quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Mais velhas, mais livres








Cláudia Rodrigues


Talvez se aplique aos homens, mas como nunca fui homem, falo por nós, mulheres, sobre algumas vantagens de envelhecer, já que somos doutrinadas desde pequenas a entender o processo de envelhecimento somente em suas desvantagens. Para mulheres envelhecer é feio, proibido até. Mal começam a aparecer cabelos brancos, tememos a velhice, mesmo quando eles aparecem na juventude. Horrorizadas pensamos que a velhice está dando sinais, se os fios surgem muito cedo, é preciso esconder, pintar, fazer um look jovial. Nos homens cabelo branco é charme, nas mulheres desleixo, velhice gritante. Depois as rugas, o que fazer, que cremes usar, o short que não fica bem, as varizes, a celulite, a barriga que devemos apertar com estranhas lingeries que parecem espartilhos. Não dá mais para comprar essas obrigações com o simples argumento que nascemos vaidosas.



Passamos a vida a partir dos 40 anos em sofrimento com os primeiros sinais da idade, dos desgastes corporais. Somos ensinadas que cuidar da aparência é cuidar da autoestima, que não cuidar da aparência é não gostar de nós mesmas e assim vamos nos aprisionando bem quando a vida nos oferece maiores possibilidades para experienciar liberdades maiores e mais intensas, que têm sim a ver com um certo despir de vaidades, com outros gozares.

Se existe satisfação no culto à beleza, e eu tenho dúvidas para qualquer idade, embora na juventude o espelho nos encante e nos embale em ilusões narcisistas com muita propriedade, ela certamente é falsa conforme envelhecemos. Espelhos não mentem, mas podem ser libertários. Cultos excessivos à beleza, especialmente os mais drásticos, que envolvem cirurgias para reverter o processo de envelhecimento, escondem um medo humano que foi extremamente reforçado pela sociedade patriarcal.

De repente, talvez não tão de repente, ficamos mais livres do fardo da beleza. O espelho nos permite, ele praticamente implora: saia daqui, vá viver livremente e me deixe em paz, vá se divertir antes que seu tempo acabe nesse mundo.

 

As pessoas em geral, homens e mulheres, podem até se referir a nós como bonitonas, mas nós sabemos que esses comentários não têm exatamente a ver com a aparência, mas com nossos conteúdos, com o que temos a fazer, dizer e dar e como isso fica além do acúmulo de experiências, um processo constante de movimentos, não há necessidade de esforços maiores. Onde estava a mecha do seu cabelo no momento em que você deu aquela bola dentro é o que menos importa. Como você se sai daquela bola fora pública que você deu, é o que mais importa. O resto é cosmético. Esperança é a última que morre para jovens, para nós, mais velhas, experiência é a última que morre.



Quando lemos um livro, estudamos ou fazemos um curso, há muitas coisas que já vimos anteriormente, nada parece tão fantástico, assim absorvemos as novidades sem maiores ansiedades.
A volta para casa não é tomada de adrenalina, mas usada para envolvimento real com nossas vidas pessoais e lidas domésticas, que em vez de se tornarem pesadas ou vividas apressadamente para retorno aos livros, estudos ou cursos, são experienciadas como continuidade do todo lá fora. Literalmente não temos tempo a perder com aquilo que não está na nossa frente, aqui e agora.

Uma roupa é apenas uma roupa. Não há mais necessidade de chocar indo a um casamento com um jeans ou gastar horas cansando as varizes para encontrar o vestido mais lindo da festa. Não é mais necessário fazer força para agradar ou chocar, a vaidade vive, mas em um lugar mais confortável dentro e fora de nós. O salto pode ser mais baixo ou nem existir porque o importante é poder caminhar bem e até dar uma corridinha. Nada deixa uma mulher mais velha feliz de fato do que poder descer e subir uma escada em passinhos rápidos, na ligeireza. Ô benção!

O passado existe, não podemos nos livrar dele, é um senhor conselheiro sobre as piores horas de nossas vidas, tanto quanto as melhores. Prêmios, aplausos, fracassos e desilusões nos fazem lidar melhor com prêmios, aplausos, fracassos e desilusões. Nada assim muito Augusto dos Anjos, mas talvez mais Brecht.



Sabemos o que fazer diante de uma criança com febre, dor, com piriri de criança, sabemos o que dizer para um amigo doente ou para alguém que está triste, podemos consolar e acolher sem medo de contaminação. Já não tememos a morte nem esperamos da vida mais do que ela já pôde nos dar. Chegou a hora do que vier é lucro. Tipo mais um dia bem vivido, o de hoje. O que tiver que vir, virá, já vivemos o bastante para saber que sonhos mudam para planos e planos modificam sonhos, sociedades acabam e talvez por isso mesmo conseguimos cuidar melhor de cada sonho que vira plano e brota, novinho em folha. E eles brotam, vivendo bem e fazendo as coisas com afeto, sonhos viram planos e se realizam em constante movimento de ir e vir.

Não importa quantos foram os cremes que usamos, nossa pele adquire rugas. Ficamos livres dos cremes, já sem culpa de não usá-los. A velhice não se evita mais depois que começa a ocorrer, os cremes limitam-se geograficamente a locais mais secos pela sensação de secura, não como anti-rugas. Os cabelos, que pintávamos para ter uma cor diferente, adquirem a melhor das cores, a prateada. Já vêm assim com luzes, reflexos, naturalmente, sem fazer força alguma. E é um processo ótimo, sempre em movimento, de um ano para outro eles pintam-se naturalmente em mechas divertidas. Sozinhos! E claro, caem menos.



Crianças em birra, que coisa fácil de lidar. Nós compreendemos as crianças, elas nos encantam com suas vozes, choros, falares e pensares. Elas pedem só mais um embalo no balanço, só mais uma brincadinha e nós rimos e fazemos o que elas querem só para vê-las sorrir. E se não dá, se não dá mesmo, nós conseguimos a comunicação exata para convencê-las que acabou por hoje e que sentimos tanto quando elas. E sentimos mesmo, por isso dá certo.

Somos menos fortes fisicamente, por incrível que pareça isso torna tudo mais leve, desistir do esforço é de uma leveza sem tamanho. Enxergamos menos, especialmente de perto, assim, além de não vermos os defeitos alheios, não enxergamos muito bem os nossos próprios. Os pelos já não existem com vigor, logo estamos livres da depilação ou a fazemos só para dar um tapa no visual. Nossa audição diminui, adquirimos o famoso ouvido seletivo. Só entra o que for bom de ouvir, o que faz sentido, o que nos leva a associações.



O sexo perde em performance o que ganha em conteúdo. Nunca a arte de agradar foi tão forte como promoção do próprio prazer. É só sentir, nada a apresentar, nada a representar. E depois dormimos, feito homens, sem carências, sem discutir relação. Ô bênção! Crianças, bichos e plantas nos fazem sentir êxtase. Literalmente perdemos a noção da hora sentindo a vida em nossas mãos. Ela está a escorrer, mas ainda a temos, ainda podemos e sentimos que não devemos desperdiçar essas oportunidades de renovação, de contaminação com as purezas essenciais da vida.

