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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Explicando a morte para as crianças




Cláudia Rodrigues

Pessoas muito desconectadas da natureza e que criam os filhos sem contato com  plantas e animais costumam ter muita dificuldade para explicar a morte para suas crianças. As próprias crianças podem ter mais dificuldades para acessar qualquer explicação e imaginar o que é a morte quando não conhecem a palavra morte, quando nunca a materializaram com os próprios olhos, coisa que a natureza oferece todos os dias.
Tema complicado para os adultos, a morte envolve saudade, luto, fantasias e crenças de sermos os humanos mais especiais e diferenciados da natureza nua e crua, da viagem que não tem retorno, da finitude de nossa matéria viva e pulsante.

Para as crianças a morte envolve, em comum com adultos, a saudade, fantasias próprias e perguntas que podem ser respondidas sinceramente. O luto das crianças fica por conta do que os adultos em seu entorno produzem para preencher vazios dos cuidados imediatos. A caixa de memória delas, sempre muito recente e quanto mais nova a criança, mais recente, defende-se do luto saudoso e melodromático comum aos adultos. As crianças sofrem mais pelo luto dos adultos vivos, pelo que esses adultos deixam de dar a elas do que pela falta da pessoa que se foi. Criança tem fome imediata de vida e o que ela quer saber sobre a morte é tão material quanto o que quer saber da vida.

Adultos tendem a problematizar as fantasias das crianças de acordo com seus sofrimentos de adultos, suas memórias de adultos e suas crenças.
Como contar a uma criança pequena que sua avó morreu, por exemplo, passa a ser um emaranhado de palavras e projeções que nem sempre recebem com respeito as fantasias e a curiosidade natural das crianças. É comum que se fale de estrelinha no céu. Nada contra, se a estrelinha no céu foi imaginada pela criança, mas ela tem o direito de inventar seu próprio jeito de compreender a morte e para isso os adultos precisam aprender a controlar angústias e ansiedades para receberem a simplicidade da imaginação e da resolução infantil.

As crianças que vêem formigas morrer, que eventualmente matam formigas (quem nunca!?), que viram flores murcharem, plantas morrerem, animais de estimação morrendo, já conhecem o verbo "morrer", já entenderam que morrer é um sumir para sempre e em algum momento de suas vidas, muito rotineiramente por volta dos 6 anos, elas percebem isso de uma forma mais intensa e fantasiam um jeito de imaginar seus animais de estimação entes queridos vivos de alguma forma, em algum outro lugar. Algumas apenas ficam pensando, pensando e aceitam, vão se deixando engolir pela vida, como os adultos, só que mais rapidamente.
E sim, adultos podem estragar tudo se vivem falando dos mortos, se não deixam a memória dos mortos em paz.

Nossa experiência familiar com a morte e as crianças começou cedo na natureza. Eles falavam "moieu" ainda. Moieu o peixe no aquário, moieu o choim (cachorro), moieu a flô. Crianças brincam de morte, deitam-se no chão e morrem, crianças escutam histórias de bruxas que morrem, de queridas mamães que morrem, crianças falam "você vai moler com minha espada".
Mas em 1998 morreu o bivô deles, meu avô, e pela primeira vez o contato com a morte trouxe as famosas perguntas: de onde viemos, para onde voltaremos? Eles estavam com 5 e 7 anos respectivamente e queriam saber:



>>Para onde havia ido o avô da mamãe, que era mágico, poeta, violonista?
<<Não sabemos, só sabemos que não volta mais, esperamos que tenha ido para um lugar legal onde só faça o que mais gostava de fazer.
>>Os mortos se encontram, eles têm uma cidade em que vivem, um Planeta do mortos?
<<Não sabemos, esperamos que sim e que seja um lugar bem bacana.
>>Ninguém sabe, não está nos livros?
<<Ninguém sabe, nunca nenhum morto voltou para contar, mas há muitos livros e muitas lendas sobre a morte.
>>Crianças podem morrer?
<<Ui, essa é dura de responder, mas sim, em casos muito raros crianças podem morrer.
>>Criança morre só de acidente ou de doença também?
<<Das duas coisas, mas é bem raro, crianças sempre são mais protegidas, tem cadeira especial, quando um barco afunda elas são as primeiras a serem socorridas, todas as pessoas adultas sempre cuidam para salvar as crianças primeiro.
>>Mãe, podia ser assim uma fazenda bem linda e grande onde estão todos os mortos lá no céu?
<<Pode, pode ser.
>>Vamos escrever uma história dos mortos da nossa família vivendo na fazenda, o bivô tocando violão e fazendo mágica bem feliz?
<<Vamos.
E foi assim que passamos a escrever conjuntamente, a cada morte próxima, a nossa história conjunta, eles ditando e eu escrevendo, dando uns pitacos, fazendo algumas perguntas: "A Fazenda do Céu".
Começou com meu avô, bivô deles chegando com seu violão e sua mala de mágica, para alegria da bivó que estava lá esperando por ele já fazia alguns anos. Foi uma festa, uma grande alegria e havia até um lago para ele pescar, na volta do lago estava a égua Moreninha, a ovelha miu miu, o cavalo Vermelho, o cavalo Índio e até minha cadelinha de infância, a Lili.
Depois uma amiga muito querida, a Cássia, que cantava também, chegou por lá, também com seu violão e então meu avô e minha avó, (por dica minha) chamaram Janis Joplin , que cuidava da horta da Fazenda do Céu (ideia deles), para recebê-la. Um dia chegou por lá o nosso grande cão Babu, depois de 13 anos de existência e assim foi, a gata Panta, a gata Timi, o Sabinho, o sabiá, até que cresceram e não lembraram mais dessa história, quando a morte para eles ganhou o manto negro do luto da consciência real.



