sábado, 12 de dezembro de 2015

A dor do parto

Cláudia Rodrigues 

Raramente assisto partos, dá para contar nos dedos das mãos os que assisti, mas como muita gente sabe, trabalho com isso, com atendimento particular e em grupo para gestantes e doulas aprenderem a lidar com o mais difícil do parto: administrarem a dor, aprendendo ao longo da gestação suas tendências corporais para evitar aquela que é uma dor que necessita entrega para que ocorra o desfecho: coroação do bebê com saúde. Ou seja, não trabalho com não doer, mas como lidar para que a dor flua e traga o bebê em segurança.

A cada parto que assisto me convenço que a maior das faláceas é preparar a gestante para não ter dor porque ela fatalmente sentirá algo jamais imaginado e após ter seu bebê nos braços provavelmente esquecerá o que viveu e ajudará a multiplicar a ilusão do parto sem dor. Diz-se popularmente: "a dor do parto é a única dor que a gente esquece".

Raríssimas mulheres têm partos orgásmicos. Eu nunca vi pessoalmente nenhum desses partos a não ser em filmes bem editados ou no momento do expulsivo, que realmente não dói. A expulsão é caracterizada por sensações intensas que algumas mulheres até denominam como dor, mas o fato é que as dores do parto têm a ver com o trabalho de parto e são mais fortes para as mulheres que temem cada contração, que se apavoram com a evolução. Evitando sentir dor, dói mais porque demora mais, é uma sinuca de bico.



Simples e explicável: as contrações uterinas aumentam progressivamente e a cada uma é possível que a mulher tensione o corpo ou use outras estratégias internas para adiar o andamento. Uma das estratégias para adiar a dor ou desintensificá-la é pela respiração. Respirando mais curto, expirando menos, engolindo o ar, apertando-se, a parturiente consegue evitar o aprofundamento de cada contração e assim adia o processo. Isso é tão natural no ser humano que o parto tem fama de ser algo demorado: "ah, tal coisa demorou como um parto".

Não se encerram os dramas das mamíferas humanas em respirar e manter o corpo relaxado, há todo um complexo histórico, familiar e cultural associado ao parto que também se concentra no imaginário da parturiente em suas horas de trabalho de parto. Algumas têm mais medo da expulsão, outras do atendimento ao bebê, se precisar de algo, mas é verdade absoluta que a maioria das mulheres fantasia que parto é só expulsão, quando na realidade a expulsão não significa nem em dor, nem em tempo, sequer 1% do que significa o parto como um todo. Sem dúvida é a expulsão o momento clímax, o melhor momento, o prazer, o final de uma etapa e o presente maior, o bebê. Pensar em parto apenas imaginando o expulsivo é investir em ansiedade e ansiedade atrapalha.

Embora eu faça muitas piadas e até mesmo dramatizações sobre as dores do trabalho de parto, mesmo entre as mulheres do grupo existe a fala do "minimizei a dor". E claro, elas se referem às horas do trabalho de parto. Óbvio que para as que temem muito a expulsão, esse momento pode ser mais dramático, daí vai de cada uma ao longo da gestação ouvir suas histórias internas, as mais impressionantes, aquelas que cavaram um medo maior. Mas com medo ou não da expulsão, quando o bebê coroa não tem mais saída a não ser nascer e aí é questão de minutos. Medo de "rasgar" ou medo do bebê "trancar", é medo do expulsivo e quem sente isso provavelmente vai adiar o andamento enquanto puder, enquanto tiver estratégias para evitar "o mal interno maior".

Existem mulheres que conseguem parir em poucas horas desde os primeiros sintomas, mas essas são mulheres que sequer qualificam os primeiros sintomas. Quase sempre em um relato de parto rápido há revelações como: "achei que estivesse gripada", "estava sentindo uma dor de barriga", enfim, as raras mulheres que têm partos rápidos e ainda mais raras entre as primíparas, percebem seus partos já perto do período expulsivo, dilatam "sem sentir dor", só sensações administráveis que vão levando com vida normal. O foco na dor aumenta a sensação de dor e de medo da dor, o foco na respiração e em áreas do corpo mais agradáveis, nas sensações de alívio ao final de cada contração, facilitam o andamento e desencadeamento do parto, o que acaba, por tabela, dando a impressão de doer menos.

No mais, na maior parte das vezes, partos demoram e doem durante todo o amolecimento do colo do útero e dilatação, ainda podem demorar algumas horas no período expulsivo e aí sim depende mais da cabeça, do imaginário da mulher. No período expulsivo a gestante precisa encontrar um lugar seguro, ela mesma. Pode ser cantinho do banheiro, da sala, banheira de água morna ou hospital, quando o medo maior é de que haja alguma intercorrência com o bebê e ela não se sente segura de que ele estará amparado.

Independente de tudo isso, o melhor trabalho de parto, mais eficiente e mais confortável para a parturiente é em sua casa, com mais liberdade de movimentos, opções de comidas, líquidos e pessoas carinhosas que recebem sua dor, seus queixumes e suas necessidades de atenção.

Se ela sente-se bem pode parir ali mesmo, se vierem os puxos da expulsão é ali mesmo que ela pode parir, se já há dilatação completa, nenê baixo, tudo certo e a mulher nitidamente não se sente segura para expirar profundamente a fim de que venham os puxos e isso demorar muito, então talvez ela precise migrar para o hospital a fim de relaxar.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Dormindo sozinhos, a travessia



