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sábado, 30 de novembro de 2013

Querida filha



Cláudia Rodrigues *
Um dia tu vais crescer, sair da meninice para te sentires mulher. Acredita, não faz muitos anos e durante grande parte da história da vida das mulheres, nos deixamos tratar como propriedade dos nossos pais, maridos e numa última onda; do mercado. Como todos os processos históricos são lentos, ainda hoje, muitas mulheres em todos os lugares do planeta são tratadas como propriedade dos pais e dos maridos.
Desde o início dos tempos os nossos corpos foram coisificados. Já valemos mais ou menos até em quilos, largura da pelve, formato dos seios, cor dos cabelos, comprimento de pernas. Nossos pais traficavam nossas vidas aos maridos para fazer negócios e assim íamos da propriedade paterna à propriedade do novo dono, que podia fazer o que quisesse conosco, de exigências a castigos e todo o azar de abusos.
Conheces aqueles filmes de escravidão e todos os reflexos que até hoje se vêem na sociedade? Assim foi com as mulheres, é sempre assim quando há luta pelo poder e desejo ignorante de submeter; ódio, competição e rancor. Devagar, crescendo no processo histórico, algumas pessoas começaram a desenvolver os primeiros sintomas de uma sociedade mais inteligentemente sensível, corajosa e amorosa.
Tudo começou com uma primeira menina que ainda bebê olhou nos olhos do pai com firmeza e ele desde sempre soube que não a submeteria, que a força vinda dela era maior do que os padrões históricos perversos de repetição. Pelo amor dos dois, pelo respeito à individualidade daquele ser, ele preferiu abrir mão dos bons negócios para dar à filha a honra de casar-se por amor quando quisesse e com quem quisesse. Essa menina em questão nem mesmo casou, ela preferiu sair “Procurando Firme” bem dona do seu corpo.
Muitas meninas e muitos pais desde então começaram a fazer diferente, a desobedecer as normas vigentes. Perderam terras, viram ruir palácios e impérios, os padrões de comportamento nunca mais pararam de quebrar. Mas, como alertei antes, filha, os processos históricos são lentos e muitos pais, ainda hoje, vêem e tratam as filhas como propriedade. Não é o teu caso, nem das tuas irmãs, que têm um pai que sequer entra no quarto de vocês sem bater desde tenra infância, que além de respeitar, passou lições de coragem, dignidade e especialmente igualdade e solidariedade. Infelizmente é o caso de muitas meninas, que já se formam em casa sentindo-se menores desde esse primeiro e tão importante olhar masculino. Essas meninas, muitas delas, passaram a infância vendo a mãe sofrer maus tratos sem qualquer reação, sofrendo sozinhas pela dor da mãe, quietas no canto. Algumas delas desde sempre vêm reagindo, apesar das imensas e dolorosas barreiras.
O segredo para a reação dessas bravas meninas-mulheres que fazem a diferença com atitudes que fogem aos padrões culturais mais rígidos, sempre foi uma força interna de integridade entre o corpo, a alma e a mente.
Tu vens de um lar sem sombra de machismo e vives em um país ocidental liberal, isso poderia ser considerado uma sorte, mas não é bem assim, não é tão assim como parece. Aqui temos já muitos avanços em relação os direitos de igualdade entre cidadãos e cidadãs e até uma Lei, a Maria da Penha, que nos protege dos abusos machistas típicos.
Acontece que toda a peste social esperneia para morrer e a violência contra a mulher continua a nos espreitar, como uma bactéria que se tornou mais poderosa. Hoje, bem requintada, disfarçada, quase invisível, não faz distinção cultural, está em todos os continentes, entra em toda e qualquer tribo social e econômica. Sempre focada no nosso corpo, ela agora desafia um grande calcanhar de Aquiles que temos: a vaidade.
Minha pequena, não te assustes, não tem nada a ver com tuas pulseiras e enfeites, teus vestidinhos com estampas miúdas de flores do campo. A coisa é mais complexa e de novo tem a ver com poder, submissão e ódio aos que não se deixam pautar pelo lugar-comum e altamente lucrativo da linha de montagem.
