mas esse mora mais perto, é uma questão de proximidade geográfica." 

O sofrimento das crianças é silencioso. Está no olhar triste, num jeito que pode parecer sem graça, na sensação de inadequação, na recusa a estar com os avós ou mesmo em atos de rebeldia. De qualquer modo qualquer coisa que a criança manifeste em relação a essa experiência, a culpa será dela ou dos pais. Ela fica sem saída, ela não pode cobrar amor, atenção, cuidados daquele avó ou avó que não olha para ela, que não a enxerga, que fala sobre ela com seus pais mas não a fita nos olhos. "Ah fulano pode ir lá em casa, né, qualquer dia desses..." "Ah apareceu a sumida, nossa, quanto tempo!"

Enquanto são muito pequenas as crianças sentem a rejeição, o pouco caso, a falta de vínculo afetivo com os avós, mas não são capazes de elaborar. Sentem-se menos em relação aos netos favoritos, tendem a achar que são culpadas por isso, as mais extrovertidas tentam imitar os primos ou irmãos, as mais reservadas simplesmente se fecham cada vez mais em si mesmas. Conforme vão adquirindo idade e consciência, a dor elaborada vai tomando novas formas, afinal elas não "precisam" mais daquele amor que nunca veio. Ainda assim a tendência é culpabilizar os adolescentes para validar o que foi feito, o que não foi vivido, o que não foi sentido.

São muitas as desculpas e muitas culpas mal-resolvidas, fruto da dor da falta de contato ou de excessos de contatos superficiais que ultrapassam gerações. Quando um dos filhos é nitidamente o "predileto" talvez seja ainda mais difícil do que viver prediletos de um irmão ou irmã.

Os pais mais sensíveis tendem a se afastar do convívio familiar, buscando na família do cônjuge o preenchimento do buraco emocional. Alguns não têm sorte, há crianças que só têm um par de avós e passam por isso. Entre tantas tristezas maiores que existem no mundo com as crianças reside essa, pouco debatida. Talvez porque o tempo de sermos avós não seja encarado como um tempo de continuar evoluindo, mas como um tempo que resta, que sobra. Talvez porque os avós sejam pessoas mais velhas que precisam de uma espécie de superproteção ao que sentem e fazem, como se não pudessem mais ser responsabilizados pelo que sentem e fazem.

A sociedade sempre pode melhorar, pais conscientes e responsáveis por suas responsabilidades emocionais podem virar essa chave quando chegar o momento de virarem avós. A responsabilidade afetiva em relação às crianças não termina quando nossos filhos viram adultos. Ela continua por meio dos netos e se por um lado parece menor, ela se torna maior de acordo com a leitura e o aprofundamento da compreensão de cada uma das histórias que vivemos com cada um de nossos filhos. E mais: ela passa pela questão de gênero, já que na nossa sociedade os avós genitores de mães costumam ser mais próximos dos netos e netas filhos de suas filhas. Aí também sobram desculpas para as incapacidades de amar, "a nora não traz as crianças, ela que quis assim..." 

Tem muito caroço nesse angu dos afetos familiares. Haja coração e cérebro para lidar com a neurose humana e seus becos escuros. Fica aberto o debate para quem vive isso com seus filhos ou viveu isso com os próprios avós.


sábado, 28 de fevereiro de 2015

Oficina Gravidez Parto & Simbiose em Porto Alegre

Programa
Fecundação Quando corpos sadios não se deixam fecundar A separação entre o desejo e a vontade A mãe mal vista – a mulher ressentida  

Gestação 
Os três primeiros meses – a implantação Sentimentos Ambivalentes Danças dos hormônios – os sintomas Simbiose e Rejeição Os três meses do meio – o desenvolvimento O rei na barriga – ou seria uma rainha? Tornar-se mãe – deixar de ser filha Os três meses finais - ansiedade de separação O medo do parto: grande mestre ou vilão  

Trabalho de parto 
O medo de expulsar - fantasias de dilaceração A expulsão vista como tragédia A expulsão sentida como solução Dar a passagem – dar à luz Cortar a simbiose ou continuidade somática? Os seis padrões básicos durante o TP Leitura corporal Tendências de cada caráter Busca de soluções singulares  

Amamentação
 A agressividade da expulsão reparada pela amamentação A agressividade da expulsão e a euforia do parto Transtornos da amamentação após o parto Transtornos da amamentação após a cirurgia Amamentação e simbiose do bebê Amamentação sentida como prisão Amamentação: uma viagem rumo à autonomia do bebê Corpo, Arte e Conclusão

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Congresso online sobre parto e nascimento

Excepcionalmente entre 19 e 25 de março o Congresso Nascer Melhor será totalmente gratuito com possibilidade de acesso a todas as palestras.