Por Cláudia Rodrigues 

Uma amiga perguntou com que idade meus filhos começaram a dormir sozinhos, sem termos que esperar no quarto deles até adormecerem. Talvez seja útil para outras mães e pais.
Precisei puxar da memória, os filhos ajudaram, mas foi por volta dos 6 anos. Nessa época eu já não lia as histórias no quarto deles, que ficava com meia-luz e camas arrumadas para dormir. Assim que a leitura era feita na sala, com a luz acesa, já desde os 4, 5 anos e o número de histórias era negociado de acordo com o horário: 20h, três histórias; 21h, 2 histórias; 22h, 1 história. Passando das 22h, já para cama sem história e sem enrolação, mas se a causa de dormir depois das 22h fosse por minha conta, tipo amigos adultos em casa, eu me enrolando, aí contava uma história.
No quarto, depois das histórias, ficava um pouco mais, ouvia sobre o dia deles ou me deixava enrolar uns minutos contando histórias da minha infância e na hora que sentia o bicho pegar, tipo conversa mole demais, ia no tsh tsh, agora vamos dormir, amanhã falamos mais. E silenciava. Tenho lembranças de reflexões que eles fizeram sobre escuro, sobre medo, sobre morte e momentos de ansiedade, excitação por um passeio na escola, festas de aniversário e nessas noites costumavam demorar mais do que a meia hora normal para entregarem-se aos braços de Morfeu.
Bem, não era sempre eu que fazia dormir, na real o pai e eu jogávamos par x ímpar ou pedra, papel, tesoura para disputar quem iria fazer dormir e claro,por motivos óbvios, o ganhador é que ia fazer dormir, enquanto o perdedor saía à francesa.
Contam eles hoje em dia que preferiam dormir comigo porque eu variava as histórias e dava mais mole, o pai contava sempre a mesma história e todos eles se finam de rir contando que o problema da história do pai era não ter fim e todos os três prometiam a si mesmos que iriam ficar acordados até o fim da história para saber o fim, mas isso nunca ocorreu.
O pai sabendo disso esses dias gargalhou total e confessou que era mesmo uma história sem fim e muito entediante.
Uma vez perguntei ao marido como ele conseguia fazer dormir mais rapidamente e ele contou da história do grande lago dos ninhos. Eu imitei, mas comigo nunca deu um efeito como com o pai. Diz o marido que é porque eu falava muito animada e alegre, que não sabia ser monótona.
A história do lago, bem hipnotizante, era mais ou menos assim:
"Era uma vez um grande lago que abrigava muitos ninhos, muitos bichos e muitas árvores. Havia bicho que dormia perto da água e bicho que dormia nas árvores e em todo lugar em volta do lago.
Quando começava a escurecer, os bichos começavam a chegar. Vinha o jacaré, bem devagar, ajeitava o ninho e ficava lá perto da água fazendo os jacarezinhos dormirem. Mais adiante, lá de longe, vinha dona raposa, já nem saltitava, meio cansada, fazer suas raposinhas dormirem...
E assim ia, como o pai sabe o nome de infinitos bichos, nomes de passarinhos, árvores sem fim, tudo muito devagar e entediante, assim a história nunca acabava.
O gosto por irem dormir sozinhos começou com a algazarra de mais liberdade para dormir na hora que bem entendessem, abrindo mão de histórias e despedidas. Foi gradual, mas nenhum deles pediu companhia depois dos 7 anos.
Quando as aulas passaram a ser de manhã, desceu o capa preta do horário rígido, que na real sempre foi antes das 22h, no máximo às 22h, com reflexões e conversas sobre necessidade de horas de sono e tal.
Pegação de pé com horário para dormir começamos a parar por volta dos 12 anos, se não atrasar de manhã para a escola, se atrasar leva bronca.
Quando começam a pegar ônibus sozinhos, ninguém leva mais bronca, se perder o ônibus falamos: ah que pena, amanhã faz algum esquema para não perder a hora.
Não há fotos de fazer dormir, mas achei essas da enrolação e algazarra noite adentro. A primeira bem culpa minha, trabalhando até tarde, eles esperando a história, que contei e na segunda noite com amigos crianças em casa, o que se encerrava com um já para cama porque está tarde e a diversão foi muita.
Foi nosso jeito, foi leve, arranjamos nossas regras que cumprimos e fizemos cumprir sem choradeiras, sem mimimis, com amor e sem culpa.
Deve haver muitos jeitos bons o bastante de fazer o esquema da despedida do dia, essa é apenas uma forma que construímos para nós de maneira prazerosa.
Dizem eles que têm boas lembranças desses tempos.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Nebulosa do ser ou a crise dos 30/40?

Cláudia Rodrigues 



O tempo dos adolescentes tende a ser enorme, eles sequer imaginam-se sendo pais, mães, viajadores pelo mundo na aventura, solitos. No máximo rola uma fantasia de intercâmbio quando essa realidade social e econômica existe para eles. Adolescentes quando fazem aulas de violão e gostam, tendem a imaginarem-se em grandes performances. E tudo pode mudar em questão de meses. Até Batman e Homem Aranha, bem no fundinho, ele acreditam que poderão vir a ser. Isso vem de dentro, do tempo que eles têm pela frente e da pouca experiência com o suor da vida propriamente dito.

Jovens adultos sonham com os pés mais no chão, já mataram Batman, Homem Aranha, Papai Noel e princesas da Disney faz tempo, mas tudo está para acontecer. Se estudam e trabalham desde cedo sabem bem que a vida pode ser bem vivida, mas de fácil não tem nada. Caem de cama com o término do primeiro namoro, caem na gandaia, ainda andam muito em grupos e são dependentes da aprovação de seus grupos, que a essas alturas já não é mais um único grupo, mas uma costura de amigos pessoais já selecionados.


É verdade que existem os mais solitários por opção, mas as experiências de vida de vinte e poucos anos de existência deixaram uma bagagem considerável de aprendizados e relacionamentos. Os mais céticos têm certeza que não serão enormes, por tendência, porque tudo na vida é esforço, muito esforço e algum aplauso. Mas eles ainda caminham bastante no mundo dos sonhos, faz relativamente pouco tempo, coisa de 10 anos, que eram os queridinhos do papai e da mamãe se apresentando na escola, sentindo-se especiais, para não dizer principais. E isso bastava, ter os pais, tios e avós como platéia era tudo o que precisavam. Agora eles têm amigos, professores, colegas, chefes e ainda a vida pela frente. O tempo passa devagar para tudo que eles almejam realizar.

Por volta dos trinta e poucos anos, um pouco antes, um pouco depois, para alguns uma vida inteira, começam os choques de realidade, muitas vezes misturados às experiências de paternidade e maternidade. E não são raros os casos de adultos desesperados com a finitude da existência humana. "Não vai dar tempo, não vai dar tempo, não sou feliz o bastante, essas crianças, esse homem, essa mulher não me deixam trabalhar mais, ser mais, ganhar meus troféus."

Diz o mercado do comportamento humano que os atuais 30 são na realidade os 20 de antigamente, o que vale também para os 40, que seriam 30 e os 50, que seriam 40. Parecemos mais jovens e nos comportamos como mais jovens. Os segredos dessa longevidade vão desde alimentação, medicamentos, passam por exercícios físicos, meditação ou o que se considera meditação hoje em dia e vão parar nas cirurgias plásticas e elixires vitamínicos de longevidade. O eixo principal desse retardo do amadurecimento humano traduz-se bem pelo dito popular "espírito jovem".


O importante, a máxima é não cansar, não desistir de viver, viver correndo cada dia como se fosse o último, mesmo que seja exatamente o último, lutando com sofreguidão para chegar ao pódio, seja do master de natação ou do melhor iogue do ano. É importante ser grande, parecer grande, ser alguém na vida, alguém que se destaque, alguém que seja reconhecido por uma grande plateia, uma plateia que nunca parece ser suficiente. É preciso aparecer, não basta mais estar vivo e é nessas que muita gente troca as bolas, literalmente escondendo-se de si mesmas. Às vezes ao preço do boicote à vida pessoal e da convivência com aqueles que mais ama para tentar se enquadrar em alguma fórmula de destaque, sucesso. É uma corrida louca atrás de virar Batman outra vez. Não que uma pessoa de 30, 40, 50 ou até 90 anos não possa ganhar prêmios ou reconhecimentos de plateias maiores, mas pela ilusão de que a satisfação esteja no pódio, na festa, no dia da bebedeira e não no prazer da labuta, que em tese se descobre aos vinte.



Assim que não é sobre a sede de viver, pulsão vital, mudanças, guinadas de vida que estamos falando, mas justamente o contrário, sobre um certo pânico da morte, que acomete pessoas de várias idades, embora seja mais comum entre 30 e 40, e faz com que elas vivam em um padrão de ansiedade tão alta, com uma expectativa tão grande que nada do que façam parece bom o bastante.