Sim, podemos usar um short no verão e sair pela rua livremente. Os machões não vão nos incomodar com suas piadinhas. Desejamos que o machismo seja exterminado, já fomos jovens, sabemos da força destrutiva da sociedade patriarcal, mas também dela nos sentimos livres. Estamos livres das belas pernas, temos apenas pernas que sentem calor.

É verdade que não temos mais tantas certezas, a vida não cabe numa equação matemática, não se restringe às evidências científicas, as surpresas estiveram sempre presentes, para o bem e para o mal, assim que perdemos a ilusão do controle. Também não sentimos tantas vergonhas, nem tantos medos e receios. Os limites ficam mais claros, o que vem de dentro se sobrepõe ao que está fora, ganhamos novas fronteiras, nosso ser se agranda sobre o nosso parecer, como se finalmente tivéssemos compreendido que não podemos fugir de ser o que somos. Curioso até porque não se busca ser maior, perdemos a ilusão de ser muito mais em substituição a apenas ser o que se pode ser intensamente.

Há muitos sofrimentos no mundo dos bem grandes e muitas pequenas infelicidades desnecessárias. Sabemos que um bom livro ao pé da cama sempre nos trará consolo para que o não podemos mudar e sonhos para melhorar as coisas que até hoje não vingaram.

Não sabemos tudo, não vivemos tudo, mas somos finalmente mais livres para continuar. #avidapassadepressaproveitatua



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Acordando de Madrugada


Cláudia Rodrigues *


Esta noite acordei estranhando o silêncio.Não havia barulho algum e pensei que o mundo havia acabado e você, mamãe, esquecido de mim. Coloquei a boca no trombone e você veio.

Ainda bem! Fiquei tão feliz no calor do seu peito que acabei pegando no sono antes de mamar tudo o que precisava. Quando percebi que você ia colocar-me no berço, chorei de novo, mas não tente negar: você estava com pressa para ir dormir outra vez.
Você deu seu seio para eu mamar novamente, assim meio apressadinha e depois resolveu trocar a minha fralda. Estava tudo tão calmo, um silêncio, nós dois juntinhos, tão legal que eu perdi o sono.

Você até que foi compreensiva, mas começou a bocejar e resolveu fazer eu dormir. Eu não queria dormir. Talvez precisasse de mais dez minutos, meia hora.Mas você estava mesmo decidida a dormir. Foi ficando bem nervosa e até chamou o papai. Eu não queria o papai e todos fomos ficando muito irritados.
No final das contas acordei a casa inteira cinco vezes.De manhã nossa família estava com cara de quem saiu do baile. Acho que estraguei tudo.
Imagina, você chegou a dizer para o papai que eu estou com problema de sono. Eu não! Você é que vem me dar de mamar com pressa e daí eu sinto que você não quer mais ficar comigo.
Os adultos têm hora certa para tudo, mas eu ainda não entendi essas de relógio e tarefas estafantes que as pessoas grandes precisam fazer. Quando meu corpo está com o seu, quero ficar do seu lado sem me separar nunquinha. Do alto dos meus três meses ainda não descobri direito que você é uma pessoa e eu sou outra, vivo uma tal de simbiose.
Um dia, eu vou sair por aí, vou saber telefonar e posso deixar você doida para saber o que ando fazendo; então você vai entender como me sinto agora. Mas não precisamos dessa guerra, mamãe.

Até lá já poderemos nos entender inclusive através das palavras. Sinto a angústia da separação pois terminei de viver uma das grandes. Você também, mas vive tudo isso como adulta consciente. Eu ainda vivo no inconsciente.
Por enquanto nossa comunicação direta fica restrita aos nossos sentimentos inconscientes. Eu não sei nada, tudo é novo para mim.

Você pode até achar que não sabe nada e que tudo é novo para você, mas eu vou aprender o que você me ensinar através da sua sensibilidade, dos seus sentimentos em relação a mim.
Sabe, mamãe, se você quer um conselho, vou dar: quando eu chorar à noite, não salta logo para meu berço desesperada, como se o mundo fosse acabar. Espere um pouquinho, respire profundamente, ouça o meu choro até que ele atinja o seu coração.

Sinta seu tempo, realmente acorde e venha me pegar. Me abrace devagar, não acenda a luz, fale bem baixinho e me dê o seu peito para eu mamar. Depois que eu arrotar, mais um pouco só de paciência, pois nós, bebês, somos muito sensíveis aos sentimentos dos adultos, especialmente os da mamãe.

Se eu sentir que você está com pressa, sou capaz de armar o maior barraco, mas se você esperar até o meu segundo suspiro, quando meus olhos ficarem bem fechados, minhas mãos e pernas bem molenguinhas, aí sim pode colocar-me de volta no berço que eu não acordo antes de sentir fome outra vez.
Conforme você for desenvolvendo sua paciência, mamãe, eu estarei desenvolvendo minha tranqüilidade e nós não teremos mais noites infernais; apenas noites de mamãe/bebê, que um dia passam, como tudo na vida
.

pag 59 de "Bebês de mamães mais que perfeitas"
http://www.centauroeditora.com.br/lancamentovoz.htm

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Manchas senis sem base em evidências

Cláudia Rodrigues  

Um dia elas aparecem
Dizem os estudiosos de pele e seus seguidores que podem ser adiadas por muitos anos ou até mesmo prevenidas com protetor solar, desde que se evite sair ao sol entre 10h e 15h e se faça uso de chapéus, óculos, lenços, luvas para dirigir. Pela vida inteira.
No alto da testa, ao lado esquerdo, cultivo uma. Não fui capaz de evitá-la.
Quando será que ela se sentiu a vontade para começar a brotar, quando teve sua primeira esperança de viver em mim?
Nos banhos de mar, rio e piscina da minha infância, quando sequer existia protetor solar e a graça era contar quantas vezes descascávamos para ganhar nova pele a cada verão? Quem contava com a pele mais forte, a que ficava morena mais rapidamente, na fantasia da época, era pessoa mais forte, mais resistente ao sol. Produção menor ou maior de melanina era papo para os fracos.
Ou terá sido nas caminhadas diárias até o alto da pedra Buda na ilha de Ko Thao, quando eu passava as manhãs escolhendo o peixe menos colorido para fisgar?
Teria essa mancha e outras que começam a surgir, um momento ímpar lá atrás em que se aproveitaram do meu prazer para resolverem viver em mim?
O sol quente e seco naquela cavalgada para conhecer as pirâmides menos famosas do  Egito?
Aqueles 40 quilômetros a pé, sol a pino, entre o Norte e o Sul de Israel?
As infinitas vezes em que apenas deitei na proa de um barco, na areia quente de uma praia qualquer e senti o sol nu e cru na pele?
As muitas horas em que perdi a noção do tempo nas várias hortas das muitas casas em que vivi?
As vezes em que cavalguei horas e horas por dias a fio?
As subidas ao Morro do Lampião?
Nada me convence que essas manchas sejam malvadas ou se revoltarão contra mim. Dei vida a elas, deverão ser gratas, essas bobinhas.