Tu vais ouvir em algum momento da tua vida, que não precisas menstruar, que isso é coisa de antigamente, que hoje já temos hormônios artificiais para impedir o funcionamento biológico de nossos corpos. Tu vais ouvir que esses hormônios, fortes o bastante para impedirem a ovulação, são inócuos para tua saúde e seguros para que possas evitar uma gravidez indesejada.
Tu vais ouvir que podes crer plenamente nessas drogas criadas para controlar o corpo feminino e, se confiares, acabarás não sabendo mais nada sobre teu ciclo, serás uma mulher incapaz de sentir se está ovulando ou prestes a menstruar, enquanto teu corpo e teu cérebro travarão uma luta confusa entre desejo, vontade e o sentido real do livre arbítrio. Duvida, questiona e acima de tudo pensa, pensa muito, pensa por ti mesma.
Agora, o que não te dirão é que tomando esses hormônios estarás mais frágil para exigir o uso do preservativo masculino e assim mais propensa a contrair uma doença sexualmente transmissível. Estarás mais propensa a agradar do que sentir prazer e perdida na verdadeira arte de agradar: sentir prazer e alegria na inteireza. Dona real do teu corpo, não cederás aos apelos de penetração a menos que essa seja uma decisão tua, embasada nas umidades do teu corpo e na consciência sobre ele. Mesmo muito jovem, em teus primeiros ensaios, não depositarás no parceiro e muito menos no mercado, o mais vil dos machões, a responsabilidade pelo teu gozo sexual, pessoal e profissional. A capacidade é tua, é nata, vem da coragem da tua alma e de toda a deferência que conseguires fazer para a delicadeza em ti. Nas pessoas todas e não apenas nas mulheres, as delicadezas embasam as maiores coragens e não o contrário, como nos dita o mercado.
Querida, precisarás ser forte, tão forte como a moça do filme “A Flor do Deserto”, porque a caminhada é longa e no percurso rirão de ti, te chamarão de antiquada, retrógrada, tudo porque não é permitido aceitar que sejas dona absoluta do teu corpo, a mais valiosa mercadoria a ser explorada, trancafiada e padronizada, exatamente como sempre foi. Te acusarão de bruxa se afirmares ser capaz de saber o dia exato em que ovulas, te acusarão de louca se resolveres aparar teus filhos em tuas mãos no teu próprio parto. Dirão que teu corpo é repleto de defeitos e necessita infinitos reparos e remédios ainda quando estiveres na flor da idade, no esplendor da vida. Resiste, resiste bravamente, sempre unindo sentimentos, corpo e mente antes de aceitar qualquer intervenção.
Mais tarde eles tentarão te convencer a retardar aparentemente a tua idade, afirmando que a velhice é um lugar feio do qual deves te envergonhar. Para retirar de ti o tempo da reflexão e a melhor exploração de tua memória associativa, usarão de subterfúgios baratos, prometerão devolução de ilusões e velocidades de memória, inexoravelmente perdida, bem perdida, por necessidade, por processo da nova fase.
Sente a cada minuto o teu corpo, ouve-o, atende-o e especialmente na maturidade não te deixes escravizar por um espelho. Os espelhos, filha, só refletem tua imagem, nada sabem sobre teus desejos reais e os abundantes sentimentos de libertação das coisas mundanas que a regulação hormonal natural traz.
Caminha firme, caminha sempre em direção a uma liberdade cada vez maior. Quanto mais velha, mais livre; tão livre que esses discursos de separação entre homens e mulheres, homossexuais e trans deixem de fazer qualquer sentido porque só verás pessoas de qualquer forma, de toda forma. Eles te chamarão de caduca quando estiveres a falar com animais e plantas, com o céu e o mar porque eles não sabem digerir o sentido da diversidade; temem o caos da liberdade e são capazes de exigir até dos anciões que se comportem em pré-pessoalidade.
E bem velha, enfim, sejas.