A sensação de fraude interna vai aniquilando a pessoa e o troféu que nunca chega acaba sendo entregue como troféu abacaxi ao companheiro, companheira, filhos, filhas, colegas. A responsabilidade sobre o foco vem de fora e volta para fora, não chega a fazer a curva dos sentimentos e sensações mais profundas. Nota-se que isso cresceu com o surgimento das redes sociais e cada vez mais pessoas de várias idades e não somente adultas entre 30 e 40 anos, têm apresentado o quadro; mistura de inadequação, sentimento de fraude, falta de forças internas para focar no que desejam, desligando-se do que os outros vão pensar, do que o mercado vai aprovar. Com os olhos ainda muito virados para fora, como se tivessem 20 anos, sofrem de falta de contato interno, não sabem ao que vieram. Mesmo formadas, trabalhando, se virando pela sobrevivência como qualquer mortal, sofrem um profundo sentimento de fraude, quase uma sensação de vergonha por estarem vivas e não apresentarem um bom diploma de desempenho para si mesmas.


O que se gosta de ser e fazer na vida eventualmente é o que o mercado quer, isso pode ou não trazer sucesso, holofotes ou apenas sensação de dever cumprido para si mesmo, mas em nada depõe contra a sensação de sucesso interior de quem se entrega ao que gosta, ao que traz pulsação e que eventualmente não agrada ao mercado e aos outros em geral. Entre uma coisa e outra reinam muitas infelicidades, uma nebulosa de não ser para além do ter.

E isso tudo ocorre em um mundo que traz tudo para quem tem um mínimo de conforto ser profundamente satisfeito em termos existenciais.






sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Mudando de país

4 a 6 anos

Cláudia Rodrigues 


Oi, meu nome é Lana e tenho cinco anos. Cinco, entende? Eu já encho uma mão inteira, isso é metade de 10, que seriam as duas mãos. Sim, vocês podem não acreditar, mas eu sei o que é metade e até já sei o que é dobro.
Sim, eu sou uma menina que se vira bem, mas estive por meses com um problemão porque tudo que eu sabia, tudo, absolutamente tudo que aprendi era em português. Acontece que meus pais e, claro, eu e minha irmã Nani, que é pouco mais do que um bebê ainda, íamos nos mudar para a França. O que de fato ocorreu. E de francês eu só sabia falar “oui”.
Ou seja, durante meses, desde que foi anunciada nossa mudança, eu sentia um frio na barriga só de imaginar um monte de gente falando comigo e eu sem entender nada. E além da língua, os rostos diferentes, tudo diferente. Meus amigos, meus colegas da escola,  minha escola mesmo, pensar em deixá-los é que me causava o tal frio na barriga. Eu ia perder tudo e ganhar uma coisarada misturada em francês.

Mas, como tudo na vida só anda para frente, lá fui eu com meus pais e minha irmã, essa sortuda que mal sabe dizer qualquer palavrinha em português e assim estava livre de ter que entender ou falar qualquer palavra em qualquer língua. Quando vinha o assunto, ela ficava lá, bem mané, puxando a própria língua. Bebezices da Nani!
Claro que para ela tudo seria mais fácil, afinal os adultos estão sempre tentando adivinhar o que ela quer. Já eu, ou sei ou não sei, ou falo ou não falo e eu que me vire. Tá, não é bem assim, minha mãe e meu pai se importam muito comigo. Mas fato é que no avião já começou a enrolação de língua. Até aí tudo bem, eles repetiam tudo em português e foi quando eu comecei a pegar uma e outra palavra, assim do nada. Óbvio, não eram frases inteiras, mas já me senti assim um pouco mais esperta. Ou menos burra, porque era isso que me doía, me imaginar como um bebê burrinho que não sabe falar.

E então chegamos e fomos para nossa nova casa. Diferente de casa mesmo, como aqui em Curitiba, nossa casa nova é em um prédio, um apartamento.
Logo na primeira semana conheci uma menina, ela não tentava falar comigo, nem eu com ela, claro que eu estava morrendo de medo de falar com ela. Um medo que dias depois se dissipou quando nossas mães começaram a conversar. Em espanhol! Eu nem sabia que minha mãe sabia falar espanhol.

Que sorte, minha primeira amiga na França, a Consuelo, é espanhola. Ô língua fácil, logo de cara estávamos conversando como se fosse em português. Bem, quase. Consuelo já estava na escola ali perto de nossa nova casa e sabia falar algumas palavras em francês. Então, quando a gente não conseguia acertar no português nem no espanhol, ela explicava: “aqui es asi que se habla”: “coupe-vent” E foi assim que fui aprendendo mais umas palavrinhas.

Um dia papai chegou do trabalho e verificou que eu estava aprendendo umas três palavras novas por dia, o que dava uma média de 90 palavras por mês.
Não vou dizer assim que foi fácil aprender francês, mas não foi tão mais difícil do que mergulhar e a sensação de não conseguir, que a gente tem antes de realmente tentar é a pior da sensações. Melhor mesmo é quando a gente tenta porque daí até esquece que está tentando e tudo vira vida normal. É um alívio não pensar em conseguir, só em tentar e ir conseguindo em divertimento.
Claro que agora, depois de 6 meses na França, eu já sei falar até que bem e estou começando aprender a escrever. Isso significa que português virou fichinha. Claro, quando não confundo as línguas. Isso anda acontecendo até com a Nani, que agora fala “ eu chèrie”.
Mas é bem essa mistura que tira o medo porque o medo é um coisa de quem ainda não tentou ou não está tentando. Tentar é tão bom que a gente esquece que está tentando, tentar é tipo assim vou vivendo, vou aprendendo, vou errando, vou consertando.

Mas de tudo mesmo o que descobri depois de “cair” na França é que uma criança de 5 anos de uma nacionalidade diferente não deixa de ser a mesma pessoa, a mesma criança dessa mesma idade porque não fala uma língua.

Balanços, parques e pracinhas não falam nem escutam, são iguais ou muito parecidos em todo lugar.
Tarefas de sala de aula também, se a gente não entende direito em português porque estava falando com a colega, é só dar uma olhada em volta. Do mesmo jeito quando a gente não entende por causa da língua. Ou seja, não entender é uma coisa que existe na língua da gente ou na língua dos outros.
Comidas são diferentes, mas são comidas e também não é assim o maior sacrifício do mundo trocar feijão com arroz por torta de maçãs.

Além disso pessoas dizem coisas com os olhos, com as mãos, com o jeito. E isso já no primeiro dia de aula aqui eu vi acontecer. Uma menina caiu na escola e ficou sem graça, envergonhada e sozinha todo o recreio. Ou teria ficado, mas tive coragem e fui lá ficar com ela, ficamos desenhando no chão, não falamos nada, mas demos tchau uma para a outra e no dia seguinte continuamos. Foi com ela, minha amiga Martine, que mesmo sendo francesa é muito tímida na sua própria terra, que aprendi muitas palavras novas em francês. Martine é tão tímida que preferia me ensinar uma frase inteira com a maior paciência, só para poder não falar na sua própria língua. E eu, bem, eu sou eu em qualquer língua ou não língua. Eu não sou uma língua, sou uma pessoa e serei eu em qualquer lugar do mundo. Até na África ou no Japão! Como diz a mamãe: o mundo é uma ervilha!


Cachorros, gatos, animais de estimação, são todos idênticos em qualquer lugar.
Adultos também, todos iguais ou muito parecidos. E sim, coisas diferentes existem muitas, e bem, hoje só posso dizer que conhecer coisas diferentes é ótimo porque coisas são apenas coisas, o importante é que pessoas se parecem muito, mesmo quando falam línguas diferentes e têm hábitos diferentes, como comer ovos moles (eca) logo de manhã.