Mas agora, outra fase, cada vez a coisa que vem de fora fica pior.
Aos 51 anos estou mais vulnerável aos argumentos sob os efeitos nocivos do sol. Procuro não ler sobre as maravilhas do protetor solar, a pessoa tem direito a praticar ignorância em causa própria e particular se isso traz um inefável prazer.
No momento não vejo a hora da chuva de mais de uma semana parar, não por um único dia, mas por vários, para que eu possa fazer muitas coisas ao sol.
O raciocínio é bem simplório, sem base em evidências: já cheguei até aqui me divertindo tanto com o sol, já tem os dias de chuva, os dias nublados, os infindáveis dias de inverno com sol morno. Que venha o sol, vou continuar na paixão com ele.

E nem é verdade que na década de 1980 já não se sabia dos efeitos nocivos do excesso de sol. Eu mesma já falava sobre isso. Lembro bem de um diálogo com minha querida tia Blanca Fígoli.
Eu ia, ela voltava da praia, bem bronzeada, no alto dos seus sessenta e muitos anos, vinha trazendo uns peixes que havia pescado. Paramos no caminho para trocar umas palavras.
Mijita, que linda estás!
Ola tia, que bronzeada, mas olha toma cuidado porque sol demais faz mal para a pele! (sim, eu mesma disse isso)
Ela ficou triste, espantada!
Si, verdad? No me digas eso, pensé que me dejava la piel mas lisa, asi lo siento, que lastima, mijita.
Pena que ela já não esteja viva, me arrependi tanto de ter dado esse terrível aviso, me gusta el sol, asi lo siento.
Que lastima os avisos que o sol faz mal. Não quero saber, fico sem ele por esses dias de chuva, não mais do que nos dias de chuva e nos dias que não posso estar lá fora por outras forças.
Tia Blanca morreu aos 92 anos de idade, sempre com o sol na cabeça. Sempre lendo, escrevendo, recitando poemas. Talvez ela tivesse muitas manchas na pele, certamente estava bem enrugada, não lembro bem, só me vem sua voz, seu riso, suas teimosias engraçadas, seus olhinhos pequenos, redondos e ligeiros, suas pernas cambotas e fortes, mas é deve ter morrido com muitas manchas na pele. Nem quero chegar a tanto, mas será com o sol na cabeça e as manchas na pele, por supuesto.




sábado, 27 de junho de 2015

Festa Junina é contra a homofobia





Cláudia Rodrigues


Pessoas não homofóbicas, mulheres e homens de idades variadas, Brasil adentro, Brasil afora, se unem contra a homofobia. Muita gente da dita esquerda ou de outras bandas declaram-se não-homofóbicas.
É importante, está na hora. A homofobia produz e reproduz ódios, violência, machismos, assassinatos. A homofobia propõe salvar a sociedade brasileira dos "maus costumes e da imoralidade" mas não explica que isso pode maltratar nossos parentes, amigos, pessoas comuns e de todo tipo, qualquer cidadão ou cidadã com muitas características, capacidades,conteúdos,  gente que precisa ser banida em nome da moral e dos bons costumes.

Natural que a sociedade maior não aceite a solução proposta pelos homofóbicos: deixar tudo como está, aceitação simplória, no discurso, mas a continuidade de crimes, violência, corrupção, discriminação velada e explícita.

A homofobia incita ódios, invejas, difamações. Na escola surgem perseguições, provocações, suicídios de adolescentes e jovens que não se sentem aceitos por sentirem o que sentem. Não agrega nada de bom e humano, não tem sentido algum, não defende o direito à heterossexualidade, totalmente assegurado, mas o ódio à homossexualidade, à bissexualidade, à multiplicidade de afetos e preferências afetivas particulares.

Não precisamos nada disso, é possível viver em paz com todas as pessoas, independe de credos, partidos, manobras jurídicas e midiáticas.



A homofobia não representa a realidade dos brasileiros.

A homofobia deve ser criminalizada, não é questão de opinião, é questão de Justiça e Direitos Humanos.

A união civil entre pares do mesmo sexo precisa estar prevista na Constituição, precisa virar lei. As escolas necessitam mais abertura para abordar o direito à diversidade sexual, que inclui, obviamente, a heterossexualidade.

É preciso que pais, mães e professores livrem-se dos seus medos de ter filhos e alunos livres para serem o seu melhor.

Na luta contra a homofobia a militância dos que se sentem heterossexuais é de suma importância e foi isso que explodiu ontem nas redes sociais.





sexta-feira, 12 de junho de 2015

Dia dos namorados, um não-presente de valor para a vida toda

Cláudia Rodrigues




A moça estava triste, não porque se aproximava o dia 12 de junho, mas porque o namoro de 3 anos havia terminado fazia pouco mais de um mês e faltando três dias para o Dia dos Namorados, ela era remetida a cada esquina, a cada comercial de TV, a cada outdoor, às cenas que ela havia vivido ou que não havia vivido e gostaria de viver com seu ex.
Na tarde do dia 10 de junho, recebe o telefonema do moço convidando-a para jantar. Ela sai para a rua, nem pensa em enfeites para ela, compra para ele o sonho de consumo do moço, um relógio de bolso à moda antiga. Saem, conversam, ficam, mas ao final da noite o sujeito se despede e diz que ainda não estava certo de que o ideal seria voltar, que precisava de mais um tempo.
E voltam, em 15 de junho. Algum tempo depois ela fica sabendo que o sujeito juntou-se aos amigos no dia 12 para rir, dizendo que havia garantido a namorada, mas se livrado do presente. Ele riu, confirmou a atitude e abraçando-a pela cintura exclamou alcoolicamente que o importante não era o presente, mas o amor.
Friamente, na manhã seguinte, ela retira do armário o presente que havia comprado para ele na tarde do dia 10 de junho...No meio da confusão esquecera entre suas roupas, afinal nunca esteve ligada ao presente em si, nem o que não ganhara, nem no que havia comprado.

Com o embrulho ainda perfeito bem apertado em suas mãos, ela tem a sorte de pegar um táxi rapidamente, fala o endereço para o motorista, nem consegue se recostar no banco do carro. Paga o trajeto na esquina da Borges de Medeiros com a Riachuelo, sobe a ladeira em passos rápidos, entra no prédio controlando todos os seus músculos para não desistir do amor que basta-se a si próprio. Cumprimenta o porteiro, seu velho conhecido, vai até a porta do apartamento do rapaz e deposita o presente com um bilhete.
"Esse é o teu presente do Dia dos Namorados, o presente mais caro, mais bonito e mais significativo para ti, pelo valor da tua vaidade e do teu egoísmo. Para mim é também o mais caro, mais bonito e mais significativo pelo valor dos meus sentimentos. Cada miligrama de ouro desse relógio representa todos os presentes que vou ganhar de todos os amores que terei na minha vida. Nunca mais me dirija a palavra."

terça-feira, 9 de junho de 2015

Mulheres, partos e luas

Cláudia Rodrigues


Quem nunca ouviu falar que lua cheia é lua de partos, com maternidades lotadas, parteiras e doulas correndo de um parto para outro?
É verdade, acontece essa "coincidência", que não é tanta coincidência assim.

As luas, todas elas, têm efeito sobre o ser humano em geral e costumam ser bem especiais para mulheres com fetos maduros. Feto maduro também passa pela lua cheia e a criança nasce logo depois. Feto maduro espera a lua certa para ele, a lua que o sintoniza melhor com a mãe.