As inscrições, assim como outras informações, podem ser feitas por e-mail ou facebook pelo link http://bit.ly/060-congresso-nascer-melhor

domingo, 11 de janeiro de 2015

Mídia: foco no fato e nebulosidade no todo








Cláudia Rodrigues



O modo de operar da mídia dominante é o foco no fato de modo exclusivo, interesseiro, conveniado e financiado pelo sistema econômico de grande escala. Isso em detrimento do foco nas pessoas, nas suas necessidades e diversidades. Detalhes e números sempre são notícia, passando a falsa impressão de que estão informando. Estamos diante de uma população mundial gigantesca de pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza. A maior parte de nós tem conhecimento sobre esses e outros fatos, mas como eles estão desconectados das relações humanas, sofremos uma espécie de anestesiamento, fingimos não saber que estamos sendo manipulados ou simplesmente nos resignamos, como inocentes súditos.  http://noticias.r7.com/economia/noticias/mais-de-1-6-bi-de-pessoas-vive-com-ate-r-2-por-dia-20110201.html.





A distribuição de renda dos governos da maioria dos países está mal porque sempre foi ou piorou, direitos de trabalhadores vêm sendo perdidos nos países em que os índices estavam melhores, explorações de todo tipo formam a grande aldeia mundial econômica, que concentra muita renda, por uma questão de lógica econômica. Menos de 1% da população mundial detém 40% de toda riqueza. http://exame.abril.com.br/economia/noticias/menos-de-1-da-populacao-mundial-detem-40-de-toda-a-riqueza.

Para obter tamanha façanha, usam armas, venenos, estupros, drogas legalizadas e  ilegalizadas numa longa trajetória de negócios e guerras internacionais. Tudo isso está na mídia como fato. Debates sobre colocar ou não veneno nos alimentos, saltam aos olhos e achamos normal o debate, debatemos isso nesse momento da história: uso de veneno no cultivo dos alimentos. Nossa mídia é livre para pasteurizar qualquer tema, em nome da pluralidade, não sai da dualidade, em nome da informação, boicota o conhecimento.

Ainda há trabalho escravo,  mas agora temos mil e muitas maneiras de legalizar o trabalho escravo, com exploração de tempo doentia e regras que flexibilizam os direitos, mas não os direitos das empresas sobre as pessoas. Tudo isso é notícia normal, corriqueira. No Brasil o Estado é o que mais dá direitos, embora haja discrepância significativa de distribuição de renda também no Estado. Os empregados das grandes empresas brasileiras, das médias e pequenas, ganham mal e são muito explorados, trabalham muitas horas, passam horas em transporte porque as empresas não se interessam pela logística humana. Empresas no Brasil de médio e grande porte não fornecem boas creches e boas escolas, não se interessam em ajudar as escolas públicas e preferem patrocinar grandes eventos parafernálicos à alimentar a cultura local, sempre com exceções, é claro.

A mídia trata dos fatos, mas as próprias corporações midiáticas não tratam dos seus fatos internos sobre a distribuição de renda e logística para promover o desenvolvimento dos seus trabalhadores, muitas vezes denominados como colaboradores, palavra para encenar qualquer coisa bacana que não se sabe realmente o que significa. São na prática os bonecos da vitrine, os representantes daquele símbolo e suas significações. Alguns ganham bem para isso, funcionam como minhocas no anzol, atrativo ilusório de uma hipotética fartura. Tanto se fala em conflitos religiosos, mas nada se iguala à religião do consumismo. Vivemos a era da ditadura dos playboys, revival dos cowboys. Terão seus quilombolas do mesmo tempo enquanto pastamos aqui como boas ovelhas. Brincadeirinha idiota vive o Planeta inteiro, em conjunção. Não precisa ter motivo para fazer bullying econômico, tudo é motivo: tons de pele, religião, formas de governo, comportamentos, hábitos, cultura, história. Que chatice as más relações, as manipulações e a cereja do bolo queimado: guerras. Matanças, violências, guerrilhas sem sentido porque não há escuta para a desigualdade econômica. Motivo: sem desigualdade econômica, sem concentração de renda para poucos, a economia irá à falência.





A necessidade de fraternidade na economia está caindo de madura. Os bancos éticos, que trabalham com microcrédito e juros aceitáveis, não representam 1% dos bancos do mundo. A trajetória econômica do mundo rege o sistema e só vem retirando direitos sociais, culturais e de paz por meio de investimentos econômicos na eliminação de pessoas e rixas entre governos e ideologias. Ainda assim é considerado normal que se produza mais guerras em nome da paz, eternos investimentos em segurança como aparato repressor em vez de esforços de decodificadores de necessidades e direitos.