E sim, ainda tenho vontade de ver meus amigos do Brasil, tenho saudade, quero logo que chegue o Natal para ver meus avós, ir à praia, rever meus colegas. Só que agora já sei que vou sentir saudade boa, daqui e de lá, e não preciso mais me preocupar com o que eu ainda não tentei. Porque tentar é saber viver e eu vou continuar por aí, sempre tentando porque conseguir é um lugar que só existe na cabeça de quem está parado.


domingo, 30 de agosto de 2015

Amor, fase Terra




Cláudia Rodrigues

Bebês nos amam porque dependem de nós para sua sobrevivência primária.
Crianças nos amam porque precisam de nós, uma questão de sobrevivência secundária.

E então o que antes era necessidade, passa a ser uma dúvida, talvez uma escolha.
Adolescentes sentem no corpo e na alma que poderiam sobreviver sem nós, assim, hipoteticamente.
Isso é tão instigante para eles!

E finalmente o amor dos filhos pelos pais chega ao ápice na vida adulta, quando já sem precisar de nossa companhia, eles escolhem apenas amar, incondicionalmente e em doses homeopáticas.

O amor dos bebês e das crianças pequenas é repleto de idolatração.
Normal e esperado que idolatração e simbiose deem lugar a formas mais elaboradas de amor. Uma pena quando os genitores teimam em ficar no altar narcísico do amor por idolatria. Eles deixam de experienciar o amadurecimento do amor dos filhos, tornando-se déspotas, vítimas ou uma combinação dessas características.

O melhor do amor dos filhos por nós é o que eles têm para viver em cada fase. O decréscimo natural da necessidade poderia sempre ser visto e sentido como algo leve. Só porque apenas é.

Óbvio que a fase simbiótico narcisista da paternidade/maternidade de bebês e crianças é uma novidade relevante na vida de quem pega a estrada filogenética. Os bracinhos sempre abertos dos filhotes, a necessidade de contato físico constante, peito, colo, quentinho da cama, histórias para dormir.

Logo depois é a hora dos pequenos grandes feitos que nos fazem sentir heróis: o primeiro mergulho, a bicicleta, o be-a-bá, cavalgar, jogar bola, fazer fogueira e tudo o que nós, soberanos, ensinamos, orientamos, acompanhamos e promovemos. Sim, somos muito importantes, fundamentais.

E é tempo, são anos de dedicação e louros de importância e então vão chegando dias mais calmos, noites inteiras, viagens sem eles, leituras próprias, filmes próprios, a vida nos abre um vácuo de possibilidades e voltamos a um certo eixo que julgávamos perdido. E eles estão ali, por aqui, por aí, fazendo seus próprios eixos, ampliando suas possibilidades. Já não somos seu Sol e tudo está bem, nós somos apenas a Terra, porto seguro em eixo próprio pelo máximo que nos for possível, até o dia em que viraremos Lua, inexoravelmente.






quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Mais velhas, mais livres








Cláudia Rodrigues


Talvez se aplique aos homens, mas como nunca fui homem, falo por nós, mulheres, sobre algumas vantagens de envelhecer, já que somos doutrinadas desde pequenas a entender o processo de envelhecimento somente em suas desvantagens. Para mulheres envelhecer é feio, proibido até. Mal começam a aparecer cabelos brancos, tememos a velhice, mesmo quando eles aparecem na juventude. Horrorizadas pensamos que a velhice está dando sinais, se os fios surgem muito cedo, é preciso esconder, pintar, fazer um look jovial. Nos homens cabelo branco é charme, nas mulheres desleixo, velhice gritante. Depois as rugas, o que fazer, que cremes usar, o short que não fica bem, as varizes, a celulite, a barriga que devemos apertar com estranhas lingeries que parecem espartilhos. Não dá mais para comprar essas obrigações com o simples argumento que nascemos vaidosas.



Passamos a vida a partir dos 40 anos em sofrimento com os primeiros sinais da idade, dos desgastes corporais. Somos ensinadas que cuidar da aparência é cuidar da autoestima, que não cuidar da aparência é não gostar de nós mesmas e assim vamos nos aprisionando bem quando a vida nos oferece maiores possibilidades para experienciar liberdades maiores e mais intensas, que têm sim a ver com um certo despir de vaidades, com outros gozares.

Se existe satisfação no culto à beleza, e eu tenho dúvidas para qualquer idade, embora na juventude o espelho nos encante e nos embale em ilusões narcisistas com muita propriedade, ela certamente é falsa conforme envelhecemos. Espelhos não mentem, mas podem ser libertários. Cultos excessivos à beleza, especialmente os mais drásticos, que envolvem cirurgias para reverter o processo de envelhecimento, escondem um medo humano que foi extremamente reforçado pela sociedade patriarcal.

De repente, talvez não tão de repente, ficamos mais livres do fardo da beleza. O espelho nos permite, ele praticamente implora: saia daqui, vá viver livremente e me deixe em paz, vá se divertir antes que seu tempo acabe nesse mundo.

 

As pessoas em geral, homens e mulheres, podem até se referir a nós como bonitonas, mas nós sabemos que esses comentários não têm exatamente a ver com a aparência, mas com nossos conteúdos, com o que temos a fazer, dizer e dar e como isso fica além do acúmulo de experiências, um processo constante de movimentos, não há necessidade de esforços maiores. Onde estava a mecha do seu cabelo no momento em que você deu aquela bola dentro é o que menos importa. Como você se sai daquela bola fora pública que você deu, é o que mais importa. O resto é cosmético. Esperança é a última que morre para jovens, para nós, mais velhas, experiência é a última que morre.



Quando lemos um livro, estudamos ou fazemos um curso, há muitas coisas que já vimos anteriormente, nada parece tão fantástico, assim absorvemos as novidades sem maiores ansiedades.
A volta para casa não é tomada de adrenalina, mas usada para envolvimento real com nossas vidas pessoais e lidas domésticas, que em vez de se tornarem pesadas ou vividas apressadamente para retorno aos livros, estudos ou cursos, são experienciadas como continuidade do todo lá fora. Literalmente não temos tempo a perder com aquilo que não está na nossa frente, aqui e agora.

Uma roupa é apenas uma roupa. Não há mais necessidade de chocar indo a um casamento com um jeans ou gastar horas cansando as varizes para encontrar o vestido mais lindo da festa. Não é mais necessário fazer força para agradar ou chocar, a vaidade vive, mas em um lugar mais confortável dentro e fora de nós. O salto pode ser mais baixo ou nem existir porque o importante é poder caminhar bem e até dar uma corridinha. Nada deixa uma mulher mais velha feliz de fato do que poder descer e subir uma escada em passinhos rápidos, na ligeireza. Ô benção!

O passado existe, não podemos nos livrar dele, é um senhor conselheiro sobre as piores horas de nossas vidas, tanto quanto as melhores. Prêmios, aplausos, fracassos e desilusões nos fazem lidar melhor com prêmios, aplausos, fracassos e desilusões. Nada assim muito Augusto dos Anjos, mas talvez mais Brecht.



Sabemos o que fazer diante de uma criança com febre, dor, com piriri de criança, sabemos o que dizer para um amigo doente ou para alguém que está triste, podemos consolar e acolher sem medo de contaminação. Já não tememos a morte nem esperamos da vida mais do que ela já pôde nos dar. Chegou a hora do que vier é lucro. Tipo mais um dia bem vivido, o de hoje. O que tiver que vir, virá, já vivemos o bastante para saber que sonhos mudam para planos e planos modificam sonhos, sociedades acabam e talvez por isso mesmo conseguimos cuidar melhor de cada sonho que vira plano e brota, novinho em folha. E eles brotam, vivendo bem e fazendo as coisas com afeto, sonhos viram planos e se realizam em constante movimento de ir e vir.