quinta-feira, 21 de maio de 2015

Dicas de educação para classe média que não sabe ensinar a lutar

Cláudia Rodrigues





Ensinem suas filhas e filhos a pegar ônibus logo cedo, primeiro com vocês, depois solitos. Eles vão precisar disso um dia na adolescência ou na vida adulta e mesmo que você seja muito rico e pense que não precisarão, não há como ter certeza. Se nunca andaram, terão tendência a ficarem abobalhados, pouco espertos e mais propensos a sofrerem assaltos ou atropelamentos.
Ensinem seus filhos e filhas a andar a pé, porque só se aprende a atravessar ruas andando a pé. Bicicleta só para recreação, com você carregando o malinha e sua mala rampa acima, não vai dar boa coisa. Molequinhos e molequinhas precisam saber ir e voltar. Carregarem seus casaquinhos, bonequinhas e carrinhos faz parte da missão: mãe e pai não são cabides.
Ensinem suas filhas e filhos desde bebês a descascar bananas, maiorezinhos devem saber comer maçã sem ser picada, devem aprender a espremer um suco no muque, usar garfo e faca, colocar a roupa suja no cesto, lavar, secar e guardar louça. Assim não serão os malas na casa da tia no dia do pijama. No mínimo.
Ensinem seus filhos e filhas adolescentes a lavar o próprio par de tênis, lavar, pendurar, recolher e dobrar roupas, cozinhar algo básico, trocar lâmpadas e resistência do chuveiro. Ensine que isso pode não ser prazeroso como tomar um sorvete ou jogar no celular, mas é importante e necessário.
Ensinem suas filhas e filhos a plantar, colher e entenderem a diferença entre um pé de alface e um pé de couve. Você pode não acreditar, mas por falta de ensinamentos básicos muita criança se cria achando que leite é um produto que nasce em caixas. Isso não é engraçado, é um efeito colateral involutivo do nosso tempo.
Não tema o fogo, o fogão, a chaleira nas mãos dos coitadinhos. Se você não ensinar, eles vão fazer muita bobagem e vão se queimar. Educar é confiar nas capacidades e na inteligência deles. É mostrar perigos e ensinar a lidar com perigos.
Eduquem seus filhos para a vida, para capacidades. Prazer não precisa ser ensinado, é um benefício, um privilégio. Ter empregada doméstica em casa não deve ser visto e sentido como alguém que vem acoplado ao lar, quase uma "coisa" um "objeto humano" de limpar e organizar sem parar.
Essas não são dicas moralistas. Educar para a solidariedade é um ato até egoísta e nada poético. Ao ensinar coisas básicas de sobrevivência aos filhos, estamos promovendo confiança e capacidade, auto-estima, senso de dever e responsabilidade.
Evite produzir e multiplicar pessoas que um dia serão adultos entediados, mimados que acharão eternamente que vieram ao mundo a passeio, sem a menor noção do que é resiliência, inaptos para cuidar de si mesmos e de outros, caso se multipliquem preguiçosamente.
A vida pode ser bela, a vida pode não ser dura para herdeiros, mas ela cobrará sempre, de qualquer um de nós, firmeza e força de vontade. Isso não é nato, depende de adversidades e luta pela sobrevivência e nada tem a ver com capacidade de apertar um botão ou deslizar os dedões no Iphone.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

A criança de dois anos e os terríveis adultos que cuidam dela


Cláudia Rodrigues
A criança de dois anos ainda é, em parte, um bebê, o mais esperto e apto dos bebês. Do segundo para o terceiro ano de vida ela vai deixando o jeitão de bebê para trás e tornando-se o que consideramos de fato uma criança, em plena fase social e lúdica. Quando os adultos respeitam e aceitam o desejo de autonomia que surge na criança a partir dos dois anos, ela sai das fraldas, desmama, larga a chupeta, dorme mais facilmente sem embalo apreciando uma história, uma conversa de fim de dia. É apta para ser uma companheirinha, já consegue esperar, entende o que falamos, responde, pergunta, imita nossos gestos e afazeres.

Mas o que mais se vê é criança de dois anos sendo apelidada de terrível, existe a expressão terrible twos para dar referência à fase de desejo e aptidão por autonomia, muitas vezes confundida pelos adultos como teimosia.

Afinal, o que perdem os pais com a criança maiorzinha?


Perdem controle e são exigidos em musculatura e criatividade, isso irrita alguns adultos que se engalfinham em brigas com as pequenas criaturas.
A criança de dois anos acha divertidíssimo vasculhar a casa, pesquisar, abrir torneiras, desembolar meias, puxar rolo de papel higiênico, subir em cadeiras, bancos, armários, mexer com água, terra, farinha. Se ela não for levada para brincar em uma praça, um parque, fará da sua casa o seu "playground"e se for também fará, talvez apenas com um pouco menos de intensidade. Cabe aos pais ensinar como se folheia livros sem rasgar, como pintar tal parede forrada com papel e não outra, como carregar por alguns metros um copo de vidro sem quebrar, aliás essa última é uma façanha que toda criança de dois anos ama fazer, mas que fará muito mal com cuidadores nervosos, ansiosos e pré-prontos para um drama de escadaria.


A maior parte dos bebês ao completar dois anos já dorme a noite inteira justamente porque o dia é alucinante em desfrutes depois da longa jornada de 24 meses em que se dedicaram a ver melhor, ouvir melhor, decodificar a linguagem, além de arrastarem-se até engatinhar e andar. Foi um baita trabalho, o adultos têm o dever de compreender isso!

Aos dois anos a criança está comemorando o gran finale da primeira parte do seu desenvolvimento e fica irritadíssima ao ser tratada como idiota, alguém sem "opinião". Ficam frustradas se as arrancam do chão para o colo em caso disso não ter sido minimamente compreendido e da mesma forma ficam furiosas se pedem colo e não ganham, em caso de tédio ou cansaço. O adulto, irado, muitas vezes acha que a criança é apenas folgada e "cheia de vontades", mas ela é somente um bebezão e os raciocínios mais complexos estão iniciando.

Ela absolutamente não entende que está na hora de ir embora se isso for feito de supetão, ela precisa de duas ou mais vezes de uma mesma frase de repetição para elaborar e aí sim pode ser uma colaboradora melhor. Por exemplo, no parquinho: "olha, nós vamos encher o balde mais três vezes e e depois vamos". Ela pode não entender matematicamente o que são três vezes, mas vai ficar fascinada em ouvir e ver o que são três vezes e vai colaborar. Agora, quando o adulto diz "vamos, está na hora!" ela é capaz de surtar nos tais terrible twos  simplesmente porque sua autonomia é seu calcanhar de aquiles. Ela aceita aprender, aceita e gosta de imitar o adulto, mas há uma linha tênue aí na hora do adulto tratá-la como se ela estivesse com um ano. Bebês de um ano aceitam melhor a engambelação feita pelos adultos, protestam por poucos minutos e logo se distraem com outra coisa, mas crianças de dois anos simplesmente não aceitam engambelação, exigem respeito, são pequenas cidadãs.

A boa nova é que se bem tratada e compreendida no funcionamento de seu cérebro, a criança de 3, 4 anos chega a essa fase sem ataques de birra e capaz de conversar, até mesmo argumentar. Agora, se foi pouco ouvida, se o que ela queria valia uma vez e outra não, se pais, mães ou cuidadores não tiveram critérios e nem paciência para entendê-la, ela chegará um monstrinho aos quatro anos porque finalmente, com capacidades mais desenvolvidas, vai colocar para fora o que viveu e o que não pôde viver aos dois anos. Fase de entender regras mais complexas, como não roubar em jogos, por exemplo, a criança de 4 anos pode se recusar a isso e o que está por trás é nada menos que mágoa por não ter sido respeitada anteriormente. Ela vai precisar processar e jogar para fora, elaborando do jeito dela o que fizeram com ela. Se foi manipulada, vai manipular, se foi desrespeitada vai desrespeitar, se não foi ouvida, vai gritar.