Artigo originalmente publicado em http://www.sul21.com.br/jornal/colunas/querida-filha/

sábado, 9 de abril de 2011

Sociedade de analfabetos emocionais



Cláudia Rodrigues


Nesse momento histórico mundial vencemos muitos desafios deixados por nossos antepassados, mas fomos com muita sede ao pote do tecnicismo, sem intensidade humanista equiparável e sem a reflexão necessária em áreas importantes das ciências humanas. Chegamos ao sec. XXI despreparados para lidar com os buracos existenciais que criamos. Fazendo uma analogia com a matemática estamos ainda na primeira operação. Só sabemos somar.
Nesta semana, apenas no Brasil, tivemos dois exemplos do caos social que vivemos nesse período da história. Um casal que fez inseminação artificial, ao saber que três embriões estavam se desenvolvendo, liberou para adoção um deles, ainda na barriga da mãe. Eles queriam muito um filho, aceitavam dois, mas não desejavam o terceiro, não era uma questão de renda, mas de planejamento familiar. Poder técnico sobre a vida. O outro caso, uma tragédia ocorrida numa escola municipal do bairro do Realengo, no Rio de Janeiro; um rapaz de 23 anos matou impiedosamente mais de uma dezena de crianças, ferindo outras tantas e depois se matou. Poder técnico sobre a morte. Tudo o que temos é o levante de vozes de ódio e desprezo pelos párias sociais e piedade das vítimas. Como se não matarmos e não sermos capazes de abandonar um bebê na barriga, nos livrasse de qualquer responsabilidade pela “peste emocional” que nos circunda. O casal, pária social do excesso de tecnicismo e sobra de dinheiro, sem o amadurecimento ético e emocional. O cidadão, assassino de última hora, sem ficha na polícia, até então um trabalhador desempregado desde agosto por não atender aos anseios de produtividade da empresa em que trabalhava, pária em soma no Brasil, raro apenas pelo tipo de crime cometido.
Em comum entre os crimes, além do poder técnico sobre a vida e a morte, a má cobertura da mídia, também por excesso de tecnicismo. Sobre o casal, nenhuma linha sobre os mais de cinco mil embriões congelados que o Brasil mantém a espera da legislação, nenhum debate sobre o caso inserido no contexto caótico de um país que tem sobra de crianças vivas e abandonadas pelas ruas e orfanatos, para além da excentricidade dos que produzem bebês ardentemente desejados, desde que sejam em número e no sexo escolhido e desde que muita gente das ciências médicas e biológicas fature com isso.
A mídia cobre mal esses casos de polícia, esses casos de humanidade mal-resolvida. Os maiores jornais de São Paulo e do Rio Grande do Sul conseguem entrevistar psiquiatras que confundem os termos básicos, atribuindo a nomenclatura psicose, que é vasta e não tão incomum como patologia, em vez de usarem o termo correto para assassinos em série: sociopatas. Não seria um preciosismo, mas uma consideração aos 30% da humanidade que não são neuróticos, mas psicóticos e que nascem, vivem e morrem sem jamais atacar alguém. Sociopatas não somam 1%. Isso é apenas um problema na cobertura, nem de longe é o mais grave.
O maior buraco da cobertura da mídia é apelar para o sadismo, com detalhes sórdidos sobre os fatos. Voilá precisa a mídia apelar para vender mais, ossos do ofício, mas daí a congelar apenas nisso e no pretensioso estudo do caráter do criminoso é muito primário. Muito antiético os psiquiatras e outros psis convidados, aceitarem dar diagnóstico baseados em fofocas de jornalistas, pedaços de cartas escritas sem datação, relatos da polícia e histórico apresentado pela família do infeliz.
O pior mesmo dessa banalização via apelo ao sadismo é que rapidamente os crimes são esquecidos, ficamos com as velhas máximas judaico-cristãs de que foi coisa de Deus, fatalidade, hora certa de cada um. No máximo culpa-se o governo, nunca, nunca mesmo a sociedade é levada a tratar seus problemas sociais, debater eticamente, buscar soluções. Nas escolas, nos clubes, nas ruas, a notícia acaba girando em torno da novelinha apresentada pelos jornais, telejornais, fotos nos sites; dramas particulares, uma espécie de big brother tristeza e só. Fica a mídia a esperar mais uma grande sensação com a desgraça alheia para alimentar-se da operação em voga no mundo: a soma. Deter a informação, jogar com ela, saber jogar a fim de atingir o sentimentalismo, exatamente como faz um noveleiro, é arte no jornalismo marqueteiro de hoje, focado na soma monetária. Com uma mídia mais comprometida com o conhecimento, com a informação e seus contextos sociais, muitas coisas poderiam, lentamente, mudar. Do jeito que vai, só ajuda a produzir mais poder. Fazer morrer e fazer viver, dois exemplos de poder máximo são o microretrato antagônico de uma sociedade emocionalmente analfabeta.