Não importa quantos foram os cremes que usamos, nossa pele adquire rugas. Ficamos livres dos cremes, já sem culpa de não usá-los. A velhice não se evita mais depois que começa a ocorrer, os cremes limitam-se geograficamente a locais mais secos pela sensação de secura, não como anti-rugas. Os cabelos, que pintávamos para ter uma cor diferente, adquirem a melhor das cores, a prateada. Já vêm assim com luzes, reflexos, naturalmente, sem fazer força alguma. E é um processo ótimo, sempre em movimento, de um ano para outro eles pintam-se naturalmente em mechas divertidas. Sozinhos! E claro, caem menos.



Crianças em birra, que coisa fácil de lidar. Nós compreendemos as crianças, elas nos encantam com suas vozes, choros, falares e pensares. Elas pedem só mais um embalo no balanço, só mais uma brincadinha e nós rimos e fazemos o que elas querem só para vê-las sorrir. E se não dá, se não dá mesmo, nós conseguimos a comunicação exata para convencê-las que acabou por hoje e que sentimos tanto quando elas. E sentimos mesmo, por isso dá certo.

Somos menos fortes fisicamente, por incrível que pareça isso torna tudo mais leve, desistir do esforço é de uma leveza sem tamanho. Enxergamos menos, especialmente de perto, assim, além de não vermos os defeitos alheios, não enxergamos muito bem os nossos próprios. Os pelos já não existem com vigor, logo estamos livres da depilação ou a fazemos só para dar um tapa no visual. Nossa audição diminui, adquirimos o famoso ouvido seletivo. Só entra o que for bom de ouvir, o que faz sentido, o que nos leva a associações.



O sexo perde em performance o que ganha em conteúdo. Nunca a arte de agradar foi tão forte como promoção do próprio prazer. É só sentir, nada a apresentar, nada a representar. E depois dormimos, feito homens, sem carências, sem discutir relação. Ô bênção! Crianças, bichos e plantas nos fazem sentir êxtase. Literalmente perdemos a noção da hora sentindo a vida em nossas mãos. Ela está a escorrer, mas ainda a temos, ainda podemos e sentimos que não devemos desperdiçar essas oportunidades de renovação, de contaminação com as purezas essenciais da vida.

Sim, podemos usar um short no verão e sair pela rua livremente. Os machões não vão nos incomodar com suas piadinhas. Desejamos que o machismo seja exterminado, já fomos jovens, sabemos da força destrutiva da sociedade patriarcal, mas também dela nos sentimos livres. Estamos livres das belas pernas, temos apenas pernas que sentem calor.

É verdade que não temos mais tantas certezas, a vida não cabe numa equação matemática, não se restringe às evidências científicas, as surpresas estiveram sempre presentes, para o bem e para o mal, assim que perdemos a ilusão do controle. Também não sentimos tantas vergonhas, nem tantos medos e receios. Os limites ficam mais claros, o que vem de dentro se sobrepõe ao que está fora, ganhamos novas fronteiras, nosso ser se agranda sobre o nosso parecer, como se finalmente tivéssemos compreendido que não podemos fugir de ser o que somos. Curioso até porque não se busca ser maior, perdemos a ilusão de ser muito mais em substituição a apenas ser o que se pode ser intensamente.

Há muitos sofrimentos no mundo dos bem grandes e muitas pequenas infelicidades desnecessárias. Sabemos que um bom livro ao pé da cama sempre nos trará consolo para que o não podemos mudar e sonhos para melhorar as coisas que até hoje não vingaram.

Não sabemos tudo, não vivemos tudo, mas somos finalmente mais livres para continuar. #avidapassadepressaproveitatua



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Acordando de Madrugada


Cláudia Rodrigues *


Esta noite acordei estranhando o silêncio.Não havia barulho algum e pensei que o mundo havia acabado e você, mamãe, esquecido de mim. Coloquei a boca no trombone e você veio.

Ainda bem! Fiquei tão feliz no calor do seu peito que acabei pegando no sono antes de mamar tudo o que precisava. Quando percebi que você ia colocar-me no berço, chorei de novo, mas não tente negar: você estava com pressa para ir dormir outra vez.
Você deu seu seio para eu mamar novamente, assim meio apressadinha e depois resolveu trocar a minha fralda. Estava tudo tão calmo, um silêncio, nós dois juntinhos, tão legal que eu perdi o sono.

Você até que foi compreensiva, mas começou a bocejar e resolveu fazer eu dormir. Eu não queria dormir. Talvez precisasse de mais dez minutos, meia hora.Mas você estava mesmo decidida a dormir. Foi ficando bem nervosa e até chamou o papai. Eu não queria o papai e todos fomos ficando muito irritados.
No final das contas acordei a casa inteira cinco vezes.De manhã nossa família estava com cara de quem saiu do baile. Acho que estraguei tudo.
Imagina, você chegou a dizer para o papai que eu estou com problema de sono. Eu não! Você é que vem me dar de mamar com pressa e daí eu sinto que você não quer mais ficar comigo.
Os adultos têm hora certa para tudo, mas eu ainda não entendi essas de relógio e tarefas estafantes que as pessoas grandes precisam fazer. Quando meu corpo está com o seu, quero ficar do seu lado sem me separar nunquinha. Do alto dos meus três meses ainda não descobri direito que você é uma pessoa e eu sou outra, vivo uma tal de simbiose.
Um dia, eu vou sair por aí, vou saber telefonar e posso deixar você doida para saber o que ando fazendo; então você vai entender como me sinto agora. Mas não precisamos dessa guerra, mamãe.

Até lá já poderemos nos entender inclusive através das palavras. Sinto a angústia da separação pois terminei de viver uma das grandes. Você também, mas vive tudo isso como adulta consciente. Eu ainda vivo no inconsciente.
Por enquanto nossa comunicação direta fica restrita aos nossos sentimentos inconscientes. Eu não sei nada, tudo é novo para mim.

Você pode até achar que não sabe nada e que tudo é novo para você, mas eu vou aprender o que você me ensinar através da sua sensibilidade, dos seus sentimentos em relação a mim.
Sabe, mamãe, se você quer um conselho, vou dar: quando eu chorar à noite, não salta logo para meu berço desesperada, como se o mundo fosse acabar. Espere um pouquinho, respire profundamente, ouça o meu choro até que ele atinja o seu coração.

Sinta seu tempo, realmente acorde e venha me pegar. Me abrace devagar, não acenda a luz, fale bem baixinho e me dê o seu peito para eu mamar. Depois que eu arrotar, mais um pouco só de paciência, pois nós, bebês, somos muito sensíveis aos sentimentos dos adultos, especialmente os da mamãe.