E aí, quem sabe, vão inventar o terrible four, mas de verdade o maior trabalho e a maior alegria de cuidar de uma criança é compreender como ela funciona de acordo com seu estágio de desenvolvimento, sempre mais recebendo do que dando, observando mais do que determinando, sacando o que ela sente por trás de seus raciocínios bem simples, mais vinculados com prazer do que com dever.

Criança que fica mimada não é criança que se sente compreendida, crianças mimadas são crianças que foram incompreendidas, preenchidas com coisas para calarem suas bocas e tudo que uma criança a partir de dois anos precisa é de menos investimento oral e nível quase zero de engambelamento. Comum que coma menos do que comia com um ano, comum que não prefira ficar vendo TV e comendo, mas aprontando livremente pela casa. O doce como suborno sempre funciona de imediato, assim como palmadas e gritos, insultos e isso faz não só com que o adulto traia a criança, mas ela própria se sinta em traição a seus desejos, o que é bem mais complicado. É mais rápido escolher a educação violenta, sedutora ou combinar essas duas formas de levar a criança, mas o preço pode ser alto para a convivência com os filhos, que é para sempre.

A partir de dois anos a criança está apta para livrar-se dos consolos orais, da mamadeira ao peito, da chupeta ao mingau, mas para isso necessita de adultos dispostos a soltá-la para correr, fuçar, pesquisar o ambiente e interagir com ela de maneira menos oralizada. Adultos preguiçosos costumam reclamar mais de cuidar de crianças de dois anos, adultos preguiçosos são adultos, eles mesmos, pendurados na fase oral do desenvolvimento.






terça-feira, 19 de agosto de 2014

Adultos infantilizados X crianças birrentas

Cláudia Rodrigues  

Um dos exercícios que fizemos hoje na oficina Inscrições Corporais, no Solar do Caminho, em Porto Alegre, foi o de remeter o adulto ao seu corpo de dois anos. Por meio de exercícios que "imitam" o que se passa no corpo do bebê entre o primeiro mês e o segundo ano de vida, o adulto sentiu na pele o quanto o bebê se esforça desde o nascimento para um "acordar-se" para a vida.


No caso o que tratamos
 foi acordar o adulto para a importância de atender bem essa fase, de maneira emocionalmente segura e cognitivamente eficiente.


O acordar do bebê para vida começa pela ligação ao peito da mãe ou pela mamadeira, a busca do alimento o salvará, ele vive isso, ele pulsa para a vida. Já lutou para nascer ou nasceu por meio de cesariana e pulsa em direção a essa novidade de viver no ar.

Sai do seu lugar de peixe, passa um bom período evoluindo no seu lugar reptiliano, adquire a capacidade de rastejar, engatinhar, parar em pé, passa a ouvir e decodificar sons. Antes disso, por volta dos quatro meses, desenvolveu seu olhar para longe, passou a ver a copa das árvores ou topo dos prédios, coisas que antes apareciam difusas para ele, desfocadas.

Por volta de um ano, um pouco antes, um pouco depois, ele para em pé sem apoio e começa a dar os primeiros passos. É uma grande vitória, depois de muito esforço.

Costuma chegar aos dois anos ávido por prazeres com seus braços e pernas, olhos, ouvidos, olfato, paladar apurado para a variedade de alimentos que experimentou. Vai pedir o que conhece, estará embasado no que conhece, no que foi oferecido a ele nesses primeiros dois anos de vida.

O filhote humano aos dois anos é capaz de muitas coisas, de quase tudo o que sonhou. Ele vai querer saber mais, lutar para se desenvolver mais e melhor, mas os últimos dois anos foram de uma evolução intensa e rápida. De movimentos involuntários, ele chegou a uma alta capacidade de ser locomover, é muito capaz, merece se divertir, movimentar-se, explorar a casa, o pátio, os parques. O bebê de dois anos é um pesquisador, completou sua graduação em pesquisa do desenvolvimento de seu próprio corpo.

O mestrado é entre 2 e 4. Ele vai exigir mais dos seus orientadores, agora já não se contenta em ser orientado apenas para fazer coisas, ele começa a pensar de maneira mais elaborada, ele tem ideias próprias. Algumas dessas ideias podem parecer absurdas para os adultos, ilógicas e não são raros os cabos de guerra, as seduções, ameaças, insultos, castigos ou as tais dinossáuricas palmadas, que estabelecem uma relação escravagista com a criança.

Tudo o que ela quer e precisa para ficar bem, sem ataques, é que o adulto seja mais inteligente do que ela. Quando uma criança entre 2 e 4 anos teima com um adulto e recebe de volta apenas um não, ela se desespera e não consegue explicar suas razões. Ela ainda não tem desenvolvimento cortical suficiente para raciocínios elaborados por meio da argumentação complexa a ver com as necessidades dos adultos.

Quando uma criança escolhe uma roupa de verão para usar no inverno e seus cuidadores têm dificuldade de convencê-la a colocar uma roupa mais adequada, costumam ficar teimando com argumentos de adulto, explicam sobre o clima e muitas vezes isso vai irritando ainda mais a criança. O ideal seria que antes de explicar o adulto tentasse receber a criança e sua fantasia, que talvez fosse algo como, "hoje sonhei que estava na praia, acordei com calor, lembrei dessa roupa e decidi colocar". Mas a criança não consegue narrar com 2, 3 anos, dessa forma, para argumentar com um adulto, especialmente se o adulto já estiver surtado, insultando a criança. De qualquer maneira, tentar seduzir, induzir, convencer, nem sempre evitam a crise.

Bater, gritar e insultar obviamente também não seriam soluções inteligentes e promotoras de um bom desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças.

A única coisa que a criança quer realmente é ser compreendida, desabafar isso de alguma forma, antes de sucumbir ao entendimento da lógica adulta e fazer o que precisa ser feito. A criança entre 2 e 4 anos luta por sua autonomia e contra a submissão. Ela pode compreender os limites, respeitá-los, fazer a sua parte, pode chegar muito bem ao final dos quatro anos, mas vai ser mais difícil se tiver sido uma luta inglória, se foi impedida de se desenvolver: provocada, desafiada, insultada, ameaçada, estapeada, surrada, seduzida.

Apenas porque nessa fase o primordial para ela era justamente sentir-se mais capaz em sua autonomia.