domingo, 29 de novembro de 2009

domingo, 9 de agosto de 2009

Moderno no úrtimo

SÓ PARA LEITORES Bastidores de uma imprensa medonha

Cláudia Rodrigues (*) 1998. Quando a bolha da internet crescia e o bug do milênio era um mau presságio, o maior jornal de uma capital recebia, como tantos outros na época, uma reforma como forma para lucrar mais ou deixar de não lucrar tanto. Havia crise? Sim, uma crise anunciada. A empresa familiar, pelo menos no âmbito familiar, de amigos e políticos próximos, andava muito bem. Mas tinha a bolha, o bug, o novo tempo globalizado e algo precisava ser feito. Uma máquina gigantesca, de preço astronômico, foi comprada. Agora a impressão do jornal era melhor, as cores mais nítidas, sem falar na otimização de todo o processo. Mas a compra da máquina vinha acoplada a uma idéia: a reforma gráfica. Bem, não é qualquer dupla de jornalista e diagramador que dá conta de uma boa reforma gráfica, mas também não é um bicho-de-sete-cabeças fazer uma reforma gráfica em um jornal. Mas de repente, em 1998, era. Então foi contratado um senhor espanhol para fazer a reforma. Pagou-se fortuna ao cidadão e sua equipe. Coincidentemente, na cidade, acampava-se a Telefònica. O dono do jornal chamou de São Paulo dois nomes do meio jornalístico. Do meio mesmo, nem grande coisa nem coisa tão pequena. Um mais político, digamos assim, e outro mais da prática propriamente dita: dois jornalistas que dariam ao jornal a cara de um grande jornal, algo como o rosto rarefeito dos quatro maiores e mais afamados do Brasil. A entrada foi um colosso. Chegaram, claro, falando em não cortar. Mas 15 dias depois começaram os cortes, as humilhações e as perseguições. Frases de Maquiavel eram citadas a todo momento. Alguns de nós, os mais seguros e com maior autoestima, tiravam de letra a situação, sabíamos que eles tinham o poder mas não eram melhores profissionais. Outros, principalmente os que nunca haviam saído para trabalhar fora do mercado interno da cidade, andavam acuados, fofocando pelos banheiros e enfurecendo, sem querer, por puro medo, os novos chefes, que se sentiam também acossados e vítimas de armações. Cada um fantasiava como podia, de acordo com a riqueza do próprio universo psíquico. Pensamentos persecutórios a todo vapor, atitudes destemperadas, velhas rixas, manias, vícios e perversões emergiram; a redação mais parecia um hospício. Os novos contratados começaram tirando gordurinhas, depois pedaços da boa carne, partes importantes do cérebro e da coluna vertebral do jornal. À noite reuniam-se para beber conhaque e comer nos melhores restaurantes da cidade. E as demissões tornavam-se, a cada dia, um prazer maior para eles. Adoravam surpreender demitindo pessoas que ninguém imaginava que pudessem ser dispensadas. Um dia foram longe demais; usaram a faca na jugular do secretário de redação, um velho jornalista que estava na empresa havia 30 anos. O próprio dono do jornal pediu que poupassem o velho, mas os novos contratados, por altíssimos salários, diga-se de passagem, afirmaram que ele era o pior de todos, que era a laranja podre do cesto. Entre os colegas, entretanto, o velho jornalista era muito considerado: aquele velho de cabelos brancos era figura importantíssima em sua terra. De pouca vaidade mas dos bons na área, do tipo que por extrema discrição e competência agradava a gregos e troianos. Era uma gramática ambulante, e dava-se o direito de corrigir qualquer colega com finíssima ironia; isso talvez tenha ferido os novos contratados... Vai saber. O fato é que esse senhor adorado pelos leitores, por seus colegas, dos mais novos aos mais velhos, foi demitido. Doeu em todos, pessoas fungavam pela redação, os puxa-sacos disfarçavam o interesse, mas a saída dele, com sua camisa de algodão de mangas curtas, seus cabelos de Einstein, doeu em cada parede daquele prédio. A sucursal de um outro grande jornal o recebeu com honras. Alguns meses depois ele morreu de câncer na garganta. A correria na redação, o medo, as frases de Maquiavel, a pressão, as cretinices, a baixa qualidade dos textos, com pouco conteúdo reflexivo e sem revisão; tudo foi muito duro quando o jornalismo entregou-se à marquetagem, mas o mais lamentável dos horrores foi e continua sendo o desprezo por esses profissionais que passaram a vida na labuta. Há quem pense que o mundo anda para frente e que manter os barbas brancas é só um gesto de caridade. Ledo engano. Os velhões do jornalismo, além de perpetuarem uma boa ética, até porque nasceram antes da invenção das MBAs, têm maior capacidade associativa e algo que nenhum curso de extensão dá: experiência de vida, horas e horas de vôos velozes em remingtons lentas. Esse pessoal antigo, e tão desprezado, tem também o que mais falta no mercado: humanidade. O resultado é que o maior jornal daquela capital não mudou muito, porque nada muda sem gente unida, sem afeto entre as partes, sem pulsão. Os dois contratados, que haviam chamado uma legião de amigos paulistas, "jornalistas melhores", acabaram sendo dispensados, provavelmente quando o dono da empresa caiu em si sobre os altos salários, que nunca retornaram o jornal prometido. A situação do jornal hoje: virou motivo de chacota na cidade e agora tenta recuperar a imagem de jornal local, voltado para o público local. Vende menos, o concorrente alternativo aumentou a circulação, enquanto o grandão aumentou seu investimento em marketing e promoções.

Comida é pasto?