Essa história não começou ontem, mas está claro que a tentativa de solução no modo piloto automático, mais violência, mais armas, mais veneno e mais desigualdades, não funciona. Ou melhor, funciona, continuaremos sendo cobaias, a maior parte de nós, mesmo os que estão confortáveis e acreditam ainda que o melhor não é tratar de perto com as diversidades, mas criar defesas, muralhas, guetos. Esses ainda mais cobaias do medo do medo. Muitos de nós creem piamente que o investimento em armas é o um bom sistema de segurança. Armas que podem ser apontadas para nós em qualquer esquina. De um lado ou de outro. Filminho policial brega é o berço da humanidade.





Está custando para as perguntas básicas terem validade. Por quê? Quem? Quando?Como? Onde? Só ficamos no Ukê! O que aconteceu e sempre segundo as fontes dos interesses do game do sim e do não e daquele debate raso entre o bem e o mal, escolhendo já previamente, sempre de acordo com interesses em questão, quem é o bem e quem é o mal.

Novela da vida real do Planeta está absurda. Os mocinhos do nosso filme global aparecem vestidos de Batman, mas adivinhem? Eram todos coringas. Não se sabe por onde andam os supremos saberes, os supremos direitos em meio a tantos superpoderes. A trama é de lascar. Incitam violência,  homofobia,  racismo, machismo, brutalidades de toda sorte. Religião sempre foi um setor muito explorado. As divisões, subdivisões e criações de novas seitas religiosas viraram um negócio para muitas pessoas no mundo. É um negócio lucrativo do ponto de vista econômico e mantém as regras de exploração, só precisando expansão para receber cada vez mais adeptos. Um filé para o jogo entre nações. As pessoas se encontram nas igrejas, escolas, na rua, em todo lugar e se viram. Sim, elas brigam, se matam por ignorâncias afetivas tanto quanto econômicas, há muita violência. Tratar crimes individuais de humanos uns contra os outros não é uma tarefa que se faz da noite para o dia, mas o que temos é um pouco pior. Estados, Nações unidas contra a população mundial, financiando guerras, mutilações em massa, reparações não menos aviltantes e invasivas sob diversos aspectos dos direitos inerentes do corpo humano.

Temos de tudo, até comércio de água.








domingo, 4 de janeiro de 2015

Parto é luta pela sobrevivência



Cláudia Rodrigues

Uma garota de 7 anos salvou-se como única sobrevivente em um acidente de avião nesse ano. Salvou-se não porque foi a única sobrevivente, mas porque seguiu os ensinamentos do pai, o piloto do avião, sobre como deveria agir diante de um acidente: manter o fogo, caminhar, ir em busca de ajuda. http://extra.globo.com/noticias/mundo/garota-que-escapou-da-morte-em-acidente-de-aviao-usou-tecnicas-de-sobrevivencia-passadas-pelo-pai-14962078.html#ixzz3NrikiXgo

O que o parto tem a ver com isso?
Muito a ver e saber. A cesariana, evento social e cultural que nasceu para salvar vidas quando as mulheres não conseguem parir, os bebês não conseguem nascer ou a dupla não consegue se encaixar e encontrar a saída natural,  está virando lugar-comum  de fuga da luta pela sobrevivência. Com cautela e aos poucos o excesso de cesarianas vem sendo substituído por outro evento cultural, que leva o nome de humanizado e está cada vez mais perigosamente refinado.

No lugar da ameaça da dor insuportável, artifício usado pelos cesaristas para deixarem de acompanhar o trabalho e o desencadeamento do parto, surgem novas falas sobre prazer indolor do parto e já é comum, com nome de filme e tudo, a crença de que há um parto ideal e ele é orgásmico.


Não duvido que algumas mulheres tenham orgasmos no parto, mas vejo como falsa premissa a promessa de que devemos encarar o parto como um grande orgasmo sem dor, sem trabalho, sem concentração, sem entrega aos desígnios da natureza que exige bastante contato com o nosso eu biológico não refinado, mas capacitado de dentro para fora.

O parto pode ter doula e massagem, pode contar com refinamentos e infindáveis práticas de autoconhecimento e métodos profiláticos naturais para atenuar seus revezes como medo, tempo e dor, mas se não for encarado primariamente como um momento inafiançável, único e intransferível de dar conta da luta pela sobrevivência, pode se perder nos meandros de uma nova aculturação.

Novamente a esperança de sermos salvas pode transformar parto humanizado em cesariana. Outro dia comparei o parto com aprender a andar de bicicleta e agora volto ao tema e deixo a dica: parto é roots, é raiz do nosso ser, está impresso em nossos corpos nas camadas mais profundas. É correto afirmar que podemos lançar mão de modernidades em prol do parto a fim de alcançar o momento da expulsão, mas é conveniente compreender que os excessos culturais, todos eles, não importa de onde venham e o que propaguem, podem sim atrapalhar o contato da mulher com seu eu mais visceral, aquele que realmente dá à luz.