Os adultos pais de crianças entre 2 e 4 anos precisam ser apenas mais inteligentes do que seus filhos, não para manipulá-los, mas para compreendê-los e a partir dessa compreensão, dar continuidade ao relacionamento, que aliás agora pode ser um pouco mais democrático do que entre 0 e 2 anos. Entre 2 e 4 anos a criança que foi respeitada em suas dificuldades e frustrações, consegue e aprecia cumprir regras simples, esperar por uma comida, brincar por mais tempo sozinha ou com outras crianças. Aos 4 anos já evoluiu bastante sua linguagem, consegue argumentar, se interessa muito pelo mundo, faz perguntas, está apta ao final desse período para elaborações mais profundas. Já não apenas imita e faz, ela agora produz e tem senso de sua produção: desenha, algumas já se interessam por letras e palavras, elaboram pequenas histórias orais, teatros, são capazes de criar canções e letras espontaneamente, têm imaginação fértil, viver é um estado lúdico permanente.

Cabe aos adultos, diante da criança que tenta imitá-los, evitar regredir e entrar em competição para ver quem é o mais forte, evitar cair no drama de infantilizar-se diante da evolução natural da criança. O adulto que xinga, teima, barganha, ameaça, insulta, seduz,
está recorrendo ao seu corpo infantil, incapaz de dar conta de alguém que, inacreditavelmente, cresceu e precisa um outro status de relacionamento.

sábado, 23 de novembro de 2013

Das Flor em apresentação única no Theatro São Pedro


Peça reúne artistas que  conviveram com moradores de rua e crianças que vivem em abrigos.
   Fotos/Fernando Pires





Cláudia Rodrigues

É a vida a céu aberto, de noite e de dia o pão, a água, a missão de sobreviver aos próprios sonhos. Nascimento, cotidiano , polícia, política e morte, eis alguns dos temas pinçados pelo Das Flor.

A diretora Luciane Panisson elaborou com o grupo uma história não-linear, explorando os sentimentos e sensações dos artistas e da plateia que mergulha em questões éticas e estéticas. É tocante, acelera o coração, tem perplexidade sem perder o ritmo. Ponto alto é o dos corpos nus, que aparecem sem qualquer artifício, sem malha, sem performances sob o som da sirene policial e trazem à luz a nudez cotidiana das indignidades humanas.


A cenografia é inteligentíssima com objetos-dobras em papel, criados pelo artista Álvaro Villaverde, que integra o elenco ao lado de Juliano Barros, Roberta Alfaya, Marcos Rangel e Fabíola Rahde. A trilha sonora é composta por Eloy Fristch, que mistura paisagens sonoras e composições eletroacústicas; o figurino é da artista plástica Margarida Rache e é construído a partir do principio da reciclagem de materiais.                                                     

A experiência cênica e musical baseada na convivência com moradores de rua e crianças que vivem abrigos, resultou  em  apresentação dos alunos em um primeiro momento. O grupo de artistas também aprendeu e trouxe dessa experiência um espetáculo teatral visceral.




O espetáculo Das Flor será apresentado gratuitamente no Theatro São Pedro no dia 28 de novembro, quinta feira, às 21h em apresentação única.
Saiba mais sobre o projeto em: http://www.dasflor.com.br/

O projeto Das Flor foi contemplado pela Fundação Nacional de Artes – FUNARTE no edital Prêmio Procultura de Estímulo ao Circo, Dança e Teatro 2010 e conta com o apoio da Secretaria de Segurança do Estado do RS, Secretaria da Cultura do Estado do RS, Theatro São Pedro e da Casa de Cultura Mario Quintana.


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Carta Aberta ao Conar

Carta Aberta ao Conar
Duas recentes medidas do Conar referentes aos abusos da publicidade voltada para as crianças nos deixaram preocupados e ainda mais descrentes da atuação deste órgão com relação à proteção da infância.
A primeira foi a decisão de sustar a campanha da Telessena de Páscoa por anunciar para o público infanto-juvenil um produto que só pode ser vendido para maiores de 16 anos (de acordo com regulamentação da SUSEP). A segunda foi a advertência dada pelo Conar à Ambev, com relação ao ovo de páscoa de cerveja da Skol.
Ambas atitudes do Conar seriam dignas de aplausos – se tivessem sido tomadas quando as campanhas publicitárias estavam no ar, na Páscoa, em março. Mas o Conar só agiu em junho, quando as campanhas já não eram mais veiculadas.
Com isso, não houve nenhum impedimento para que a mensagem indevida da Telessena atingisse impunemente milhões de brasileirinhos e que a Ambev promovesse bebida alcoólica através de um produto de forte apelo às crianças. A advertência à Skol é ainda mais ineficaz, pois não impede que no próximo ano, produto semelhante seja oferecido.
O Movimento Infância Livre de Consumismo vê nessas decisões a comprovação de que o atual sistema de autorregulamentação praticado pelo mercado publicitário brasileiro é lento, omisso e ineficiente. Fato ainda mais grave quando se trata da defesa do público infantil.
Por isso, exigimos que a publicidade infantil sofra um controle externo como todas as atividades empresariais. Reiteramos nossa postura de que, sem leis e punição, jamais teremos uma publicidade infantil mais ética.
Nós, mães e pais, exigimos respeito à infância dos nossos filhos e solicitamos que estas duas atuações não constem dos autos do Conar como casos de sucesso. Contabilizar pareceres dados depois que as campanhas saíram do ar, como exemplo da firme atuação do Conar, é propaganda enganosa. E isso contraria o tal Código de Autorregulamentação que os publicitários insistem em tentar nos convencer que funciona.
*** [Este texto faz parte de uma blogagem coletiva proposta pelo Movimento Infância Livre de Consumismo juntamente com blogs parceiros. Este movimento é composto por pais e mães que desejam uma regulamentação séria e eficiente da publicidade voltada para crianças. Para saber mais acesse: http://www.infancialivredeconsumismo.com. br ]