Efeitos da lua cheia ainda, lua cheia no atraso?
Não, nada disso, as mulheres têm lá em seus comportamentos fases mais intensas e ligações mais harmônicas com outras luas que não a cheia.

Em qualquer fase da lua, qualquer mulher pode parir, a natureza é sempre surpreendente, mas podemos falar de tendências, refletir, pensar sobre elas sem julgar, procurando não julgar, sem interpretar, mas também não vale fingir que a lua não existe e não mexe com nossos corpos para lá de enluarados na gestação. Luas mexem com líquidos na Terra, com gravidade, luas se relacionam com plantas, luas iluminam e desiluminam e gestantes são mais sensíveis porque levam mais água em seus corpos.

Mulheres muito organizadas, que gostam de tudo certinho, por exemplo, acabarão parindo na lua nova, lua que sintoniza mais com renovações e reorganizações, com ideias mais claras, é a lua das pessoas que gostam de segurança, não muito chegadas a mudanças de planos na última hora.

Mulheres mais melancólicas, as que guardam um quê de mistério no olhar, podem sintonizar melhor com a lua negra, o período que antecede à nova. Essa pode ser a lua delas, a divisão entre o bem e o mal, a escuridão e a luz, o fio da navalha, é a lua das desafiadoras que correm perigo no escuridão da noite. A lua que não existe, a única transição de lua que tem nome: lua negra.

Há mulheres que conseguem parir todos os filhos na lua minguante. A cheia não as representa, a pressão não faz sentido para eles. É a lua das desapegadas, das que precisam se livrar de peso para poder deixar acontecer o momento perfeito, que é o momento do parto.



A lua crescente é a lua daquelas que preferem angariar forças, a lua das que planejam, esperam, aguardam, aquele tipo de pessoa que não faz questão de fazer a primeira pergunta, espera primeiro ouvir o que todos têm a dizer antes de qualquer colocação.

E a maioria das mulheres eclode ou explode, literalmente, na lua cheia, diante da pressão das águas. É a lua das que deixam encher o pote e permitem que se esvazie na pressão, com um empurraozinho que vem de fora.

Assim, não há lua certa para parir, nem mulher certa ou errada. Podemos parir em diferentes luas de acordo com o que estamos vivendo naquela gestação, naquele momento de nossas vidas.

Uma mulher pode ter sido a vida inteira mais sintonizada, período em que se sente melhor e mais plena, na lua nova, mas justamente na gestação passa a sentir a presença da lua cheia ou da minguante.



Da mesma forma, uma mulher tipicamente de lua cheia, extrovertida, para fora, explosiva, pode na gestação viver contenções, necessidade interna de contenção e virar uma mulher de lua nova. Também pode uma mulher de lua nova se sentir mais perdida e dividida, entrar em pensamentos sombrios e desse mergulho interno nas incertezas e mistérios, parir em lua negra.

Os efeitos da lua sobre nós podem não fazer o menor sentido para quem não vincula sentidos na lua, para quem não passa um mês da vida sequer observando o que se repete e o que muda no corpo e nas sensações durante as passagens da lua. Está ok, isso pode ser esoterismo puro, projeção, pode virar um grande Carnaval daquilo que queremos que seja, mas convido-as a prestarem atenção, pelo menos por uns três meses, da maneira mais honesta possível, em como seus corpos agem nessa e naquela lua.

Sinta, observe, guarde e aguarde a sua lua ou a transição entre uma lua e outra e não as suas semanas de gestação. Tente entender e pesquisar dentro de si mesma a lua da sua fecundação, ela também tem muito a dizer e essa é uma conversa quem nem deveria ser escrita, de tão pessoal e intransferível que é.



quinta-feira, 21 de maio de 2015

Dicas de educação para classe média que não sabe ensinar a lutar

Cláudia Rodrigues





Ensinem suas filhas e filhos a pegar ônibus logo cedo, primeiro com vocês, depois solitos. Eles vão precisar disso um dia na adolescência ou na vida adulta e mesmo que você seja muito rico e pense que não precisarão, não há como ter certeza. Se nunca andaram, terão tendência a ficarem abobalhados, pouco espertos e mais propensos a sofrerem assaltos ou atropelamentos.
Ensinem seus filhos e filhas a andar a pé, porque só se aprende a atravessar ruas andando a pé. Bicicleta só para recreação, com você carregando o malinha e sua mala rampa acima, não vai dar boa coisa. Molequinhos e molequinhas precisam saber ir e voltar. Carregarem seus casaquinhos, bonequinhas e carrinhos faz parte da missão: mãe e pai não são cabides.
Ensinem suas filhas e filhos desde bebês a descascar bananas, maiorezinhos devem saber comer maçã sem ser picada, devem aprender a espremer um suco no muque, usar garfo e faca, colocar a roupa suja no cesto, lavar, secar e guardar louça. Assim não serão os malas na casa da tia no dia do pijama. No mínimo.
Ensinem seus filhos e filhas adolescentes a lavar o próprio par de tênis, lavar, pendurar, recolher e dobrar roupas, cozinhar algo básico, trocar lâmpadas e resistência do chuveiro. Ensine que isso pode não ser prazeroso como tomar um sorvete ou jogar no celular, mas é importante e necessário.
Ensinem suas filhas e filhos a plantar, colher e entenderem a diferença entre um pé de alface e um pé de couve. Você pode não acreditar, mas por falta de ensinamentos básicos muita criança se cria achando que leite é um produto que nasce em caixas. Isso não é engraçado, é um efeito colateral involutivo do nosso tempo.
Não tema o fogo, o fogão, a chaleira nas mãos dos coitadinhos. Se você não ensinar, eles vão fazer muita bobagem e vão se queimar. Educar é confiar nas capacidades e na inteligência deles. É mostrar perigos e ensinar a lidar com perigos.
Eduquem seus filhos para a vida, para capacidades. Prazer não precisa ser ensinado, é um benefício, um privilégio. Ter empregada doméstica em casa não deve ser visto e sentido como alguém que vem acoplado ao lar, quase uma "coisa" um "objeto humano" de limpar e organizar sem parar.
Essas não são dicas moralistas. Educar para a solidariedade é um ato até egoísta e nada poético. Ao ensinar coisas básicas de sobrevivência aos filhos, estamos promovendo confiança e capacidade, auto-estima, senso de dever e responsabilidade.
Evite produzir e multiplicar pessoas que um dia serão adultos entediados, mimados que acharão eternamente que vieram ao mundo a passeio, sem a menor noção do que é resiliência, inaptos para cuidar de si mesmos e de outros, caso se multipliquem preguiçosamente.
A vida pode ser bela, a vida pode não ser dura para herdeiros, mas ela cobrará sempre, de qualquer um de nós, firmeza e força de vontade. Isso não é nato, depende de adversidades e luta pela sobrevivência e nada tem a ver com capacidade de apertar um botão ou deslizar os dedões no Iphone.

sábado, 9 de maio de 2015

O Dia da Encrenca




Cláudia Rodrigues


Assim bem pequena eu olhava a encrenca de longe, ali pelos nove anos decidi: não quero essa encrenca para mim.
Por volta dos 16 sofria de um verdadeiro pavor da encrenca tomar conta de mim, queria estudar, trabalhar, viver sozinha, viajar pelo mundo.
Aos 22 anos, estudos concluídos, caí no mundo, segura de saber administrar a não encrencação enquanto observava e via os mais variados tipo de donas de encrencas pelos cinco continentes. Achava tudo interessante, mas não, não era para mim.