O parto, por mais companhia que possamos contar, por mais ajuda qualificada, por mais evidências que traga, é um lugar absolutamente solitário, é um verbo conjugado na primeira pessoa, ninguém pode parir por outra pessoa, não há esforço no mundo que possa fazer um mulher parir se ela não encarar sozinha a tarefa de salvar e salvar-se na luta pela sobrevivência. O que vier de adendo e suporte é ótimo, mas eventuais suportes não podem ser encarados jamais como solução.

Conselho e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, então aqui vai o meu: contrate a doula, a parteira, obstetra, tua equipe humanizada, escolha o local, que muito bem pode ser o SUS, a sua casa ou uma maternidade com bons índices de parto e a seguir esqueça tudo isso, se concentre, não projete soluções de fora para aquilo que só pertence a ti: colocar a criança para fora e pegar com tuas próprias mãos, antes que alguém o faça. Salve-se e salve, esse deve ser o lema de que quem deseja parir.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Os cartões mais bizarros da década de 1970

Cláudia Rodrigues

Na década de 1970 era comum receber e enviar cartões de Natal para os amigos distantes e até mesmo para a cidade em que se vivia. Na minha casa recebíamos e enviávamos uma pilha gigantesca de cartões. Os N/C, nesta cidade, eram poucos, para outras cidades e estados ia a pilha maior e alguns, bem poucos, para fora do país.

Minha mãe ficava enlouquecida logo no início de dezembro com a tarefa. Juntava todos do ano anterior e começava a saga, com minha ajuda. Eu amava a tarefa. Ela ficava com a parte dos envelopes, Ilmo, Exmo, que eu nunca sabia fazer porque eram sempre muitos Ilmos e raros os Exmos e ela definitivamente não entendia o que era excelentíssimo para mim, os amigos mais próximos, lógico. Havia toda uma explicação para isso que eu me recusava a entender e obedecer, ficava mais complicado quando a pessoa era um padre, então eu ficava com o preenchimento interno, o que para mim era perfeito.

Pela pressa e senso prático, a mãe nunca chegava ler as barbaridades melodramáticas que eu escrevia, só me orientava que eu lesse as mensagens do ano anterior e não me prolongasse. Eu cumpria a missão de ler atentamente os cartões do ano anterior, mas me jogava no excesso absoluto de palavras, com o esmero possível a uma pessoa com 10 anos de idade.

Romântica, me deixava levar pelas gravuras de renas, papais noéis e lindas figuras nevadas e mandava ver nos textos espichados. Com letras apertadinhas, vazava minha alma infantil para fazer caber as palavras meladas, às vezes em rima, até o último pedacinho de papel. Isso piorava muito quando eu conhecia bem de perto os pobres destinatários e nutria por eles saudade e vontade de revê-los.

A mãe falava para eu não ser pessoal, só formal, então eu jogava uns termos que julgava formais, misturando-os aos meus sentimentos. Ficava algo mais ou menos assim: " Prezados amigos queridos que tanto amamos, nesse ano vindouro desejamos os melhores votos de prosperidade, que possamos nos encontrar, mas mesmo que não seja possível, que ainda assim o ano de vocês seja lindo, mas tomara que dê, assim será maravilhoso porque maravilhoso é melhor do que lindo e todos merecemos um ano maravilho. Viva, que seja um ano maravilhoso!"

A ida ao correio era outro passeio adorável. Havia uma cola que ficava dentro de um pote que precisava ser girado e quanto mais girado, mais cola. Era uma delícia ficar ali brincando na meleca enquanto minha mãe fritava na fila. Eu alcançava os cartões de 5 em 5, para acalmá-la, sempre torcendo para que a fila andasse bem devagar, assim eu desfrutava de mais tempo na melequeira e escolhia o ângulo mais bonito para os selos. Os selos de Natal eram sempre mais legais do que os selos das outras épocas do ano porque nunca eram fotos de homens com cara de importância, mas cenas natalinas bem pequetuchas.

A primeira fase da tarefa, por ser maior, me custava menos palavras a cada cartão, mas eu gostava mais e não entendia o ufa da minha mãe na segunda leva. Os novos cartões, aqueles que chegavam pela primeira vez já em cima do Natal e então precisavam ser retribuídos. Ela reclamava, "ah sempre tem que fazer isso, sempre tem os que ficam fora da lista, ah se eu pudesse adivinhar!"

E justamente eu amava infinitamente mais a segunda leva, sentia um prazer especial porque eram no máximo 10 cartões, então era a hora e a vez de soltar a franga natalina num palavrório que ao meu ver era ainda mais sofisticado e caprichado.