sábado, 26 de junho de 2010

Filhos 9 a 12

O período da pré-adolescência, entre 9 e 12 anos, aproximadamente, é um dos mais difíceis para a garotada. Não se sentem mais crianças e detestam ser tratadas como tal, mas também ainda não chegaram à adolescência e nem de longe são jovens destemidos em busca de aventura. Durante esse período inicia a longa trajetória de questionamentos e antagonismos que só termina no início da vida adulta. A sensação de inadequação nessa fase é mais intensa do que em qualquer outra, levando-se em conta o desenvolvimento da pessoa nesse periodo. A frase dita por essas crianças grandonas pode até ser “eu sou mais eu”, mas o significado interno é apenas uma pergunta: “quem, afinal, sou eu?” E como a resposta para essa pergunta vai demorar alguns anos para chegar, fica a dúvida e a intensa inadequação que se traduz em atitudes batizadas pelos adultos como aborrecentes. Aquele almoço na casa da vovó, que antes era um programão, por exemplo, vira uma chatice, uma obrigação e muitas vezes uma imposição dos pais. De repente o pré-adolescente não se sente mais inserido na família, não enxerga um lugar para ele. Só consegue ver que havia um lugar, que ele agora não quer mais e que até pode haver algum espaço a ser ocupado mais tarde. Algo entre um carrinho de brinquedo e um de verdade, um tempo que só o tempo, com afeto, pode ajudar a atenuar. “Assim como a criança menor necessita de continência, o pré-adolescente precisa cumprir leis e regras, mas a diferença é que para o pré-adolescente o “não” pode se transformar em uma negação à vida”, diz a psicóloga Orieta Dalmonechi, da Universidade Federal do Espírito Santo.. Ela explica a necessidade de que os pais, mesmo temendo a violência típica de nossa época, liberem os filhos para pequenas atitudes como tomar um ônibus para ir à escola, dormir na casa de amigos ou simplesmente ficar em casa no domingão em que a família se reúne na casa da avó. “Os pais devem aprender a lidar com a própria frustração de ver seus pequenos crescidos; só assim vão poder deixar que os filhos aprendam a lidar com as frustrações típicas dessa idade”, explica Orieta. O problema não está em sair da repressão e da rigidez e entrar na liberação, fabricadora dos eternos adolescentes que ficam morando com os pais até os 30 anos ou mais. As leis e regras precisam ser cumpridas, mas não à base de superproteção. “Quando os pais superprotegem, aí sim o grito do “eu sou mais eu” é um grito idealizado, um mundo de faz- de-conta, sempre salvaguardado pelos pais” diz Dalmonechi. O pré-adolescente que cumpre regras, que tem deveres e responsabilidades baseadas no afeto desenvolvido desde pequeno vai passar essa fase, não sem sofrimento e sem frustração, mas preparando-se para frustrações maiores e fortalecido pela idéia de que menos é mais, quase sempre. Para os pais vale a mesma regra do menos que é mais. Se eles deixam o filho em casa, não é preciso deixar também uma comida preparada, a casa toda arrumadinha, é hora de reafirmar certas leis que deverão ser cumpridas enquanto estiverem fora; afinal a casa é dos pais, eles são os donos e cabe aos filhos, desde cedo aprender que na vida nada chega de graça e sem esforço. Com uma tarefa aqui e outra ali e uma liberdade merecida, nenhum pré-adolescente vai estufar o peito gritando “eu sou mais eu”. Em contrapartida a pergunta interna, a derradeira “quem sou eu? ”, fica também menos intensa, afinal é alguém importante o bastante para usufruir de liberdade com leis. Matéria publicada originalmente na revista Mãe com pseudônimo de Eugênia Alfaya