Multiplicar para depois dividir tudo? O meu tempo todo? Como trabalhar, fazer todas as coisas, todas as viagens tendo que carregar apêndices? Que coisa irracional! As outras eram as outras, eu era um ser racional e naquilo não haveria o menor sentido a não ser por apelos sociais e culturais. Eu era livre, solta no mundo, poderia ir a qualquer lugar na hora que bem entendesse, batia a porta e sobrava um eco seco, jamais seria domínio de alguém.


Aos 25 comecei a desconfiar que as encrencas poderiam não ser tão encrencas assim, sentia-me presa à liberdade que eu mesma criara. O eco seco da porta começava a me incomodar.
Foi bem nessa época que visitei, atrasada, a encrenquinha de uma colega de trabalho e fui surpreendida pelo pedido dela para que eu ficasse tomando conta por algumas horas da sua pequena encrenca de 8 meses.
Amassei um abacate, sem açúcar, conforme recomendação da dona e adorei fazer aquilo, cada colherada, as caretas, aquela coisinha me entendia e ria do nada me fazendo rir de volta.
Passeei pelo quintal e como a encrenquinha começou a sentir saudade da sua dona, tive dó, resolvi cantar e embalar. A encrenquinha dormiu e eu senti um imenso e jamais experimentado sentimento de paz.
Olhei ao redor: a casa, as plantas...A porta que fechou atrás de mim deixou um eco molhado, eu queria voltar. Voltar para onde?


Na real queria mesmo uma encrenca para mim, só uma. Eu saberia cuidar e experimentaria a sensação de ter a barriga virando uma melancia, depois colocaria para fora, assim bem forçuda e pôxa, eu iria alimentá-la com um estranho suco próprio, fabricado dentro de mim. Não, eu não poderia passar pela vida sem essa experiência, essa viagem para dentro do meu corpo também precisaria ser feita.
Para completar estava tão apaixonada, que só uma encrenca bem boa poderia fazer meu sonho do amor para sempre perdurar.

Quando dei por mim estava encrencada e tudo o que eu queria era saber mais sobre as encrencações.
Quanto mais eu lia, mais queria ler e saber sobre aquilo na parte de dentro e na parte de fora de mim.
Era mesmo uma encrenca maior do que eu podia imaginar porque fugia totalmente do racional. Eu sentia, pelas barbas de Netuno, eu sentia e sentir não era racional. Hipoteticamente até sabia, mas na prática não era mesmo como amar minha gata, muito menos a encrenca da amiga.



Gostei tanto que dois anos depois já havia encomendado a encrenca 2.
Pronto, agora era tocar a vida com duas encrencas, pararia de ler e tentar saber mais sobre o mundo das encrencas, voltaria a trabalhar na minha área de formação.
Foi quase assim, voltei mesmo a trabalhar na minha área, mas não consegui parar de estudar sobre as encrencas e acabei fazendo outra formação mais a ver com o universo das encrenquinhas e seu desenvolvimento. Dez anos assim, encrencas desmamadas suavemente, já com opinião, vida leve e solta outra vez, indo e vindo sem o eco seco da porta.

Estava tudo bem, as encrequinhas estavam crescidas, eu já trabalhava com as duas áreas, havia dado um jeito de casar as duas áreas dentro e fora de mim. Racional perfeito, acomodado de novo.
Até que perto dos 40 começou de novo um desejo profundo de encrencação. O racional gritava não! Como assim depois de ter uma encrenca de cada gênero, já crescidas, arrumar outra? Barriga, amamentação, simbiose, suave desmame em longas prestações, tudo de novo? E a explosão demográfica? A fome no mundo. Se fosse para ser, que fosse adoção então! Isso seria mais racional.
O eco da porta continuava batendo molhado e além de poder voltar, eu era livre para ir mais longe!



Não havia absolutamente razão alguma, aliás não parecia haver sentido em ter outra encrenca.
Aí a coisa endoidou de vez. Além de desenvolver uma inexplicável alergia ao preservativo, só sentia desejo no período fértil. Tipo muito, apagando a seguir qualquer fagulha de fogo. Marido trocando orelhas para entender aquilo tudo.
Como se não bastasse, produzi miomas e sonhos com um bebê que chorava na minha porta, colocado numa caixa de sapatos.
E assim bem doida, disfarçando a psicose, todas as manhãs eu fingia que ia regar o jardim, pagando de neurótica, só para ver se não havia mesmo ali no canto, debaixo do pé de hibiscus, um caixa de sapatos com um bebê dentro.
Adotei uma gatinha. Não resolveu.

Foi assim que sem querer racionalmente, arrumei a terceira encrenca. E foi tão minha que nascemos uma da outra sozinhas, sem assistência nem nada. Já havíamos esperado tanto por esse encontro irracional, que nada do mundo racional poderia intervir ou atrapalhar.
Tudo foi apenas sentido e o sentido disso, oras, que não faça sentido nem caiba em qualquer manual.









segunda-feira, 13 de abril de 2015

A criança de dois anos e os terríveis adultos que cuidam dela


Cláudia Rodrigues
A criança de dois anos ainda é, em parte, um bebê, o mais esperto e apto dos bebês. Do segundo para o terceiro ano de vida ela vai deixando o jeitão de bebê para trás e tornando-se o que consideramos de fato uma criança, em plena fase social e lúdica. Quando os adultos respeitam e aceitam o desejo de autonomia que surge na criança a partir dos dois anos, ela sai das fraldas, desmama, larga a chupeta, dorme mais facilmente sem embalo apreciando uma história, uma conversa de fim de dia. É apta para ser uma companheirinha, já consegue esperar, entende o que falamos, responde, pergunta, imita nossos gestos e afazeres.

Mas o que mais se vê é criança de dois anos sendo apelidada de terrível, existe a expressão terrible twos para dar referência à fase de desejo e aptidão por autonomia, muitas vezes confundida pelos adultos como teimosia.

Afinal, o que perdem os pais com a criança maiorzinha?


Perdem controle e são exigidos em musculatura e criatividade, isso irrita alguns adultos que se engalfinham em brigas com as pequenas criaturas.
A criança de dois anos acha divertidíssimo vasculhar a casa, pesquisar, abrir torneiras, desembolar meias, puxar rolo de papel higiênico, subir em cadeiras, bancos, armários, mexer com água, terra, farinha. Se ela não for levada para brincar em uma praça, um parque, fará da sua casa o seu "playground"e se for também fará, talvez apenas com um pouco menos de intensidade. Cabe aos pais ensinar como se folheia livros sem rasgar, como pintar tal parede forrada com papel e não outra, como carregar por alguns metros um copo de vidro sem quebrar, aliás essa última é uma façanha que toda criança de dois anos ama fazer, mas que fará muito mal com cuidadores nervosos, ansiosos e pré-prontos para um drama de escadaria.