Sempre começavam com um "Agradecemos e retribuímos os votos de Feliz Natal e desejamos um Ano Novo repleto de..." E eu viajava total, a mãe me apressando, "anda logo guria, é só um cartão de Natal, ando logo que precisamos ir ao correio..."

Hoje acordei rindo ao lembrar disso e fiquei cá imaginando o que pensavam os adultos que liam aquelas coisas todas sem pé nem cabeça que eu escrevia.











Bem, ainda continuo achando que os anos maravilhosos são os de grandes encontros. A todos vocês, grandes encontros em 2015

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Liberdade afetiva, o melhor presente de Natal








Cláudia Rodrigues


Os que dizem gostar, os que dizem desgostar, queiram ou não, o Natal é um feriado mundial, globalizado. Até o Japão consome o Natal. Nos países em que o Natal não é uma data expressiva, fala-se do Natal, afinal a mídia mundial é uma só. O feriado, separado por apenas uma semana do Ano Novo, costuma ser usado para reunir as famílias, repletas de pessoas que gostam e que não gostam do Natal. A figura do parente ranzinza com o Natal é lugar-comum, talvez mais do que o tiozinho do pavê.

A economia mundial tem sua golseima, os setores produtivos voltados obsessivamente para metas, entram em depressão. As cidades ficam vazias, as estradas cheias. Come-se muito, consome-se variedades de comida, produzem-se sobras para o reino do assistencialismo. Época de alívio de culpas, encontros amorosos com familiares, surpresas, alegrias sociais e afetivas, brigas, mágoas, tristezas, cobranças. Entre o Natal e o Ano Novo costumam aumentar os índices de acidentes de trânsito, ocorrências policiais e violência doméstica.

Crianças que conhecem os festejos chegam a preferi-los no lugar do próprio aniversário. Há exceções: crianças que sofreram discriminação, bullying de primos e tios ou diferenças de tratamento dos pais em relação aos irmãos, podem, obviamente, se ressentir da festa, assim como aquelas que passam a vida assistindo brigas de família. Natural que na idade adulta essa não seja uma festa esperada com alegria, mas com tensão ativada pelas memórias de uma data tão sublinhada em nossas vidas.

Conheço pessoas da minha idade que sempre passaram o Natal no mesmo lugar a vida toda, sempre com a família. Porque Natal é em família e lamenta-se a ausência de qualquer parente e se por acaso o vivente for um embarcado, um sujeito que está de plantão em algum dos tantos ofícios que necessitam plantão, então ele é um azarado, vai perder o Natal, a grande festa da família.

Se a pessoa solteira entre 25 e 35 anos ligar na noite de 24 de dezembro dizendo que não vai na casa da mãe ou da sogra, será execrada, não tem direito à liberdade afetiva. O final de ano vem sendo liberado para a juventude pelas famílias brasileiras. Passando o Natal, podem ir, carta de liberdade afetiva em mãos. Existe qualquer coisa de cativeiro afetivo no Natal. Há exceções, mas de maneira geral, principalmente após o nascimento dos filhos, os homens vão para as famílias das esposas e as filhas mulheres ficam com seus pais.


A configuração de personagens vai mudando ano a ano por meio de falecimentos, nascimentos, separações, novos companheiros. Há fundadores de família que fazem verdadeiras guerrilhas de poder para obter a exclusividade da festa, incluindo parentes de parentes de parentes. Há matronas mandonas; exigem presença de filha, filho, genro, nora e netos. Pode rolar chantagem emocional e até barganhas nessa data religiosa. Alcovas do Natal, toda a família muito unida tem a sua. As famílias consideradas mais desagregadas são também as mais libertárias. Em família aceitam muito, menos hipocrisia. Aqui e acolá surgem os desapegados.

O Natal para os desapegados pode ser uma data de viagem solo, a dois, na pequena família de 3, na pequena família recém-fundada, pode ser uma aventura numa tribo com os Guarani, pode ser em casa, num pátio, na praia, na beira do rio. Pode ser vegetariano, com amigos, em retiros e claro, pode ser sem família, sem culpa, sem saudade melodromática, sem skype, sem tristezas. Pode ser bem profano também.


Dá para ser anormal no Natal pelo menos uma vez na vida, ou algumas, muy de buenas, mas não se pode negar que há uma espécie de osmose que leva à normopatia nessa data. Massas de pessoas repetem ano a ano um ritual rígido, que mistura prazer e obrigação. Com o tempo a parte obrigação tende a virar uma maçaroca, que jamais se desenreda.