O sofrimento humano banalizado pela mídia

Cláudia Rodrigues* 

Faz duas semanas que uma mulher de 25 anos deixou o filho de 1 ano e 3 meses dormindo no carro num estacionamento enquanto assistia a um show. O bebê foi encontrado por um guarda e encaminhado a uma instituição; a mãe foi presa, na prisão sofreu violência e agora está numa UTI, em estado grave. A notícia é factual, aconteceu e pronto, as medidas tomadas pela Justiça não são passíveis de reflexão ou qualquer questionamento por parte da mídia. A moral católica do brasileiro médio permite um certo espanto, e diante do fato a atitude esperada e "bombada" pela mídia é a de repugnância, rejeição à mãe que abandona. Fica tudo resolvido, a criança afinal sem a única mãe que tinha e a mãe, severamente punida, talvez com a morte. Milhares de terapeutas ocupacionais, psicólogos, antropólogos e assistentes sociais são formados anualmente no Brasil e ficam desempregados, fazendo bico, atendendo às necessidades das classes média e alta ou enfiados em departamentos dando conta de burocracia. Enquanto a medicina preventiva avança em tecnologia, vitaminas e até cirurgias plásticas, a sociologia preventiva ou recuperadora sequer existe. Nas áreas humanas estamos defasados 100 anos; presídios e manicômios são os lugares em que trancamos pessoas desajustadas, sem qualquer chance de receberem cuidados adequados, como a mãe de 25 anos que cometeu a insanidade de deixar um bebê preso num carro. Ao banalizar a notícia triste, a mídia perde a chance de levantar questões para a sociedade discutir e abre ainda mais a chaga da violência e da marginalização, já que desperta maus sentimentos nas pessoas. Anestesiado, o telespectador, leitor, ouvinte é levado a crer que o bebê estará bem melhor longe da mãe, não percebe que ambos, bebê e mãe, mereceriam a chance de viver um período de reajuste terapêutico sob orientação de uma equipe multidisciplinar. A mídia, de maneira geral, age como um aparelho repressor de sentimentos inteligentes, investe em vaidade, chacota, violência, rejeição; ignora os limites humanos, desumaniza, nos torna reféns de um viver insustentável do ponto de vista social, que é moralista e doutrinário, como nossa Justiça.