A maior parte dos bebês ao completar dois anos já dorme a noite inteira justamente porque o dia é alucinante em desfrutes depois da longa jornada de 24 meses em que se dedicaram a ver melhor, ouvir melhor, decodificar a linguagem, além de arrastarem-se até engatinhar e andar. Foi um baita trabalho, o adultos têm o dever de compreender isso!

Aos dois anos a criança está comemorando o gran finale da primeira parte do seu desenvolvimento e fica irritadíssima ao ser tratada como idiota, alguém sem "opinião". Ficam frustradas se as arrancam do chão para o colo em caso disso não ter sido minimamente compreendido e da mesma forma ficam furiosas se pedem colo e não ganham, em caso de tédio ou cansaço. O adulto, irado, muitas vezes acha que a criança é apenas folgada e "cheia de vontades", mas ela é somente um bebezão e os raciocínios mais complexos estão iniciando.

Ela absolutamente não entende que está na hora de ir embora se isso for feito de supetão, ela precisa de duas ou mais vezes de uma mesma frase de repetição para elaborar e aí sim pode ser uma colaboradora melhor. Por exemplo, no parquinho: "olha, nós vamos encher o balde mais três vezes e e depois vamos". Ela pode não entender matematicamente o que são três vezes, mas vai ficar fascinada em ouvir e ver o que são três vezes e vai colaborar. Agora, quando o adulto diz "vamos, está na hora!" ela é capaz de surtar nos tais terrible twos  simplesmente porque sua autonomia é seu calcanhar de aquiles. Ela aceita aprender, aceita e gosta de imitar o adulto, mas há uma linha tênue aí na hora do adulto tratá-la como se ela estivesse com um ano. Bebês de um ano aceitam melhor a engambelação feita pelos adultos, protestam por poucos minutos e logo se distraem com outra coisa, mas crianças de dois anos simplesmente não aceitam engambelação, exigem respeito, são pequenas cidadãs.

A boa nova é que se bem tratada e compreendida no funcionamento de seu cérebro, a criança de 3, 4 anos chega a essa fase sem ataques de birra e capaz de conversar, até mesmo argumentar. Agora, se foi pouco ouvida, se o que ela queria valia uma vez e outra não, se pais, mães ou cuidadores não tiveram critérios e nem paciência para entendê-la, ela chegará um monstrinho aos quatro anos porque finalmente, com capacidades mais desenvolvidas, vai colocar para fora o que viveu e o que não pôde viver aos dois anos. Fase de entender regras mais complexas, como não roubar em jogos, por exemplo, a criança de 4 anos pode se recusar a isso e o que está por trás é nada menos que mágoa por não ter sido respeitada anteriormente. Ela vai precisar processar e jogar para fora, elaborando do jeito dela o que fizeram com ela. Se foi manipulada, vai manipular, se foi desrespeitada vai desrespeitar, se não foi ouvida, vai gritar.

E aí, quem sabe, vão inventar o terrible four, mas de verdade o maior trabalho e a maior alegria de cuidar de uma criança é compreender como ela funciona de acordo com seu estágio de desenvolvimento, sempre mais recebendo do que dando, observando mais do que determinando, sacando o que ela sente por trás de seus raciocínios bem simples, mais vinculados com prazer do que com dever.

Criança que fica mimada não é criança que se sente compreendida, crianças mimadas são crianças que foram incompreendidas, preenchidas com coisas para calarem suas bocas e tudo que uma criança a partir de dois anos precisa é de menos investimento oral e nível quase zero de engambelamento. Comum que coma menos do que comia com um ano, comum que não prefira ficar vendo TV e comendo, mas aprontando livremente pela casa. O doce como suborno sempre funciona de imediato, assim como palmadas e gritos, insultos e isso faz não só com que o adulto traia a criança, mas ela própria se sinta em traição a seus desejos, o que é bem mais complicado. É mais rápido escolher a educação violenta, sedutora ou combinar essas duas formas de levar a criança, mas o preço pode ser alto para a convivência com os filhos, que é para sempre.

A partir de dois anos a criança está apta para livrar-se dos consolos orais, da mamadeira ao peito, da chupeta ao mingau, mas para isso necessita de adultos dispostos a soltá-la para correr, fuçar, pesquisar o ambiente e interagir com ela de maneira menos oralizada. Adultos preguiçosos costumam reclamar mais de cuidar de crianças de dois anos, adultos preguiçosos são adultos, eles mesmos, pendurados na fase oral do desenvolvimento.






domingo, 8 de março de 2015

Mulheres, deletem o machismo dentro de vocês

Cláudia Rodrigues

Tenho consciência sobre os sofrimentos femininos, os mandos e desmandos de uma sociedade machista, as injustiças, desigualdades sociais, históricas e econômicas e a violência que ainda paira contra as mulheres das formas mais nefastas no mundo inteiro. Mas não consigo mesmo compartilhar textos e quadrinhos contra os homens no estilo avesso: "vai pegar no tanque, me traz uma cerveja gelada".

Não consigo, por mais empática que eu seja, por mais que já tenha convivido com homens machistas e que os veja aqui e ali pelas ruas, nas casas de conhecidos, o que tenho para dizer é que hoje, 8 de março, levantei às 6h da manhã para dar tchau aos homens da minha vida, meu marido e meu filho que estavam de saída para uma viagem a trabalho.

Eles, como eu,  não se ligam em datas, estavam fazendo silêncio para eu não acordar, o café já estava pronto, até o que eu como, a tapioca, o tomate e o queijo já estavam postos na mesa para me receber quando eu acordasse. Acordei antes para dar tchau. Foram amorosos, atenciosos sem a menor noção sobre a data 8 de março, na agenda deles apenas uma data de trabalho.

Eles saíram felizes, amam trabalhar juntos. Marido, antes de sair, fazendo um carinho no meu rosto, recomendou que eu não esquecesse de recolher a roupa que ele pendurou no varal logo cedo. (como ele sempre faz) porque ele não poderia recolher (como sempre faz).

Cá estamos, as três mulheres, sentindo a falta deles, acumulando as tarefas que eles pegam juntos conosco todo santo dia.



Assim que com essa convivência diária, minha luta é a favor das mulheres, mas jamais será contra os homens, até porque aos 19 anos eu já estava enfrentando o primeiro chefe e ele era machista, escolhi ficar desempregada e perder "empregão no melhor lugar da cidade". Cheguei em casa, contei ao meu pai o ocorrido e ele disse: "isso mesmo minha filha, não vai engolir sapo de homem nenhum, vais encontrar um local de trabalho que te respeite, não precisa ser em um lugar famoso, fizeste muito bem, já vais conseguir, sempre tem trabalho para quem quer trabalhar". Tive vários namorados machistas e os dispensei nos primeiros minutos do primeiro tempo. Tive azar de encontrar machistas, mas não foi sorte tê-los dispensado sem demora.

Por isso o meu recado é: mulheres, queridas, não deem chances ao machismo do mercado, isso pode ser feito de várias formas para além das importantes denúncias e pedidos de demissão. No amor, no namoro, fiquem espertas, não fiquem sem graça diante de um comentário machista, observem se ele entendeu, se não entendeu nem quer entender, não serve, o mundo está cheio de homens maravilhosos, o boicote aos machistas é fundamental.