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Saindo das fraldas

Cláudia Rodrigues
Aprender a colocar é fácil. Em poucas semanas as mamães já estão cheias de tarimba para trocar as fraldas dos bebês. A tarefa mais difícil é justamente na hora de tirar as fraldas. O treinamento precoce ou tardio pode trazer problemas emocionais para a criança, que só aparecerão mais tarde. Mas não é só a fase do treinamento que pode trazer distúrbios; também a forma como é feita a retirada das fraldas. O hiperinvestimento, como “enfeitar”demais a retirada, fazendo um verdadeiro circo de “tchauzinho para o cocô”, por exemplo, pode ser tão prejudicial como a bastante propagada idéia de que o cocô é uma sujeira do nosso corpo e precisamos nos livrar dela. A idéia da sujeira, o excesso de zelo e o pavor de lidar com as cacas do bebê são problemas mal-resolvidos dos adultos que, segundo pesquisas da psicologia nos últimos 50 anos, estão justamente ligados à fase anal, do treinamento esfincteriano. Por mais que os adultos entendam do assunto, a criança necessita experienciar, sem rótulos, a tão esquisita saída de algo, que até então ignorava, de seu corpo. Por isso a solução mais apropriada é observar o desenvolvimento do bebê em relação ao seu corpo. A retirada das fraldas necessita, por parte de quem o faz, mais recepção do que atitude. Essas e outras informações foram dadas pela psicopedagoga Cristina Cypreste que também traz dicas práticas de brincadeiras que podem ser feitas para ajudar os bebês nessa fase de desenvolvimento. Liberdade para sentir- O treinamento só deve começar quando a criança tiver total controle sobre os músculos esfincterianos. E é muito fácil observar quando o bebê começa a controlar os esfíncteres. Quando isso acontece ele desce e sobe escadas sem ajuda e em pé. Antes disso é cedo, prematuro para introduzir penico ou vaso. O ideal é observar, receber as necessidades da criança e ver como se comporta. A maioria dos bebês se sente desconfortável depois de sujar as fraldas e demonstra isso com choramingos. Quando a mãe está atenta, desde a mais tenra idade, para trocar a criança cada vez que ela se suja, já está investindo na descoberta que o bebê irá fazer sobre a questão. As fraldas de pano, nesse caso, são mais úteis e práticas porque não permitem longos períodos sem troca. Uma dica é usar fraldas de pano em casa, durante o dia e, no verão, permitir que a criança fique sem fraldas, ao ar livre, podendo entrar em contato mais profundo com seu próprio corpo e a maneira como funciona. Qualquer bebê, mesmo aos oito, nove meses, tem imenso prazer em ficar sem fraldas e essa é a melhor maneira para se iniciar uma educação gradativa que respeita o amadurecimento somático e emocional da criança. Respeitando o tempo do bebê- Por volta dos dezoito meses, a maioria dos bebês já começa a descobrir que coco e xixi existem e saem de dentro dele. Mesmo com fralda são capazes de dar uma paradinha estratégica para se deliciar com esse prazer. Nesse momento, cabe às mães usar a discrição e não o hiperinvestimento. O hiperinvestimento, dependendo da criança, pode dar resultado oposto ao esperado. Assim como algumas crianças fazem birra para comer ao perceber a ansiedade da mãe em alimentá-las, o mesmo pode ocorrer no caso do treinamento e o bebê pode entrar em um processo de segurar ou soltar o coco para monopolizar a atenção da mãe. O melhor a fazer é esperar a criança terminar o seu feito, deixar que fique alguns momento desconfortável, nada que ultrapasse quinze, vinte minutos e, então, trocar a fralda. O bebê está descobrindo seu corpo, tem um tempo todo particular e, quanto menos invadido for, mais harmônico será seu amadurecimento. Atrasar ou adiantar o processo, uma faca de dois gumes-
Antigamente o mais comum era apressar os bebês para sair das fraldas. Como lavar fraldas dá mais trabalho do que simplesmente jogar fora, as mamães não viam a hora de treinar seus bebês. Bebês de oito, nove meses eram obrigados a ficar no penico por longos minutos sem sequer imaginar o que aquilo significava. Era uma invasão certamente, uma retirada precoce das fraldas e, durante anos, foi prato cheio para a psicanálise estudar as conseqüências dessas causas nos caráteres obsessivos e masoquistas, ambos referentes a essa importante fase do desenvolvimento da personalidade, a fase anal. Nessa fase a criança vive a necessidade de adquirir uma certa autonomia e é justamente a capacidade de controlar suas necessidades a mais importante das ferramentas nessa busca da independência. Quando a mãe ou a pessoa que cuida da criança apressa o momento da retirada das fraldas há um roubo dessa autonomia. Da mesma forma, o atraso na educação mantém os adultos com o controle do corpo da criança nas mãos. A pressa dos dias modernos, curiosamente, trouxe uma tendência à lentidão para encarar o processo natural de sair das fraldas. E não são poucas as crianças normais que chegam aos três , quatro, cinco anos usando fraldas. Motivo: falta de tempo para acompanhar a necessidade do bebê de ficar sem fraldas, sujar o chão, entrar em contato com o desconforto de uma fralda molhada, sentir, de fato, que é bom ficar sequinho. Essa retirada tardia das fraldas, quando a criança é normal e não apresenta outros distúrbios, tem sido encarada com um excesso de naturalidade por ser mais prática para os adultos. Acontece que para a criança que se acostumou a ficar de fraldas em tempo integral é mais difícil aprender a se controlar, tornando voluntário o desejo involuntário de fazer as necessidades. Mais uma vez, a descartável, o tempo todo, surge como vilã do processo; se o bebê não sente desconforto e a mamãe não precisa ficar limpando xixi no chão, é mais fácil deixar acontecer, não retirar a fralda, ir adiando o processo. Ainda não deu tempo de os estudiosos fazerem pesquisas sobre as conseqüências desse descaso ao amadurecimento esfincteriano dos bebês, mas não é difícil imaginar o quanto se sente feliz a criança que sai das fraldas. Sair das fraldas é uma conquista, um passo a mais rumo a independência, um direito, afinal. Campo de batalha ou trabalho natural- Tirar as fraldas e obter sucesso com isso exige bom humor, disponibilidade emocional e vontade de educar a criança. O bebê, definitivamente, vai ter muito mais dificuldade para aprender a controlar a saída do xixi e do coco, mesmo que esteja somaticamente amadurecido, quando é acostumado a ficar 100% do seu dia com fraldas absolutamente secas e confortáveis. Algumas mamães, entretanto, têm verdadeiro pavor de olhar uma mancha de xixi no chão, um coco atrás da porta e, nesses casos, o ideal seria que o adulto mergulhasse mais profundamente nos seus problemas emocionais, pois a naturalidade e eficiência para limpar uma criança ou a caca que ela fez são fundamentais para não dramatizar a existência natural dessa transição, até porque um processo feito aos trancos e barrancos tende a se complicar e atrasar, e não o contrário. Aliás, como tudo na vida. Do começo ao fim do processo- Assim que começa a andar, o bebê já tem um certo controle sobre os músculos esfincterianos e, não raro, costuma dar dicas de que não gosta de usar fraldas. Faz isso fugindo da mãe, tentando esconder-se e, às vezes, até chorando. Quando isso acontece já está chegando a hora de deixar o bebê por períodos mais longos sem fraldas, abrindo escuta e recepção para o desejo do bebê. É claro que não se pode manter um bebê de um ano sem fraldas o dia inteiro dentro de um apartamento, mas estabelecer um horário e mantê-lo é uma boa dica para permitir que, mesmo vivendo em apartamento, ele adquira os primeiros contatos com a autonomia sobre seu corpo. Provavelmente ele vai fazer suas necessidades no chão, em algum canto da casa e, como a mãe já estava esperando por isso, pode agir naturalmente, tanto para limpar o chão quanto para higienizar o bebê. De manhã- Alguns bebês, por volta de um ano, simplesmente apresentam as fraldas secas ao amanhecer e, quando isso acontece, a mãe ou pessoa que cuida do bebê estará invadindo a criança caso insista em colocar fraldas à noite. O mais comum é que os adultos aproveitem a fralda seca da manhã e esperem o bebê fazer xixi para trocar, mas o ideal seria deixá-lo sem fraldas por alguns minutos logo depois que acorda pois o xixi virá espontaneamente em poucos minutos e é uma boa oportunidade para que o pequeno descubra o funcionamento do seu corpo. O velho e bom colchão forrado para o caso de “acidentes” é uma providência que respeita a criança e a lida da casa. Caso se insista na “segurança” da fralda, corre-se o risco de a criança regredir de seu aprendizado espontâneo e cristalizar o comportamento de urinar à noite. Verão, época ideal- Entre 18 e 30 meses a maioria dos bebês está apta para o treinamento e cabe aos adultos que cuidam deles encontrar um bom tempo no calendário para ajudá-los a sair das fraldas. Dependendo da paciência, perseverança e compromisso emocional de quem educa, esse tempo pode ser abreviado ou prolongado, ser um tempo feliz ou causador de distúrbios emocionais. De maneira geral um verão inteiro livre das fraldas é suficiente para os pequenos ficarem craques na arte de controlar aquela vontadezinha que, muitas vezes, insiste em aparecer bem na hora de uma bricadeira muito gostosa. Nessa hora a criança demonstra que já tem um certo controle e se espreme, dá pulinhos ou segura os genitais. Com bom humor, sempre fundamental para a empreitada ser um sucesso, cabe ao adulto responsável lembrar a criança e acompanhá-la na façanha. Algumas crianças não gostam do banheiro; outras não querem companhia ou exigem-na com veemência, e há ainda aquelas criadas mais livremente em quintais que têm um prazer especial em fazer na terra. Essas preferências, caso-a-caso, devem ser respeitadas, na medida do possível, pelos adultos. Só não vale um campo de batalha pois as fantasias dos pequenos são realidade para eles, por mais que nos pareçam esdrúxulas. O tempo levará as próprias crianças a imitar os pais quando estiverem maiorzinhas. Deixando o xixi acontecer- Muitas vezes as mamães não percebem as dicas da criança ou a criança simplesmente não dá dicas e então a melhor pedida é uma coleção de shorts que devem ser trocados ao longo do dia, sem maiores neuras. De tanto fazer, ver e sentir, as crianças acabam aprendendo a controlar suas necessidades. O importante é que não se vincule esse prazer à sujeira, punições, resmungos ou excesso de satisfação, o que caracteriza uma máscara, já que não é a melhor coisa do mundo limpar xixis pela casa. E crianças são especialmente sensíveis a máscaras e circos em torno delas, sendo capazes de transformar um período natural de aprendizado em uma verdadeira façanha para os adultos que não as levam a sério. Brincadeiras que ajudam- O processo de aprendizado de sair das fraldas está ligado à separação. A criança vai aprender a se separar de algo que até então não percebia como separado dela. É aí que entram brincadeiras facilitadoras do processo, sempre levando em consideração o tempo e a verdadeira disponibilidade emocional de se estar presente integralmente nesses momentos. Uma batelada de brincadeiras com o objetivo de acertar na mosca pode não dar resultado algum. Vale o bom senso e o desejo de ajudar o pequeno em vez de invadi-lo. Água que vai e que vem- Sentado em frente à criança com dois baldinhos, um cheio e um vazio, mostre a ela como a água é mágica e vai de um balde a outro. Se virar, virou. Se ela estiver atenta busque mais água e repita quantas vezes ela desejar. Pare quando a criança não estiver mais “encantada”. Pedrinhas que vão e vêm- Da mesma forma que fez com água, faça com pedrinhas ou pequenas conchas, sempre lembrando-a de que não pode colocar na boca, só tocar e observar. Amassa que rola- A argila e o barro ou a areia da praia molhada devem ser manuseadas pela criança. Enquanto ela se diverte, molde pequenas e grandes bolas, use a imaginação, e depois faça-as rolar em um terreno com declive. Observe a atitude da criança e respeite. Algumas tentarão sair para buscar, outras ficarão irritadas e algumas exigirão que você busque. Brinque enquanto houver prazer para ambas as partes. Nas brincadeiras o que mais vale é que haja sintonia, vontade real de brincar e não apenas sentimentos de “obrigação”. Essas brincadeiras servem para mexer com as fantasias de separação e podem tornar o aprendizado de sair das fraldas uma época cheia de boas lembranças; um tempo de evolução. Cláudia Rodrigues * Matéria originalmente publicada no antigo site Obsidiana.