*originalmente publicado em 7/11/2006 no Observatório da Imprensa

Uma afronta aos mal-nascidos

Uma afronta aos mal-nascidos

Por Cláudia Rodrigues em 19/9/2006 O acidente de carro que matou cinco jovens na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, levou a mídia nacional a um verdadeiro delírio em busca de explicações para o que não é tão facilmente evitável, ainda que seja trágico e triste: a morte em idade precoce. O motorista se perdeu numa curva da Lagoa porque estava alcoolizado e dirigia em alta velocidade? Provavelmente, mas não há garantia absoluta de que se estivesse sóbrio o jovem motorista teria conseguido evitar o acidente, por um motivo muito simples: jovens testam limites, se arriscam e morrem no mundo inteiro desde que o mundo é mundo. Os pais bem-nascidos, coreanos ou brasileiros, tailandeses ou venezuelanos, desde que colocam os rebentos no mundo avisam que colocar prego na tomada dá choque, correr em cimento dá machucado. Aliviados enquanto têm um controle maior da situação, tornam-se mais aflitos quando suas crianças chegam à adolescência e começam a dar os primeiros passos rumo à tão sonhada liberdade e às famosas bobagens, que inevitavelmente fazem e que infelizmente, como no caso do acidente às margens da lagoa carioca, às vezes são fatais. Álcool e cigarro Daí a mídia brasileira fazer glamour com as mortes de jovens felizes e bem cuidados que perderam as estribeiras numa noitada, inventando a notícia que chocou o país, já é demais. Os meios de comunicação, em matéria de criança e adolescente, têm muito mais o que fazer e trazer à baila do que ficar sensacionalizando a tragédia pessoal de cinco famílias da classe média carioca. Não precisam e não deveriam esperar acidentes de carro para varrer madrugadas em boates. Há muito o que noticiar, trabalho é que não falta. Até hoje nenhum veículo colocou um repórter para trabalhar dentro da Febem e trazer a público as razões pelas quais ali se fabricam marginais. Fica mais cômodo, para não dizer hipócrita, cobrir com falsa perplexidade um acidente juvenil. O próprio uso de bebida e tabaco faz parte do kit publicitário moderno que dá aos jovens o grau a mais de coragem para levar adiante a pulsão e “chegar” na menina, no poste ou na árvore. Mas sem tabaco, sem álcool, sem uso de quaisquer drogas eles também se arriscam, machucam-se gravemente ou morrem. Jovens morrem de ânsia pela vida, os corpos cheios de energia, tendem a uma certa inconseqüência cerebral. É verdade que o álcool agrava o comportamento, tornando-os mais agressivos, o cigarro aumenta a ansiedade e a maconha lhes deixa os reflexos mais lentos, efeitos buscados em corpos sedentos por sensações. Definitivamente não temos como prever se nossos filhos conseguirão chegar a salvo à maturidade, quando costumam pensar mais antes de agir, quando a reflexão finalmente surge à frente das ações impulsivas típicas da idade. O delírio da mídia em chafurdar a intimidade das famílias envolvidas foi muito mais para vender a notícia sensacionalisticamente, pervertendo a ordem de muitas prioridades, sentimentalizando, pondo pais na cadeira de réu. Nenhum meio de comunicação pretende parar de veicular propaganda de álcool e cigarro para fazer a sua parte, assim fica o dito pelo não dito, é só encenação. Os anúncios são altamente rentáveis, o público já se sabe qual é, jovens de classe média e alta, então a válvula de escape foi encontrar outros culpados buscando respostas banais com especialistas. Sem futuro A explicação da juíza da 1ª Vara da Infância e da Juventude, Ivone Caetano, foi das mais duras, para não dizer cruel. Segundo ela, os pais foram negligentes por não saber onde estavam e o que faziam seus filhos, a madrugada toda na rua. Para Ivone Caetano, o acidente mostra que no Brasil o Estatuto da Criança e do Adolescente só serve para os pobres. As matérias acabaram por aí, como se os repórteres não tivessem mais nada a perguntar à juíza, como se o papel do jornalismo fosse apenas o de fofocar e sensacionalizar. Os repórteres perderam, como de costume, a oportunidade de puxar pela resposta e ir mais fundo. Como assim, o Estatuto da Criança e do Adolescente só serve para pobres? Não seria a mídia que só serve às classes média e alta? Mais espinhoso seria averiguar a combinação entre as duas premissas e chegarmos à vergonhosa conclusão de que o Estatuto da Criança e do Adolescente serve para punir os infratores pobres em lugar de defendê-los, enquanto a mídia trata de proteger os interesses dos ricos a qualquer preço. Será que estamos precisando aumentar ainda mais a chaga das diferenças sociais? Todos os dias centenas de crianças e adolescentes pobres morrem por motivos fúteis no Brasil, em tragédias que abalam suas frágeis famílias. Os mal-nascidos são presos na Febem, onde fazem escola de marginalidade, sofrem maus-tratos dentro e fora de suas casas e consomem crack a céu aberto. Crianças se arriscam a sofrer atropelamento em sinais de trânsito, são abandonadas pelas ruas, espancadas, formam-se assaltantes, chegam aos 16, 17 anos sem dentes, com a saúde debilitada, atrasadas na escola. São crianças sem futuro, não comovem a mídia; suas vidas não são apresentadas como preciosas. E nós somos diariamente levados a pensar que valem menos, o que é de fato assustador. Jovens do mal É tão comum morrer de pobre no Brasil que isso não dá capa nem enquete, não rende, não emociona e até irrita muita gente. Mas é óbvio que enquanto a equipe do Fantástico filmava a entrada das boates Brasil afora, muitas crianças e adolescentes flanelavam carros nas redondezas. Não sobrou pedacinho sequer de filme para atestar os riscos que crianças e adolescentes pobres correm nas madrugadas. Os jovens que causam comoção nos meios de comunicação são consumidores dos produtos anunciados pela mídia, incluindo aí o álcool, o tabaco e os carros bacanas, por isso suas vidas valem tanto. Se o acidente fosse num Fusca 68 com cinco jovens fumadores de crack não haveria espaço para emoções ternas, seriam explorados os sentimentos de raiva das classes média e alta. Bem-nascidos, bem cuidados por pais amorosos, bem-alimentados e bem-informados, porque todos sabiam que não deveriam andar com motorista alcoolizado, os cinco jovens tinham um futuro pela frente interrompido por uma fatalidade, uma audácia que não deu certo, quiçá por abuso de uma droga lícita, propagandeada por todos os meios de comunicação. O bafafá em torno do caso chega a ser uma afronta diante do caos social a que estão submetidos os jovens que são maioria no país: os mal-nascidos. O sentimentalismo que o Fantástico colocou em cima da notícia, com o tom de denúncia sobre imagens de boates onde jovens bebem e depois dirigem seus carros de volta para casa, é enjoativo. O serviço prestado serve para separar ainda mais ricos de pobres. A máxima levantada pela juíza de que o ideal é trancafiar em casa os jovens de futuro, de bem, deve prosperar. Assim as ruas ficam livres para que só os menores consumidores de crack se arrisquem. Afinal, crack é coisa dos jovens do mal, aqueles que quando merecem capa já entram como bandidos, aqueles que não têm direito a cerimônia fúnebre bacana, os que são literalmente engavetados, vivos ou mortos.