E o mais importante, se auto-observem como mães diariamente, como fazem, o que dizem, o que sentem e se isso tem relação direta com o gênero da criança. Não fomos nós, mulheres, que inventamos o machismo, mas somos nós, mulheres, que ajudamos a mantê-lo com nossos comportamentos de cinderelas desamparadas e repetições, casando com o babaca das piadinhas, engravidando do babaca agressivo, fazendo, fazendo e reclamando do mal feito do outro sem conseguirmos nos impor. É assim que tem sido por séculos, isso precisa terminar! É possível amar, cuidar e ser amada e cuidada de forma igualitária.

Amor é e sempre será a promoção do outro. De um lado e de outro. Amar quem não nos trata bem, quem não pega junto, quem nos agride, é submissão e submissão é o alimento maior do machismo.


domingo, 1 de março de 2015

Dos avós que fazem diferença afetiva entre os netos

Para minha amiga Suzana Maringoni, que está iniciando essa jortudo





Cláudia Rodrigues

É um assunto difícil de abordar, espécie de alienação parental às avessas praticada pelos avós que se sentem mais livres para amar e desamar. Estão na deles, muitas vezes levam para a terceira geração os problemas que tiveram com seus filhos. Alguns reparam, se foram mais distantes do filho X, tratam de ser mais próximos dos filhos do filho X, descontando nos filhos dos outros filhos o excesso que julgaram ter dado.

Há a repetição da repetição, surge em frases como "fulano é igual ao pai dele, fulana é mesmo como a mãe dela". A criança que veio ao mundo e não tem culpa nem responsabilidade pelos atos de seus antepassados leva a conta, sendo mimada ou deixada de lado de programas, abraços, afetos, convites, conversas, brincadeiras. O jeito mais raso de fazer isso é por meio das comparações, infelizmente é bem comum, muitas vezes feito na frente das crianças. 




A coisa toda pode se dar com ou sem a justiça por meio da distribuição de matéria. Dinheiro, de qualquer maneira, não é o que mais importa, embora muitas pessoas hoje confundam dar coisas, comprar coisas, como afeto. Um tipo de afeto o que é material contém, isso é um outro recorte, mas vamos ficar apenas no universo afetivo mesmo, que é mais difícil e costuma ser o pior elaborado.


Os pais de crianças que sofrem a falta de proximidade afetiva com os avós costumam sofrer, mas ficam sem saber o que fazer, o que dizer, afinal sentimento não se reivindica. Vai crescendo um buraco e afinal se eles resolvem pontuar, cobrar de alguma forma, quando a coisa extrapola e não cabem em si de dor, são facilmente chamados de ciumentos. "Ora, você sempre foi ciumento, eu gosto de todos iguais, o que dou para um dou para outro. Ah, mas esse mora mais perto, é uma questão de proximidade geográfica." 

O sofrimento das crianças é silencioso. Está no olhar triste, num jeito que pode parecer sem graça, na sensação de inadequação, na recusa a estar com os avós ou mesmo em atos de rebeldia. De qualquer modo qualquer coisa que a criança manifeste em relação a essa experiência, a culpa será dela ou dos pais. Ela fica sem saída, ela não pode cobrar amor, atenção, cuidados daquele avó ou avó que não olha para ela, que não a enxerga, que fala sobre ela com seus pais mas não a fita nos olhos. "Ah fulano pode ir lá em casa, né, qualquer dia desses..." "Ah apareceu a sumida, nossa, quanto tempo!"

Enquanto são muito pequenas as crianças sentem a rejeição, o pouco caso, a falta de vínculo afetivo com os avós, mas não são capazes de elaborar. Sentem-se menos em relação aos netos favoritos, tendem a achar que são culpadas por isso, as mais extrovertidas tentam imitar os primos ou irmãos, as mais reservadas simplesmente se fecham cada vez mais em si mesmas. Conforme vão adquirindo idade e consciência, a dor elaborada vai tomando novas formas, afinal elas não "precisam" mais daquele amor que nunca veio. Ainda assim a tendência é culpabilizar os adolescentes para validar o que foi feito, o que não foi vivido, o que não foi sentido.

São muitas as desculpas e muitas culpas mal-resolvidas, fruto da dor da falta de contato ou de excessos de contatos superficiais que ultrapassam gerações. Quando um dos filhos é nitidamente o "predileto" talvez seja ainda mais difícil do que viver prediletos de um irmão ou irmã.

Os pais mais sensíveis tendem a se afastar do convívio familiar, buscando na família do cônjuge o preenchimento do buraco emocional. Alguns não têm sorte, há crianças que só têm um par de avós e passam por isso. Entre tantas tristezas maiores que existem no mundo com as crianças reside essa, pouco debatida. Talvez porque o tempo de sermos avós não seja encarado como um tempo de continuar evoluindo, mas como um tempo que resta, que sobra. Talvez porque os avós sejam pessoas mais velhas que precisam de uma espécie de superproteção ao que sentem e fazem, como se não pudessem mais ser responsabilizados pelo que sentem e fazem.

A sociedade sempre pode melhorar, pais conscientes e responsáveis por suas responsabilidades emocionais podem virar essa chave quando chegar o momento de virarem avós. A responsabilidade afetiva em relação às crianças não termina quando nossos filhos viram adultos. Ela continua por meio dos netos e se por um lado parece menor, ela se torna maior de acordo com a leitura e o aprofundamento da compreensão de cada uma das histórias que vivemos com cada um de nossos filhos. E mais: ela passa pela questão de gênero, já que na nossa sociedade os avós genitores de mães costumam ser mais próximos dos netos e netas filhos de suas filhas. Aí também sobram desculpas para as incapacidades de amar, "a nora não traz as crianças, ela que quis assim..." 

Tem muito caroço nesse angu dos afetos familiares. Haja coração e cérebro para lidar com a neurose humana e seus becos escuros. Fica aberto o debate para quem vive isso com seus filhos ou viveu isso com os próprios avós.


sábado, 28 de fevereiro de 2015

Oficina Gravidez Parto & Simbiose em Porto Alegre

Programa
Fecundação Quando corpos sadios não se deixam fecundar A separação entre o desejo e a vontade A mãe mal vista – a mulher ressentida  

Gestação 
Os três primeiros meses – a implantação Sentimentos Ambivalentes Danças dos hormônios – os sintomas Simbiose e Rejeição Os três meses do meio – o desenvolvimento O rei na barriga – ou seria uma rainha? Tornar-se mãe – deixar de ser filha Os três meses finais - ansiedade de separação O medo do parto: grande mestre ou vilão  

Trabalho de parto 
O medo de expulsar - fantasias de dilaceração A expulsão vista como tragédia A expulsão sentida como solução Dar a passagem – dar à luz Cortar a simbiose ou continuidade somática? Os seis padrões básicos durante o TP Leitura corporal Tendências de cada caráter Busca de soluções singulares  

Amamentação
 A agressividade da expulsão reparada pela amamentação A agressividade da expulsão e a euforia do parto Transtornos da amamentação após o parto Transtornos da amamentação após a cirurgia Amamentação e simbiose do bebê Amamentação sentida como prisão Amamentação: uma viagem rumo à autonomia do bebê Corpo, Arte e Conclusão

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Congresso online sobre parto e nascimento

Excepcionalmente entre 19 e 25 de março o Congresso Nascer Melhor será totalmente gratuito com possibilidade de acesso a todas as palestras.