sábado, 21 de novembro de 2009

O bambu é o mestre

Por Cláudia Rodrigues
Michele amamentando Sarah Dizem os chineses que um bom lugar para meditar sobre polêmicas é perto de um bambuzal. Os bambus são difíceis de quebrar, mas não podem ser considerados rígidos porque têm alta flexibilidade. Nas questões de educação, em relação ao parto, à amamentação, ao desmame, uso da chupeta, da mamadeira tanto viceja a ignorância plena quanto a rigidez diante da informação e do conhecimento. Ok, sabemos que o parto natural é o melhor para o bebê e para a mãe. Não é achismo, está comprovado e há uma lista enorme de benefícios, sem contar os malefícios das cirurgias desnecessárias. Somente no RS o índice de morte de crianças até um ano de idade está relacionado à prematuridade em 70% dos casos e a prematuridade, por sua vez, está relacionada ao alto índice de nascimentos por cesariana eletiva. Não dá para mulheres bem-informadas e com conhecimento sobre o assunto deixarem de se mobilizar. Nós, da humanização do parto, ficamos estarrecidas diante de uma colega, uma amiga que diz: “o médico achou melhor marcar a cesárea porque o bebê já está grande, já está pronto”. Por outro lado, não podemos esquecer que pelo menos 15% dos partos em hospitais precisam virar cirurgias salvadoras. Com parteiras esse índice costuma cair bem mais. A parteira Naoli Vinaver, mexicana que migrou para a Florianópolis, tem um índice de 1,4% de necessidade de transferência para hospitais e de maneira geral as parteiras e ginecologistas humanizados têm índices menores de 10%. Fato é que eventualmente a cirurgia, que lidera índices, pode ser necessária. Muito provavelmente não foi seu caso, cara leitora, nem da sua vizinha; não por cordão enrolado, nem por bebê que está pesando muito na barriga às 39 semanas, nem porque a bolsa estourou de manhã e era já noite e o bebê nada de nascer, também não porque você teve uma cesariana antes ou duas. Enfim, os motivos alegados e reconhecidos popularmente como motivos para efetuar uma cesariana, são mixórdias na maior parte dos casos. Entretanto é preciso flexibilizar porque sempre houve e sempre haverá mulheres que não dão conta de parir e que se tivessem nascido em 1900 teriam morrido ou perdido os bebês. Essas precisam de cesariana. Parir é um evento fisiológico, mas faz tempo que vem recebendo agregações culturais e religiosas que engrossam o mingau do psiquismo com os hormônios, que são os desencadeadores e coroadores do parto. A relação com a amamentação passa por associações semelhantes e a coisa foi tão forte aí que para algumas mulheres amamentar causa ojeriza, vergonha, excessos de sentimentos que não conseguem ser depurados e levam ao desmame precoce. E lá vêm os índices alarmantes de desmames abruptos, precoces, introdução de leite artificial ou de outro animal, substituição do peito pela mamadeira, entrada de alimentos na dieta do lactente antes dos seis meses etc. Em cima dos índices e suas causas bizarras, com uma infinidade de informações, vem o conhecimento, a contracultura, o rigor, a rigidez e de repente o delicado e sinuoso movimento da humanização se vê transformado numa trincheira de “mais” mães e “menos” mães, como se as atitudes conscientes de algumas significassem uma superioridade afetiva em relação aos rebentos. Ok, confesso que sou das radicais e trago no currículo da maternidade três partos normais, dois domiciliares, amamentação em livre demanda para bebezinhos e bebezões que já andam e comem, que têm dentes etc. Nunca dei mamadeiras como ritual, meus filhos não tomaram mamadeiras dadas por mim, nunca houve o ritual, mas... Quando meu filho mais velho nasceu ele já tinha uma irmã de 11 anos e quando ele estava com seis meses ela foi passar um mês de férias conosco. Não estava na pauta oferecer mamadeira a ele de forma alguma, eu sabia que líquidos não eram necessários, estava achando ótimo a irmã participar da introdução da banana, das primeiras frutas, mas já no caminho do aeroporto para casa ela desabafou ansiosa: “agora já posso dar uma mamadeira para ele? É meu sonho!” Gelei, expliquei que não era necessário, que líquido ainda seria só do leite do peito, mas depois de três ou quatro dias a observei em frente a uma prateleira de mamadeiras no supermercado; ávida, os olhinhos brilhando, ela não podia entender, a influência cultural dela era forte demais para entender aquela chatice, ela já havia me alcançado copos de água quando ele era recém-nascido, havia ajudado, se esforçado e entendido que antes dos seis meses o bebê não podia comer nada, tomar nada a não ser leite materno, mas aquela revelação no carro derrotava uma fantasia de seis meses Compramos uma pequena e o pai inventou um caldo branco: água de coco com um pouco da melequinha do coco coada no liquidificador. Foi um sucesso, o guri parecia tomar só para contentar a irmã e ela amou isso. No colo do pai ou no meu ele cuspia, no dela era uma diversão, uma brincadeira ocasional. Quando ela foi embora olhávamos para a mamadeira e sentíamos saudade. A vida voltou ao normal, só peito e introdução de comidinhas, ao sete meses ele aprendeu a tomar água de coco no canudinho, mas eu faria tudo de novo, mesmo sabendo dos componentes do plástico das mamadeiras, que na época não se sabia, eu faria tudo outra vez porque foi um momento bambu de ser que todos merecemos. A do meio não tomou mamadeira até perto de 3 anos, quando viu as colegas na escola tomando e pediu uma de presente. Enrolei, mas a avó deu, ela andou um período pela casa, durante a visita da avó, mordendo a borracha, meio de lado, levava para a escola para sentir-se igual às colegas, mas a professora relatou que ela mais levantava para ver como as outras faziam do que tomava o bendito suco. E ela também pediu uma chupeta com bolinhas que giravam dentro e ficava a admirar-se no espelho, sem nunca ter aprendido a chupar; ela preferia o dedo. A caçula brincou com a irmã, outra irmã de 10 anos, de tomar mamadeira. A cultura caseira de não uso da mamadeira esbarrou na cultura familiar com duas priminhas da mesma idade que tomaram mamadeiras e sempre que as primas, que viviam em outro estado, visitavam nossa casa era a folia das mamadeiras. Eu realmente não tive coração para fazer repressão oral dessas brincadeiras e fiz vista grossa para as trocas de chupetas, esquecimentos de chupetas pela casa, fusão de melecas e afins. Com licença amadas jaqueiras, mas vou deitar à sombra do bambuzal.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Chá de Patronesses