Estupro em Campinas

ESTUPRO EM CAMPINAS Jornalismo declaratório embota leitor

Por Cláudia Rodrigues em 26/4/2005
A televisão já nem repercute o assunto e os jornalões paulistas, Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, ainda tentam apimentar o fato ao publicar as queixas, naturalmente antagônicas, dos lados envolvidos, parentes da moça violentada e dos rapazes acusados pelo estupro ocorrido em 10 de dezembro de 2004, em Campinas. Começa a preocupar a posição da imprensa, que toma as dores dos moços acadêmicos ao noticiar que a arma da defesa é a revelação de que a jovem estaria consciente e teria até mesmo assediado os rapazes. O público entra na catraca de sempre: os contra e os a favor. Ninguém cresce, exceto a bolha do embotamento mental, cada vez mais espessa. Falta mais do que debate, falta a informação básica e óbvia: estupro é crime, se a vítima estiver consciente ou não. E dois, três ou mais rapazes "brincando" seminus com uma única moça nua num banheiro é um estupro sem a menor dúvida, é uma violência sexual, é a utilização do corpo feminino como objeto de prazer desvinculado do seu valor humano. Não ocorreu aos repórteres perguntar aos advogados de defesa se uma eventual consciência da moça descaracterizaria realmente o estupro diante das condições apuradas – dois ou três homens seminus com um mulher nua no banheiro? Digamos que não fosse uma pessoa a vítima, que fosse um animal, uma ovelha, uma égua vitimada por três homens. Não seria crime ainda assim? Que jornalismo é esse que só publica as declarações, que não enxerga um palmo à frente da resposta pronta do entrevistado? Da fantasia à trágica realidade Em vez de ficar preocupada em arranjar informações do delegado, falações dos parentes, declarações dos advogados, seria mais interessante para a sociedade que a notícia de desdobrasse em pautas que servissem de acesso ao conhecimento sobre o tema e o entorno dele em nossa atualidade. Clarear as idéias da sociedade sobre o machismo que se esconde nessas questões, um machismo já conhecido e muito bem defendido por nossa Justiça – que sempre contou com os panos quentes da grande mídia –, seria apenas um bom começo para sairmos do tom fofoqueiro que agora ataca também a notícia importante, refletora de nossos comportamentos sociais. Poderíamos ter uma fileira de matérias interessantes, que começariam no crime de estupro, propriamente dito, e terminaria não muito longe da cátedra escolar, onde meninas de 12, 13 anos, incentivadas por um mercado midiático corrosivo, se comprazem em jogos de sedução perversa, explícita, incentivadas muitas vezes pela própria família, já há muito embaçada pelos truques do marquetismo. A TV, a imprensa e as rádios não vinculam a hipervalorização do corpo como produto de consumo à banalização da sexualidade e seus desdobramentos. Seria até natural, se não fosse crime, que jovens criados para ver a mulher como objeto a tratem assim; como seria esperado, se não fosse tão doloroso, uma jovem confundir-se em suas fantasias antes de deparar com a trágica realidade de um estupro. A cura pela palavra Atrás do estupro de Campinas há muito o que se pensar, muito o que se debater. É uma pena que nossa mídia não deseje ir mais fundo do que equilibrar-se na nata das últimas declarações oficiais. E sempre com a tendência a apoiar os mais fortes, no caso os infelizes rapazes, que se juntaram, fotografaram, assistiram, espiaram e entre todos os indiretamente envolvidos, por volta de cinco, não houve um que dissesse: "Não façam isso, vamos protegê-la, chamar alguém para ajudá-la, ela não pode estar consciente se deixando machucar, não podemos abusar de um ser humano dessa forma." Uma mídia inteligente, reflexiva, envolveria a sociedade de uma maneira benéfica, poderia até evitar novos crimes como esse. Mas ficamos na notícia, no disse-me-disse das declarações oficiais. Quem ainda agüenta as malditas declarações oficiais? Para que servem afinal as declarações se nada a elas é agregado, nem realidade, nem situação histórica, antropológica, nada mais do que fatos a se repetirem doentiamente, justamente porque não são tratados, não são curados? Sempre é bom lembrar o fato de que a cura pela palavra já foi descoberta há mais de 100 anos. É incrível como o jornalismo tem sido capaz de operar num nível tão baixo, reduzindo o conhecimento que poderia divulgar a banalidades factuais, mesmo quando o assunto pede pelo amor de Deus para ser refletido.