Se eu sentir que você está com pressa, sou capaz de armar o maior barraco, mas se você esperar até o meu segundo suspiro, quando meus olhos ficarem bem fechados, minhas mãos e pernas bem molenguinhas, aí sim pode colocar-me de volta no berço que eu não acordo antes de sentir fome outra vez.
Conforme você for desenvolvendo sua paciência, mamãe, eu estarei desenvolvendo minha tranqüilidade e nós não teremos mais noites infernais; apenas noites de mamãe/bebê, que um dia passam, como tudo na vida
.

pag 59 de "Bebês de mamães mais que perfeitas"
http://www.centauroeditora.com.br/lancamentovoz.htm

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Manchas senis sem base em evidências

Cláudia Rodrigues  

Um dia elas aparecem
Dizem os estudiosos de pele e seus seguidores que podem ser adiadas por muitos anos ou até mesmo prevenidas com protetor solar, desde que se evite sair ao sol entre 10h e 15h e se faça uso de chapéus, óculos, lenços, luvas para dirigir. Pela vida inteira.
No alto da testa, ao lado esquerdo, cultivo uma. Não fui capaz de evitá-la.
Quando será que ela se sentiu a vontade para começar a brotar, quando teve sua primeira esperança de viver em mim?
Nos banhos de mar, rio e piscina da minha infância, quando sequer existia protetor solar e a graça era contar quantas vezes descascávamos para ganhar nova pele a cada verão? Quem contava com a pele mais forte, a que ficava morena mais rapidamente, na fantasia da época, era pessoa mais forte, mais resistente ao sol. Produção menor ou maior de melanina era papo para os fracos.
Ou terá sido nas caminhadas diárias até o alto da pedra Buda na ilha de Ko Thao, quando eu passava as manhãs escolhendo o peixe menos colorido para fisgar?
Teria essa mancha e outras que começam a surgir, um momento ímpar lá atrás em que se aproveitaram do meu prazer para resolverem viver em mim?
O sol quente e seco naquela cavalgada para conhecer as pirâmides menos famosas do  Egito?
Aqueles 40 quilômetros a pé, sol a pino, entre o Norte e o Sul de Israel?
As infinitas vezes em que apenas deitei na proa de um barco, na areia quente de uma praia qualquer e senti o sol nu e cru na pele?
As muitas horas em que perdi a noção do tempo nas várias hortas das muitas casas em que vivi?
As vezes em que cavalguei horas e horas por dias a fio?
As subidas ao Morro do Lampião?
Nada me convence que essas manchas sejam malvadas ou se revoltarão contra mim. Dei vida a elas, deverão ser gratas, essas bobinhas.

Mas agora, outra fase, cada vez a coisa que vem de fora fica pior.
Aos 51 anos estou mais vulnerável aos argumentos sob os efeitos nocivos do sol. Procuro não ler sobre as maravilhas do protetor solar, a pessoa tem direito a praticar ignorância em causa própria e particular se isso traz um inefável prazer.
No momento não vejo a hora da chuva de mais de uma semana parar, não por um único dia, mas por vários, para que eu possa fazer muitas coisas ao sol.
O raciocínio é bem simplório, sem base em evidências: já cheguei até aqui me divertindo tanto com o sol, já tem os dias de chuva, os dias nublados, os infindáveis dias de inverno com sol morno. Que venha o sol, vou continuar na paixão com ele.

E nem é verdade que na década de 1980 já não se sabia dos efeitos nocivos do excesso de sol. Eu mesma já falava sobre isso. Lembro bem de um diálogo com minha querida tia Blanca Fígoli.
Eu ia, ela voltava da praia, bem bronzeada, no alto dos seus sessenta e muitos anos, vinha trazendo uns peixes que havia pescado. Paramos no caminho para trocar umas palavras.
Mijita, que linda estás!
Ola tia, que bronzeada, mas olha toma cuidado porque sol demais faz mal para a pele! (sim, eu mesma disse isso)
Ela ficou triste, espantada!
Si, verdad? No me digas eso, pensé que me dejava la piel mas lisa, asi lo siento, que lastima, mijita.
Pena que ela já não esteja viva, me arrependi tanto de ter dado esse terrível aviso, me gusta el sol, asi lo siento.
Que lastima os avisos que o sol faz mal. Não quero saber, fico sem ele por esses dias de chuva, não mais do que nos dias de chuva e nos dias que não posso estar lá fora por outras forças.
Tia Blanca morreu aos 92 anos de idade, sempre com o sol na cabeça. Sempre lendo, escrevendo, recitando poemas. Talvez ela tivesse muitas manchas na pele, certamente estava bem enrugada, não lembro bem, só me vem sua voz, seu riso, suas teimosias engraçadas, seus olhinhos pequenos, redondos e ligeiros, suas pernas cambotas e fortes, mas é deve ter morrido com muitas manchas na pele. Nem quero chegar a tanto, mas será com o sol na cabeça e as manchas na pele, por supuesto.




sábado, 27 de junho de 2015

Festa Junina é contra a homofobia





Cláudia Rodrigues


Pessoas não homofóbicas, mulheres e homens de idades variadas, Brasil adentro, Brasil afora, se unem contra a homofobia. Muita gente da dita esquerda ou de outras bandas declaram-se não-homofóbicas.
É importante, está na hora. A homofobia produz e reproduz ódios, violência, machismos, assassinatos. A homofobia propõe salvar a sociedade brasileira dos "maus costumes e da imoralidade" mas não explica que isso pode maltratar nossos parentes, amigos, pessoas comuns e de todo tipo, qualquer cidadão ou cidadã com muitas características, capacidades,conteúdos,  gente que precisa ser banida em nome da moral e dos bons costumes.

Natural que a sociedade maior não aceite a solução proposta pelos homofóbicos: deixar tudo como está, aceitação simplória, no discurso, mas a continuidade de crimes, violência, corrupção, discriminação velada e explícita.

A homofobia incita ódios, invejas, difamações. Na escola surgem perseguições, provocações, suicídios de adolescentes e jovens que não se sentem aceitos por sentirem o que sentem. Não agrega nada de bom e humano, não tem sentido algum, não defende o direito à heterossexualidade, totalmente assegurado, mas o ódio à homossexualidade, à bissexualidade, à multiplicidade de afetos e preferências afetivas particulares.

Não precisamos nada disso, é possível viver em paz com todas as pessoas, independe de credos, partidos, manobras jurídicas e midiáticas.



A homofobia não representa a realidade dos brasileiros.

A homofobia deve ser criminalizada, não é questão de opinião, é questão de Justiça e Direitos Humanos.

A união civil entre pares do mesmo sexo precisa estar prevista na Constituição, precisa virar lei. As escolas necessitam mais abertura para abordar o direito à diversidade sexual, que inclui, obviamente, a heterossexualidade.

É preciso que pais, mães e professores livrem-se dos seus medos de ter filhos e alunos livres para serem o seu melhor.

Na luta contra a homofobia a militância dos que se sentem heterossexuais é de suma importância e foi isso que explodiu ontem nas redes sociais.





sexta-feira, 12 de junho de 2015

Dia dos namorados, um não-presente de valor para a vida toda

Cláudia Rodrigues




A moça estava triste, não porque se aproximava o dia 12 de junho, mas porque o namoro de 3 anos havia terminado fazia pouco mais de um mês e faltando três dias para o Dia dos Namorados, ela era remetida a cada esquina, a cada comercial de TV, a cada outdoor, às cenas que ela havia vivido ou que não havia vivido e gostaria de viver com seu ex.
Na tarde do dia 10 de junho, recebe o telefonema do moço convidando-a para jantar. Ela sai para a rua, nem pensa em enfeites para ela, compra para ele o sonho de consumo do moço, um relógio de bolso à moda antiga. Saem, conversam, ficam, mas ao final da noite o sujeito se despede e diz que ainda não estava certo de que o ideal seria voltar, que precisava de mais um tempo.
E voltam, em 15 de junho. Algum tempo depois ela fica sabendo que o sujeito juntou-se aos amigos no dia 12 para rir, dizendo que havia garantido a namorada, mas se livrado do presente. Ele riu, confirmou a atitude e abraçando-a pela cintura exclamou alcoolicamente que o importante não era o presente, mas o amor.
Friamente, na manhã seguinte, ela retira do armário o presente que havia comprado para ele na tarde do dia 10 de junho...No meio da confusão esquecera entre suas roupas, afinal nunca esteve ligada ao presente em si, nem o que não ganhara, nem no que havia comprado.