No final das contas, o Natal, pelo menos para quem já colocou filhos no mundo, acaba sendo uma data com a qual devemos nos ocupar e preocupar porque a festa herdará as memórias registradas por nossos filhos e netos. O grande espírito do Natal, da compaixão, da união, da recepção do outro dentro de nós, da solidariedade, reside na simplicidade que só o pequeno núcleo é capaz de nutrir. Coincidência ou não, o Natal é simbolizado pela criança recém-nascida, que precisa de muita atenção e muita delicadeza.

Aos que passam o Natal com a família inteira reunida, que matam gostosas saudades de um ano sem esses abraços; aos que passam o Natal com sua família próxima, que vê todo dia e nesse dia faz a festa; aos que viajam sozinhos, acompanhados de amigos; aos que curtem uma vida a dois, aos que estão passando o seu primeiro Natal de fundação da família, só pai, mãe e filhos pequenos, aos que já estão na estrada mãe, pai e filhos grandes e claro, aos que libertam e vivem em liberdade afetiva de Natal a Natal sem exceção; a todos vocês desejo paz e calor gostoso no peito.

domingo, 5 de outubro de 2014

O trabalho de parto

Cláudia Rodrigues

O trabalho de parto, conhecido por aquele tempo bastante variável em que a mulher entra no processo de dar à luz, jamais é um tempo perdido. Mesmo quando demorado, extenuante e resultante em cesariana é um tempo benigno em hormônios e sentimentos preparatórios para a maternidade e a paternidade.
Expectativas, medos, conjunções, sintonias genéticas, afetivas, desafios que se colocam na subida da montanha rumo ao local mais alto do amor: a recepção das vidas dos bonsaizinhos humanos que chegam para respirar o ar aqui da Terra pela primeira vez.


É comum pensar que o trabalho de parto rápido é o ideal, o melhor, muitos de nós achamos que o momento da expulsão é o mais doloroso e a verdadeira provação. Não é. O trabalho de parto é o único trabalho a ser vivido quando se espera um nascimento. A expulsão ou o nascimento via cirurgia é apenas o desfecho final, assim como é o aprendizado da leitura pelas crianças, que pouco diz sobre o processo de aprender a ler, muito mais complexo e trabalhoso.

Muitas mulheres pensam que não vale a pena tentar um parto natural porque pode resultar em cesariana e que assim se pode ter o pior de dois processos. Ledo engano, o mais importante é mesmo o caminho, assim como nas viagens o mais instigante não é sentar na poltrona do avião ou ficar hospedado nos melhores hotéis, mas as paisagens, as pessoas que conhecemos, o processo de cada viagem. O suor, o cansaço, os problemas, as soluções, o banho quente, às vezes frio, depois de um dia exaustivo, as caminhadas, as emoções dos encontros reais com artes que antes só foram vistas em filmes e livros, enfim é de realidades com cheiro e texturas reais que se vive uma viagem. Na viagem o que mais importa são os cheiros, os sabores, os significados internos, os sentidos aguçados.

O trabalho de parto é o começo de uma longa viagem para dentro de nós. Mesmo quando somos apenas acompanhantes, ele nos imprime com sentimentos intensos, gemidos, emoções, vocalizações, cantos, águas, mil e uma posições, ritmo, música, cansaço, alegria e intimidade, muita intimidade, a maior das intimidades entre os atores protagonistas e os assistentes desse momento da sexualidade humana. Olhares, medos, dúvidas, o trabalho de parto é o resumo de tudo o que vamos viver inexoravelmente na aventura de maternar, paternar, educar e viver com nossas crianças. Quem acompanha um trabalho de parto, seja de um filho ou de um amigo, seja como profissional ou protagonista da história da criança que está para nascer, tem a oportunidade de ampliar a própria capacidade de amar. É um espetáculo da natureza assistir uma mulher em trabalho de parto, é de uma beleza e de uma força arrebatadoras.
Nos sentimos pequenos, humildes, humilhados em nossas arrogâncias diante dessa luta pela separação de um ser tão querido, tão fielmente mantido bem e vivo até então daquela forma. E é preciso seguir o fluxo, já não é mais possível que se mantenham assim tão uno, eles precisam se separar, correr esse risco, lutar, lutar para viver de um outro jeito, de um novo jeito.


O bebê encaixa, a mulher desencaixa do corpo de grávida, ela precisa passar da fase de uma pessoa simbiótica com outra para duas pessoas, ela vai precisar dividir a pessoa que sai dela com o mundo e isso não é nada fácil, não somente do ponto de vista físico, mas principalmente do ponto de vista emocional. Nada se sabe sobre a vivência do bebê a respeito disso, mas é certo que a dupla simbiótica vai ter que dar conta de ser mais dupla e menos simbiótica.