Abuso infantil psicológico- Menina Maisa


Por Cláudia Rodrigues em 26/5/2009

 No domingo, 17 de maio, a menina Maísa, apresentadora do SBT, foi chamada pelo apresentador Silvio Santos ao palco para sofrer humilhações. Segundo o apresentador, uma menina de seis anos, ao chorar, está se comportando como se tivesse dois meses de idade e fosse um bebezinho. Desolada, a garotinha pede desculpas por ter chorado na semana anterior e justifica que está magoada. Ele a chama de medrosa, ela se desespera e sai correndo, acaba batendo com a cabeça numa câmera e Silvio Santos então incita a platéia em coro a gritar: "Medrosa! Medrosa!" A garotinha volta, diz que a cabeça está doendo, tenta explicar-se novamente, revela que gosta muito do patrão. Continua a humilhação, ela chama pela mãe, que não aparece, não acode, ela tenta sair do palco, retorna mais de uma vez e continua sendo humilhada. Antes de Maísa sair definitivamente de cena, Silvio Santos faz uma última ameaça: "Quando você casar, nenhum marido vai agüentar você". O caso foi levado ao Ministério da Justiça e ao Ministério Público Federal por duas fontes diferentes. No MPF, um advogado formalizou a denúncia contra o SBT. No MJ, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente encaminhou relatório sobre o caso. Não dá para levar a sério a campanha da mídia contra o abuso sexual infantil num país em que o abuso psicológico é visto como normal, incentivado pela mesma mídia com requintes de sadismo coletivo. Sadismo e falta de limites Ficou claro que a menina, apesar de toda a dor e da humilhação por não ter direito, segundo o patrão, a chorar aos seis anos de idade, temeu perder o emprego e voltou várias vezes, sempre tentando se justificar e dizendo que adorava o patrão. Sádico, ficou óbvio que Silvio Santos é. Se fosse pedófilo, já teria o terreno todo pronto para cometer mais um crime porque o de submeter a pequena a constrangimento e humilhação ele cometeu. Os pais da menina, onde estão nisso? Será que no contrato consta como direito do patrão abusar psicologicamente da menor em público? Que sirva como exemplo para que as leis sejam respeitadas e, mais que isso, possamos retomar o debate que começou no ano passado com o caso Isabella Nardoni, sobre causas e conseqüências dos abusos de adultos sobre a frágil personalidade infantil. O debate morreu na praia, no ódio da platéia por aqueles adultos em questão, mas a corrida a favor dos direitos da criança a um tratamento digno e respeitoso evaporou em notas jurídicas sobre o caso. Não parece boa a comparação? Parece exagero? Não é. Atrás do abuso sexual infantil, atrás das "palmadas inocentes", dos crimes, do aumento de crianças deprimidas, do discurso vazio sobre limites infantis, está o sadismo e a total falta de limites de uma sociedade adulta doente, que vê a criança como brinquedo, objeto, sem o menor senso de humanidade.

Vem aí o Big Brother jornalismo

Por Cláudia Rodrigues em 30/6/2009 O jornalismo do futuro atenderá ao mercado, às pesquisas de mercado. Enganam-se os estudantes e os jornalistas maduros e românticos que acreditam na contratação da mão-de-obra qualificada nas universidades. Sem a exigência do diploma de jornalismo, as empresas jornalísticas têm agora a oportunidade de contratar como repórteres e editores os que hoje já pautam as matérias e tanto se incomodam com o tom jornalístico: os profissionais do marketing. O jornalismo do futuro vai justificar-se como sendo o jornalismo baseado em pesquisas feitas com os consumidores de notícias e não será difícil provar que os consumidores estão cansados de matérias profundas e "chatas" sobre problemas sociais, políticos e econômicos. Nossos pautadores, aliados aos anunciantes, já vêm ressentidos desde a década de 1970 com esse jornalismo que não vende e destrói empresas de nome no ramo das comunicações. O que salva é o entretenimento, esse sim, um bom filão. Mas o velho e bom jornalismo está lá sempre teimando. Até a década de 1980 ainda podíamos ver nos expedientes que a lista de profissionais da redação era bem maior do que a de profissionais do comercial e do marketing. Aliás, comercial e marketing eram praticamente o mesmo grupo. Hoje podemos ver expedientes com cinco jornalistas e trinta profissionais ligados ao departamento comercial e o de marketing. Parece piada, mas é a crua realidade. A ficha ainda não caiu Não tem adiantado as demissões em massa dos jornalistas das antigas sendo substituídos por recém-formados inexperientes e mais facilmente levados no bico; não tem sido o bastante puxar para as assessorias de imprensa os pais de família que precisam afinal sustentar os filhos; não é suficiente promover seminários de boas relações entre os setores comercial, de marketing e as redações. Ah, os chatos das redações finalmente terão o que merecem, serão banidos de vez. A ficha ainda não caiu, basta perceber o quanto a notícia da queda do diploma está sendo mal coberta pela mídia. Resta saber o que vai acontecer quando realmente os jornalistas começarem a ser substituídos por seus superiores do marketing – primeiro em cargos de chefia e mais tarde por estudantes recém-saídos das faculdades de marketing.