Com o embrulho ainda perfeito bem apertado em suas mãos, ela tem a sorte de pegar um táxi rapidamente, fala o endereço para o motorista, nem consegue se recostar no banco do carro. Paga o trajeto na esquina da Borges de Medeiros com a Riachuelo, sobe a ladeira em passos rápidos, entra no prédio controlando todos os seus músculos para não desistir do amor que basta-se a si próprio. Cumprimenta o porteiro, seu velho conhecido, vai até a porta do apartamento do rapaz e deposita o presente com um bilhete.
"Esse é o teu presente do Dia dos Namorados, o presente mais caro, mais bonito e mais significativo para ti, pelo valor da tua vaidade e do teu egoísmo. Para mim é também o mais caro, mais bonito e mais significativo pelo valor dos meus sentimentos. Cada miligrama de ouro desse relógio representa todos os presentes que vou ganhar de todos os amores que terei na minha vida. Nunca mais me dirija a palavra."

terça-feira, 9 de junho de 2015

Mulheres, partos e luas

Cláudia Rodrigues


Quem nunca ouviu falar que lua cheia é lua de partos, com maternidades lotadas, parteiras e doulas correndo de um parto para outro?
É verdade, acontece essa "coincidência", que não é tanta coincidência assim.

As luas, todas elas, têm efeito sobre o ser humano em geral e costumam ser bem especiais para mulheres com fetos maduros. Feto maduro também passa pela lua cheia e a criança nasce logo depois. Feto maduro espera a lua certa para ele, a lua que o sintoniza melhor com a mãe.

Efeitos da lua cheia ainda, lua cheia no atraso?
Não, nada disso, as mulheres têm lá em seus comportamentos fases mais intensas e ligações mais harmônicas com outras luas que não a cheia.

Em qualquer fase da lua, qualquer mulher pode parir, a natureza é sempre surpreendente, mas podemos falar de tendências, refletir, pensar sobre elas sem julgar, procurando não julgar, sem interpretar, mas também não vale fingir que a lua não existe e não mexe com nossos corpos para lá de enluarados na gestação. Luas mexem com líquidos na Terra, com gravidade, luas se relacionam com plantas, luas iluminam e desiluminam e gestantes são mais sensíveis porque levam mais água em seus corpos.

Mulheres muito organizadas, que gostam de tudo certinho, por exemplo, acabarão parindo na lua nova, lua que sintoniza mais com renovações e reorganizações, com ideias mais claras, é a lua das pessoas que gostam de segurança, não muito chegadas a mudanças de planos na última hora.

Mulheres mais melancólicas, as que guardam um quê de mistério no olhar, podem sintonizar melhor com a lua negra, o período que antecede à nova. Essa pode ser a lua delas, a divisão entre o bem e o mal, a escuridão e a luz, o fio da navalha, é a lua das desafiadoras que correm perigo no escuridão da noite. A lua que não existe, a única transição de lua que tem nome: lua negra.

Há mulheres que conseguem parir todos os filhos na lua minguante. A cheia não as representa, a pressão não faz sentido para eles. É a lua das desapegadas, das que precisam se livrar de peso para poder deixar acontecer o momento perfeito, que é o momento do parto.



A lua crescente é a lua daquelas que preferem angariar forças, a lua das que planejam, esperam, aguardam, aquele tipo de pessoa que não faz questão de fazer a primeira pergunta, espera primeiro ouvir o que todos têm a dizer antes de qualquer colocação.

E a maioria das mulheres eclode ou explode, literalmente, na lua cheia, diante da pressão das águas. É a lua das que deixam encher o pote e permitem que se esvazie na pressão, com um empurraozinho que vem de fora.

Assim, não há lua certa para parir, nem mulher certa ou errada. Podemos parir em diferentes luas de acordo com o que estamos vivendo naquela gestação, naquele momento de nossas vidas.

Uma mulher pode ter sido a vida inteira mais sintonizada, período em que se sente melhor e mais plena, na lua nova, mas justamente na gestação passa a sentir a presença da lua cheia ou da minguante.



Da mesma forma, uma mulher tipicamente de lua cheia, extrovertida, para fora, explosiva, pode na gestação viver contenções, necessidade interna de contenção e virar uma mulher de lua nova. Também pode uma mulher de lua nova se sentir mais perdida e dividida, entrar em pensamentos sombrios e desse mergulho interno nas incertezas e mistérios, parir em lua negra.

Os efeitos da lua sobre nós podem não fazer o menor sentido para quem não vincula sentidos na lua, para quem não passa um mês da vida sequer observando o que se repete e o que muda no corpo e nas sensações durante as passagens da lua. Está ok, isso pode ser esoterismo puro, projeção, pode virar um grande Carnaval daquilo que queremos que seja, mas convido-as a prestarem atenção, pelo menos por uns três meses, da maneira mais honesta possível, em como seus corpos agem nessa e naquela lua.

Sinta, observe, guarde e aguarde a sua lua ou a transição entre uma lua e outra e não as suas semanas de gestação. Tente entender e pesquisar dentro de si mesma a lua da sua fecundação, ela também tem muito a dizer e essa é uma conversa quem nem deveria ser escrita, de tão pessoal e intransferível que é.