Todo o amor, segurança e aconchego vividos por cerca de 40 semanas na barriga se transformam em luta de separação. E quanto essa luta é significativa para o que está ainda por acontecer, a vida da maternidade, da paternidade, da doação de amor e cuidados por anos a fio! E é apenas o início da viagem de uma vida inteira que vai nos importar mais do que tudo até o dia do nosso suspiro final.


Lutam as mães, trabalha a assistência de forma cuidadosa e singela, prefere não errar, se entrega para acertar, se reveza, comemoram doulas e parteiras a cada avanço, cada passo, rezam os parceiros, pedem aos céus por saúde, temem pelo mal, rogam pelo bem, pelo melhor, são desafiados a esperar, exercitar a paciência, a tolerância, entendem ali, no trabalho de parto, que nada é fácil na arte de amar, que bebês não caem do céu, saem dos corpos exaustos das mães, dos corações extenuados dos acompanhantes que se enchem de alegrias multiplicadas quando se correu o risco de lutar, tão semelhante a outros riscos da vida pela vida. É a luta pela sobrevivência, pela paz do nascer, pelo nascimento da paz.


Não, não estamos falando de colocar a vida do bebê em risco, mas o risco de colocar os corações dos adultos responsáveis nas suas próprias mãos, entregues, finalmente, após o nascimento, seja de que forma final for, muito mais expandidos, completos em plenitude, unidos para sempre em amor genuíno pelo ser que fez nascer os seus melhores e maiores amores. O trabalho de parto é desimportante diante de uma vida inteira que está apenas começando, mas é a única possibilidade de ensaio para os adultos responsáveis, o único mata-borrão que podemos lançar mão antes de cairmos na real do aprendizado prático de amor parental.

O bebê é inocente, o bebê não nasce sabendo amar, o máximo que ele pode fazer, e de fato faz, é se fazer amar, até o dia em que ele mesmo será capaz de lutar para amar um ser tão bonsai assim, tão delicado assim.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Entre as fantasias infantis e as crenças dos adultos

Cláudia Rodrigues 

Ainda hoje em alguns nichos culturais as fantasias das crianças são consideradas mentiras. Isso é muito triste, as fantasias infantis têm muitas funções para o desenvolvimento durante a infância. É por meio das fantasias que a criança pensa o mundo, desenvolve raciocínios, faz reflexões e principalmente se auto-regula, processa sofrimentos inerentes à vida, desde pequenas frustrações cotidianas até coisas mais complexas como morte de animais domésticos ou de pessoas da família.

A imaginação das crianças foi tema de estudo de grandes pensadores do comportamento infantil e suas funções são tantas e tão fascinantes que a interpretação desses estudos dentro do caldo cultural e comercial, acaba muitas vezes produzindo uma inversão de valores e as crianças em vez de simplesmente expressarem suas fantasias livremente, são manipuladas por fantasias vindas dos adultos para fins confortáveis e úteis para os adultos, universo dos adultos. É o caso do Papai Noel, Coelho da Páscoa, Fada do Dente, todas essas fantasias criadas pelos adultos com fins muito específicos de mexer e manipular a facilidade com que as crianças entram no universo fantástico de crenças.

Ok, bom separar, isso tudo pode existir, cada família escolhe o que deseja promover, mas nenhum desses exemplos é expressão de fantasia infantil. São crenças que manipulam a tendência natural da criança de fantasiar. É preciso compreender bem isso, não necessariamente para boicotar as crenças fantasiosas ou extirpar as lendas e contos de fada da vida das crianças, mas para não ir ao extremo de engambelar as crianças. Ou pior: usufruir com muita solenidade, apropriar-nos de um espaço privado da criança, tecer com nossas mãos o seu tecido de sonhos, invadindo-o com nossas crenças e a nosso favor.


Adultos, ao longo da história, sempre acharam jeitos de divertirem-se às custas das crianças, iludindo-as, explorando a imaginação fértil dos pequenos, tanto com ameaças de homem do saco, bicho papão, quanto com fadas e duendes. É importante questionar o que se faz em nome da imaginação infantil e até que ponto a manipulação dessa característica, dominada pelos adultos, usa a criança para assustá-la, submetê-la ou ser boazinha, para prolongar sua inocência, para impedir que ela questione o mundo naturalmente, a partir de suas próprias fantasias e pensamentos. Fantasias manipuladas para serem só lindinhas é pura sacanagem e doutrinação. Crianças imaginam coisas lindinhas, engraçadas, impossíveis e ruins, feias, tenebrosas. Assim que o homem do saco criado pelos adultos é diretamente proporcional ao duende que dá biscoitos do saco do homem do supermercado.