Por Cláudia Rodrigues

Depois de 20 anos casada e migrando de uma metrópole para outra, marido e eu entramos na rede dos que buscam a qualidade de vida no interior. Escolhemos um lugarejo magnífico, Osório, cercado de lagoas, localizado ao pé de um lindo morro, o da Borússia. Pertinho da cidade, de 40 mil habitantes, há cachoeiras, cascatas e trilhas na mata. Fica a não mais do que 15 minutos do litoral. Tá, é o litoral do RS, mas esse dado pesou na escolha, adoramos um banho de mar fácil durante a temporada de verão.

Sim, tem ar puro, sim tem silêncio para escrever, o vizinho é boa gente, dá bom dia, até o cachorro do vizinho dá bom dia, acorda-se com passarinhos, é quase como viver no mato, mas como há filhos no meio, há escolas e com escolas vem a necessidade de conviver em sociedade. De maneira geral assim no meio da rua, para serviços, tudo anda bem. Com bom humor, alegria e alguma tolerância tudo flui, mas como nada é perfeito, tenho tido problemas para me fazer entender sobre o papel de um Conselho de Pais na escola. Ele existe, mas funciona como um órgão-braço da diretoria e quando se reúne com os pais não é para saber a opinião dos pais e muito menos abrir debates, mas para fazer comunicados. Fico irritada e sou considerada louca de pedra. Ali entende-se que quem gosta do estilo fica na escola, quem não gosta deve sair e procurar sua turma. Não há outra escola privada na cidade e cada vez que questiono a arbitrariedade das decisões do Conselho de Pais sem escutar os pais, sem votação, cria-se uma situação constrangedora. É como se eu estivesse falando um absurdo ou trazendo algo muito novo e não o gritante e óbvio papel de um Conselho de Pais.

Na última reunião a falta de entendimento chegou a um limite máximo, quando a representante do Conselho de Pais anunciou que haveria um Chá de Patronesses na escola. Não é obrigatório, participa quem quer e se auto-exclui quem bem entender. O objetivo é aproximar as mães umas das outras, é um evento social, sem fins lucrativos e presume-se que não haverá sobras de verba.

Muito comum no interior do Rio Grande do Sul, esse evento, Chá de Patronesses era originalmente organizado por clubes, escolas, igrejas e instituições como Rotary e Lions para arrecadar fundos sociais. Hoje popularizou-se tanto que é feito apenas para o desfrute das sibaritas patronesses; as verbas arrecadadas servem para melhorar o layout da festa. Acompanha o evento um desfile de modas apresentando as lojas de roupas das melhores casas do ramo na cidade. Entendam, é uma festa do interior, mas não aquela cantada pela Gal nos anos 1980, nada a ver com aquela fogueira que ardia a vida inteira.

Aqui é incendiada a vaidade das crianças que desfilam e das mães que se candidatam a ser patronesses. A patronesse deve comprar uma mesa para 10 lugares, vender os ingressos e oferecer um chá com iguarias apetitosas numa mesa bem posta.

Durante o evento falam-se amenidades, nada que levante alguma discussão mais picante. Patronesses e convidadas destestam debates quentes, recusam-se a saber o que quer dizer o termo "thinking outside the box". As crianças e adolescentes desfilam encantando as mães nessa ode ao comércio local e fica tudo por isso mesmo, sem maldade, sem segundas intenções, sem conluios, é apenas um hábito local que se repete de geração para geração desde priscas Eras e já sem a significação que havia no passado.

Sociedade de consumo X violência não são temas que se possa linkar. Se alguma alma depenada tiver a má idéia de colocar um assunto desses numa das mesas de alguma patronesse vai causar desconforto ainda maior do que reivindicar que o Conselho de Pais seja um órgão representativo dos pais junto à diretoria pedagógica.

Mas o céu é azul, a chuva não é ácida, a mata continua fechada, quase virgem, pouco visitada pelos nativos da cidade. A cena de um grupo de pais e professores socializando com as crianças em caminhadas, piqueniques, atividades que sejam ao mesmo tempo lúdicas, culturais e pedagógicas é uma cena imaginária, bastante improvável. Mas que coisa de bicho-grilo sem noção heim!?

Imaginem só que loucura caminhar montanha acima para chegar a uma cachoeira e entender noções de física admirando a queda d´água!

Imaginem que cena sem graça juntar um monte de crianças para observar o trabalho de um formigueiro!

E um pai biólogo no meio falando sobre comportamento de animais, que coisa nada a ver com socialização ideal, só porque promove raciocínio, desenvolvimento cognitivo, emocional e motor, tudo junto!

Mas que imaginação fértil, que trabalheira fazer piqueniques, caminhadas e observar o efeito da natureza na criançada.

Isso tudo é demais, bom mesmo é fartar-se no chá de patronesses, ficar gritando para as crianças não correrem após o desfile acalmando-as com estímulos orais a perder de vista: "vem, senta aqui menino, come um bolo e vê se te acalma e silencia um pouco!"