quinta-feira, 21 de maio de 2015

Dicas de educação para classe média que não sabe ensinar a lutar

Cláudia Rodrigues





Ensinem suas filhas e filhos a pegar ônibus logo cedo, primeiro com vocês, depois solitos. Eles vão precisar disso um dia na adolescência ou na vida adulta e mesmo que você seja muito rico e pense que não precisarão, não há como ter certeza. Se nunca andaram, terão tendência a ficarem abobalhados, pouco espertos e mais propensos a sofrerem assaltos ou atropelamentos.
Ensinem seus filhos e filhas a andar a pé, porque só se aprende a atravessar ruas andando a pé. Bicicleta só para recreação, com você carregando o malinha e sua mala rampa acima, não vai dar boa coisa. Molequinhos e molequinhas precisam saber ir e voltar. Carregarem seus casaquinhos, bonequinhas e carrinhos faz parte da missão: mãe e pai não são cabides.
Ensinem suas filhas e filhos desde bebês a descascar bananas, maiorezinhos devem saber comer maçã sem ser picada, devem aprender a espremer um suco no muque, usar garfo e faca, colocar a roupa suja no cesto, lavar, secar e guardar louça. Assim não serão os malas na casa da tia no dia do pijama. No mínimo.
Ensinem seus filhos e filhas adolescentes a lavar o próprio par de tênis, lavar, pendurar, recolher e dobrar roupas, cozinhar algo básico, trocar lâmpadas e resistência do chuveiro. Ensine que isso pode não ser prazeroso como tomar um sorvete ou jogar no celular, mas é importante e necessário.
Ensinem suas filhas e filhos a plantar, colher e entenderem a diferença entre um pé de alface e um pé de couve. Você pode não acreditar, mas por falta de ensinamentos básicos muita criança se cria achando que leite é um produto que nasce em caixas. Isso não é engraçado, é um efeito colateral involutivo do nosso tempo.
Não tema o fogo, o fogão, a chaleira nas mãos dos coitadinhos. Se você não ensinar, eles vão fazer muita bobagem e vão se queimar. Educar é confiar nas capacidades e na inteligência deles. É mostrar perigos e ensinar a lidar com perigos.
Eduquem seus filhos para a vida, para capacidades. Prazer não precisa ser ensinado, é um benefício, um privilégio. Ter empregada doméstica em casa não deve ser visto e sentido como alguém que vem acoplado ao lar, quase uma "coisa" um "objeto humano" de limpar e organizar sem parar.
Essas não são dicas moralistas. Educar para a solidariedade é um ato até egoísta e nada poético. Ao ensinar coisas básicas de sobrevivência aos filhos, estamos promovendo confiança e capacidade, auto-estima, senso de dever e responsabilidade.
Evite produzir e multiplicar pessoas que um dia serão adultos entediados, mimados que acharão eternamente que vieram ao mundo a passeio, sem a menor noção do que é resiliência, inaptos para cuidar de si mesmos e de outros, caso se multipliquem preguiçosamente.
A vida pode ser bela, a vida pode não ser dura para herdeiros, mas ela cobrará sempre, de qualquer um de nós, firmeza e força de vontade. Isso não é nato, depende de adversidades e luta pela sobrevivência e nada tem a ver com capacidade de apertar um botão ou deslizar os dedões no Iphone.

sábado, 9 de maio de 2015

O Dia da Encrenca




Cláudia Rodrigues


Assim bem pequena eu olhava a encrenca de longe, ali pelos nove anos decidi: não quero essa encrenca para mim.
Por volta dos 16 sofria de um verdadeiro pavor da encrenca tomar conta de mim, queria estudar, trabalhar, viver sozinha, viajar pelo mundo.
Aos 22 anos, estudos concluídos, caí no mundo, segura de saber administrar a não encrencação enquanto observava e via os mais variados tipo de donas de encrencas pelos cinco continentes. Achava tudo interessante, mas não, não era para mim.



Multiplicar para depois dividir tudo? O meu tempo todo? Como trabalhar, fazer todas as coisas, todas as viagens tendo que carregar apêndices? Que coisa irracional! As outras eram as outras, eu era um ser racional e naquilo não haveria o menor sentido a não ser por apelos sociais e culturais. Eu era livre, solta no mundo, poderia ir a qualquer lugar na hora que bem entendesse, batia a porta e sobrava um eco seco, jamais seria domínio de alguém.


Aos 25 comecei a desconfiar que as encrencas poderiam não ser tão encrencas assim, sentia-me presa à liberdade que eu mesma criara. O eco seco da porta começava a me incomodar.
Foi bem nessa época que visitei, atrasada, a encrenquinha de uma colega de trabalho e fui surpreendida pelo pedido dela para que eu ficasse tomando conta por algumas horas da sua pequena encrenca de 8 meses.
Amassei um abacate, sem açúcar, conforme recomendação da dona e adorei fazer aquilo, cada colherada, as caretas, aquela coisinha me entendia e ria do nada me fazendo rir de volta.
Passeei pelo quintal e como a encrenquinha começou a sentir saudade da sua dona, tive dó, resolvi cantar e embalar. A encrenquinha dormiu e eu senti um imenso e jamais experimentado sentimento de paz.
Olhei ao redor: a casa, as plantas...A porta que fechou atrás de mim deixou um eco molhado, eu queria voltar. Voltar para onde?


Na real queria mesmo uma encrenca para mim, só uma. Eu saberia cuidar e experimentaria a sensação de ter a barriga virando uma melancia, depois colocaria para fora, assim bem forçuda e pôxa, eu iria alimentá-la com um estranho suco próprio, fabricado dentro de mim. Não, eu não poderia passar pela vida sem essa experiência, essa viagem para dentro do meu corpo também precisaria ser feita.
Para completar estava tão apaixonada, que só uma encrenca bem boa poderia fazer meu sonho do amor para sempre perdurar.

Quando dei por mim estava encrencada e tudo o que eu queria era saber mais sobre as encrencações.
Quanto mais eu lia, mais queria ler e saber sobre aquilo na parte de dentro e na parte de fora de mim.
Era mesmo uma encrenca maior do que eu podia imaginar porque fugia totalmente do racional. Eu sentia, pelas barbas de Netuno, eu sentia e sentir não era racional. Hipoteticamente até sabia, mas na prática não era mesmo como amar minha gata, muito menos a encrenca da amiga.



Gostei tanto que dois anos depois já havia encomendado a encrenca 2.
Pronto, agora era tocar a vida com duas encrencas, pararia de ler e tentar saber mais sobre o mundo das encrencas, voltaria a trabalhar na minha área de formação.
Foi quase assim, voltei mesmo a trabalhar na minha área, mas não consegui parar de estudar sobre as encrencas e acabei fazendo outra formação mais a ver com o universo das encrenquinhas e seu desenvolvimento. Dez anos assim, encrencas desmamadas suavemente, já com opinião, vida leve e solta outra vez, indo e vindo sem o eco seco da porta.

Estava tudo bem, as encrequinhas estavam crescidas, eu já trabalhava com as duas áreas, havia dado um jeito de casar as duas áreas dentro e fora de mim. Racional perfeito, acomodado de novo.
Até que perto dos 40 começou de novo um desejo profundo de encrencação. O racional gritava não! Como assim depois de ter uma encrenca de cada gênero, já crescidas, arrumar outra? Barriga, amamentação, simbiose, suave desmame em longas prestações, tudo de novo? E a explosão demográfica? A fome no mundo. Se fosse para ser, que fosse adoção então! Isso seria mais racional.
O eco da porta continuava batendo molhado e além de poder voltar, eu era livre para ir mais longe!



Não havia absolutamente razão alguma, aliás não parecia haver sentido em ter outra encrenca.
Aí a coisa endoidou de vez. Além de desenvolver uma inexplicável alergia ao preservativo, só sentia desejo no período fértil. Tipo muito, apagando a seguir qualquer fagulha de fogo. Marido trocando orelhas para entender aquilo tudo.
Como se não bastasse, produzi miomas e sonhos com um bebê que chorava na minha porta, colocado numa caixa de sapatos.
E assim bem doida, disfarçando a psicose, todas as manhãs eu fingia que ia regar o jardim, pagando de neurótica, só para ver se não havia mesmo ali no canto, debaixo do pé de hibiscus, um caixa de sapatos com um bebê dentro.
Adotei uma gatinha. Não resolveu.

Foi assim que sem querer racionalmente, arrumei a terceira encrenca. E foi tão minha que nascemos uma da outra sozinhas, sem assistência nem nada. Já havíamos esperado tanto por esse encontro irracional, que nada do mundo racional poderia intervir ou atrapalhar.
Tudo foi apenas sentido e o sentido disso, oras, que não faça sentido nem caiba em qualquer manual.