Fantasia infantil é quando um menino de 4 anos acorda, olha para as árvores que balançam ao vento e diz: olha papai, hoje as árvores estão fazendo muito vento. O pai sorri, entende que isso é uma fantasia, no universo fantástico do pensamento infantil, são as árvores, seres vivos, que balançam e provocam o vento e não o contrário. O pia pode apenas ouvir, receber a fantasia, pode utilizar a doce ideia para pensar em fabricar uma pipa e observar como o pensamento do menino evolui, afinal um dia ele vai estudar física. Pode também pirar na batatinha e sair com o guri pela mão divertindo às custas da inocência do moleque, rindo solitário, bem adulto e fazendo provocação, contando a todos que a criança vê as árvores produzindo vento, mexendo-se doidas como se fossem seres humanos.

Fantasia infantil é quando a menina de 2 anos, brava com algo que a mãe a impediu de fazer, solta a pérola: “então, mamãe, uma vez eu era tão grande e tão forte que pegava assim pelo seu dedo e girava, girava, girava você até você ir parar lá do outro lado do fundo do mar.” A mãe pode perguntar e ir além, viajar com a menina, perceber o que foi que causou esse processo, pode só sorrir e escutar, raiva faz parte, direito da criança processar sua raiva por meio da fantasia e pode pisar na jaca e se sentir incompreendida falando "tadinha da mamãe, como você é má"

Fantasia infantil é  quando as crianças conversam com objetos, brinquedos, flores, animais e de fato juram que escutam respostas, fantasia infantil é imaginar que um dia, dentro de uma avião, esticando bem o braço para fora, será possível guardar um pedaço de nuvem e levar para seu amigo na escola quando voltar de viagem.

É a partir das fantasias que a criança constrói o seu mundo, a sua versão de mundo dentro de dados de realidade ainda muito abstratos para ela. A criança que é livre para fantasiar, que tem escuta dentro de casa, que pode perguntar e receber respostas sinceras dos cuidadores, de acordo com a idade, vai elaborando suas fantasias de maneira a poder trocar com a realidade e apaixonar-se pela realidade. Mais vale plantar um pé de bananeira e ver crescer, colocar água todo dia, entender lentamente o processo de crescimento, florescimento e frutificação da planta, que demora e acompanha as fantasias-- e que muitas vezes frustra as primeiras fantasias, como a de ver a banana pronta no dia seguinte e meses depois ver a banana sem poder ser consumida por longos dias após a colheita --, do que sair pelo quintal procurando duendes, que jamais encontrará.

A criança é um ser social, um ser político, não deve ser tratada como ignorante, ela pode sim se importar com outras crianças, de outras realidades, ela tem a ganhar em conviver com crianças em tribos de índios, de outras escolas, de outras paragens. Ela pode desde tenra idade pensar e tem o direito de obter respostas que sejam dignificantes para ela, com significados reais. Ela tem o direito de evoluir em suas fantasias, não deveria ser direito dos adultos “prender” as crianças em fantasias que já não condizem com o desenvolvimento infantil da fase em que estão.




 Por serem frágeis e dependentes, as crianças gostam de agradar os adultos, se elas percebem que seus pais desejam que elas acreditem em Papai Noel, elas serão capazes de fingir que acreditam em Papai Noel. Isso não fundamenta uma relação de confiança, isso é uma trapaça na relação e a trapaça é dos adultos e não da criança.


Criar crianças em redomas fantásticas para poupá-las do que é “feio” no mundo, envolvendo-as em fantasias de adultos pode ser uma perversão e não um cuidado, pode ser manipulação e não proteção. E isso sim é feio, é malvado, é infantilismo do adulto não querer ver as crianças se desenvolverem livremente.

Assim que, caso o seu filho venha perguntar se o Papai Noel existe, se a Fada do Dente existe, de o Duende vai trazer guloseimas, é sinal de que ele está duvidando disso e ele tem o direito de duvidar, a dúvida é o início do conhecimento e o conhecimento jamais deve ser barrado do universo infantil.

Há uma palavra perfeita para esclarecer as dúvidas das crianças sobre o universo fantástico que os adultos criaram para elas e essa palavra chama-se lenda. É uma bela palavra, não é uma destruidora de fantasias, é uma esclarecedora de fantasias, abre novos horizontes para além do fast food das fábulas.

Não há nada de errado com a lendas, com as histórias, com os contos de fada, eles mexem com o universo imaginativo, levam as crianças a viajar na imaginação, elas mesmas podem criar novas histórias, inventar algum tipo de, quem sabe, Truendes, e assim exercerão a verdadeira liberdade de ser e estar no mundo como sujeitos da própria história, menos pasteurizadas, mais livres das manipulações que tanto divertem os adultos.

Crianças podem ter amigos imaginários, isso é bem comum, faz parte do universo infantil, deve ser aceito com curiosidade, algum interesse, mas não é justo que o adulto ao seu lado veja esse amigo, fale com esse amigo. Se isso acontecer tem outro nome: psicose familiar.