As inscrições, assim como outras informações, podem ser feitas por e-mail ou facebook pelo link http://bit.ly/060-congresso-nascer-melhor

domingo, 11 de janeiro de 2015

Mídia: foco no fato e nebulosidade no todo








Cláudia Rodrigues



O modo de operar da mídia dominante é o foco no fato de modo exclusivo, interesseiro, conveniado e financiado pelo sistema econômico de grande escala. Isso em detrimento do foco nas pessoas, nas suas necessidades e diversidades. Detalhes e números sempre são notícia, passando a falsa impressão de que estão informando. Estamos diante de uma população mundial gigantesca de pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza. A maior parte de nós tem conhecimento sobre esses e outros fatos, mas como eles estão desconectados das relações humanas, sofremos uma espécie de anestesiamento, fingimos não saber que estamos sendo manipulados ou simplesmente nos resignamos, como inocentes súditos.  http://noticias.r7.com/economia/noticias/mais-de-1-6-bi-de-pessoas-vive-com-ate-r-2-por-dia-20110201.html.





A distribuição de renda dos governos da maioria dos países está mal porque sempre foi ou piorou, direitos de trabalhadores vêm sendo perdidos nos países em que os índices estavam melhores, explorações de todo tipo formam a grande aldeia mundial econômica, que concentra muita renda, por uma questão de lógica econômica. Menos de 1% da população mundial detém 40% de toda riqueza. http://exame.abril.com.br/economia/noticias/menos-de-1-da-populacao-mundial-detem-40-de-toda-a-riqueza.

Para obter tamanha façanha, usam armas, venenos, estupros, drogas legalizadas e  ilegalizadas numa longa trajetória de negócios e guerras internacionais. Tudo isso está na mídia como fato. Debates sobre colocar ou não veneno nos alimentos, saltam aos olhos e achamos normal o debate, debatemos isso nesse momento da história: uso de veneno no cultivo dos alimentos. Nossa mídia é livre para pasteurizar qualquer tema, em nome da pluralidade, não sai da dualidade, em nome da informação, boicota o conhecimento.

Ainda há trabalho escravo,  mas agora temos mil e muitas maneiras de legalizar o trabalho escravo, com exploração de tempo doentia e regras que flexibilizam os direitos, mas não os direitos das empresas sobre as pessoas. Tudo isso é notícia normal, corriqueira. No Brasil o Estado é o que mais dá direitos, embora haja discrepância significativa de distribuição de renda também no Estado. Os empregados das grandes empresas brasileiras, das médias e pequenas, ganham mal e são muito explorados, trabalham muitas horas, passam horas em transporte porque as empresas não se interessam pela logística humana. Empresas no Brasil de médio e grande porte não fornecem boas creches e boas escolas, não se interessam em ajudar as escolas públicas e preferem patrocinar grandes eventos parafernálicos à alimentar a cultura local, sempre com exceções, é claro.

A mídia trata dos fatos, mas as próprias corporações midiáticas não tratam dos seus fatos internos sobre a distribuição de renda e logística para promover o desenvolvimento dos seus trabalhadores, muitas vezes denominados como colaboradores, palavra para encenar qualquer coisa bacana que não se sabe realmente o que significa. São na prática os bonecos da vitrine, os representantes daquele símbolo e suas significações. Alguns ganham bem para isso, funcionam como minhocas no anzol, atrativo ilusório de uma hipotética fartura. Tanto se fala em conflitos religiosos, mas nada se iguala à religião do consumismo. Vivemos a era da ditadura dos playboys, revival dos cowboys. Terão seus quilombolas do mesmo tempo enquanto pastamos aqui como boas ovelhas. Brincadeirinha idiota vive o Planeta inteiro, em conjunção. Não precisa ter motivo para fazer bullying econômico, tudo é motivo: tons de pele, religião, formas de governo, comportamentos, hábitos, cultura, história. Que chatice as más relações, as manipulações e a cereja do bolo queimado: guerras. Matanças, violências, guerrilhas sem sentido porque não há escuta para a desigualdade econômica. Motivo: sem desigualdade econômica, sem concentração de renda para poucos, a economia irá à falência.





A necessidade de fraternidade na economia está caindo de madura. Os bancos éticos, que trabalham com microcrédito e juros aceitáveis, não representam 1% dos bancos do mundo. A trajetória econômica do mundo rege o sistema e só vem retirando direitos sociais, culturais e de paz por meio de investimentos econômicos na eliminação de pessoas e rixas entre governos e ideologias. Ainda assim é considerado normal que se produza mais guerras em nome da paz, eternos investimentos em segurança como aparato repressor em vez de esforços de decodificadores de necessidades e direitos.

Essa história não começou ontem, mas está claro que a tentativa de solução no modo piloto automático, mais violência, mais armas, mais veneno e mais desigualdades, não funciona. Ou melhor, funciona, continuaremos sendo cobaias, a maior parte de nós, mesmo os que estão confortáveis e acreditam ainda que o melhor não é tratar de perto com as diversidades, mas criar defesas, muralhas, guetos. Esses ainda mais cobaias do medo do medo. Muitos de nós creem piamente que o investimento em armas é o um bom sistema de segurança. Armas que podem ser apontadas para nós em qualquer esquina. De um lado ou de outro. Filminho policial brega é o berço da humanidade.





Está custando para as perguntas básicas terem validade. Por quê? Quem? Quando?Como? Onde? Só ficamos no Ukê! O que aconteceu e sempre segundo as fontes dos interesses do game do sim e do não e daquele debate raso entre o bem e o mal, escolhendo já previamente, sempre de acordo com interesses em questão, quem é o bem e quem é o mal.

Novela da vida real do Planeta está absurda. Os mocinhos do nosso filme global aparecem vestidos de Batman, mas adivinhem? Eram todos coringas. Não se sabe por onde andam os supremos saberes, os supremos direitos em meio a tantos superpoderes. A trama é de lascar. Incitam violência,  homofobia,  racismo, machismo, brutalidades de toda sorte. Religião sempre foi um setor muito explorado. As divisões, subdivisões e criações de novas seitas religiosas viraram um negócio para muitas pessoas no mundo. É um negócio lucrativo do ponto de vista econômico e mantém as regras de exploração, só precisando expansão para receber cada vez mais adeptos. Um filé para o jogo entre nações. As pessoas se encontram nas igrejas, escolas, na rua, em todo lugar e se viram. Sim, elas brigam, se matam por ignorâncias afetivas tanto quanto econômicas, há muita violência. Tratar crimes individuais de humanos uns contra os outros não é uma tarefa que se faz da noite para o dia, mas o que temos é um pouco pior. Estados, Nações unidas contra a população mundial, financiando guerras, mutilações em massa, reparações não menos aviltantes e invasivas sob diversos aspectos dos direitos inerentes do corpo humano.

Temos de tudo, até comércio de água.