domingo, 1 de março de 2015

Dos avós que fazem diferença afetiva entre os netos

Para minha amiga Suzana Maringoni, que está iniciando essa jortudo





Cláudia Rodrigues

É um assunto difícil de abordar, espécie de alienação parental às avessas praticada pelos avós que se sentem mais livres para amar e desamar. Estão na deles, muitas vezes levam para a terceira geração os problemas que tiveram com seus filhos. Alguns reparam, se foram mais distantes do filho X, tratam de ser mais próximos dos filhos do filho X, descontando nos filhos dos outros filhos o excesso que julgaram ter dado.

Há a repetição da repetição, surge em frases como "fulano é igual ao pai dele, fulana é mesmo como a mãe dela". A criança que veio ao mundo e não tem culpa nem responsabilidade pelos atos de seus antepassados leva a conta, sendo mimada ou deixada de lado de programas, abraços, afetos, convites, conversas, brincadeiras. O jeito mais raso de fazer isso é por meio das comparações, infelizmente é bem comum, muitas vezes feito na frente das crianças. 




A coisa toda pode se dar com ou sem a justiça por meio da distribuição de matéria. Dinheiro, de qualquer maneira, não é o que mais importa, embora muitas pessoas hoje confundam dar coisas, comprar coisas, como afeto. Um tipo de afeto o que é material contém, isso é um outro recorte, mas vamos ficar apenas no universo afetivo mesmo, que é mais difícil e costuma ser o pior elaborado.


Os pais de crianças que sofrem a falta de proximidade afetiva com os avós costumam sofrer, mas ficam sem saber o que fazer, o que dizer, afinal sentimento não se reivindica. Vai crescendo um buraco e afinal se eles resolvem pontuar, cobrar de alguma forma, quando a coisa extrapola e não cabem em si de dor, são facilmente chamados de ciumentos. "Ora, você sempre foi ciumento, eu gosto de todos iguais, o que dou para um dou para outro. Ah, mas esse mora mais perto, é uma questão de proximidade geográfica." 

O sofrimento das crianças é silencioso. Está no olhar triste, num jeito que pode parecer sem graça, na sensação de inadequação, na recusa a estar com os avós ou mesmo em atos de rebeldia. De qualquer modo qualquer coisa que a criança manifeste em relação a essa experiência, a culpa será dela ou dos pais. Ela fica sem saída, ela não pode cobrar amor, atenção, cuidados daquele avó ou avó que não olha para ela, que não a enxerga, que fala sobre ela com seus pais mas não a fita nos olhos. "Ah fulano pode ir lá em casa, né, qualquer dia desses..." "Ah apareceu a sumida, nossa, quanto tempo!"

Enquanto são muito pequenas as crianças sentem a rejeição, o pouco caso, a falta de vínculo afetivo com os avós, mas não são capazes de elaborar. Sentem-se menos em relação aos netos favoritos, tendem a achar que são culpadas por isso, as mais extrovertidas tentam imitar os primos ou irmãos, as mais reservadas simplesmente se fecham cada vez mais em si mesmas. Conforme vão adquirindo idade e consciência, a dor elaborada vai tomando novas formas, afinal elas não "precisam" mais daquele amor que nunca veio. Ainda assim a tendência é culpabilizar os adolescentes para validar o que foi feito, o que não foi vivido, o que não foi sentido.

São muitas as desculpas e muitas culpas mal-resolvidas, fruto da dor da falta de contato ou de excessos de contatos superficiais que ultrapassam gerações. Quando um dos filhos é nitidamente o "predileto" talvez seja ainda mais difícil do que viver prediletos de um irmão ou irmã.

Os pais mais sensíveis tendem a se afastar do convívio familiar, buscando na família do cônjuge o preenchimento do buraco emocional. Alguns não têm sorte, há crianças que só têm um par de avós e passam por isso. Entre tantas tristezas maiores que existem no mundo com as crianças reside essa, pouco debatida. Talvez porque o tempo de sermos avós não seja encarado como um tempo de continuar evoluindo, mas como um tempo que resta, que sobra. Talvez porque os avós sejam pessoas mais velhas que precisam de uma espécie de superproteção ao que sentem e fazem, como se não pudessem mais ser responsabilizados pelo que sentem e fazem.

A sociedade sempre pode melhorar, pais conscientes e responsáveis por suas responsabilidades emocionais podem virar essa chave quando chegar o momento de virarem avós. A responsabilidade afetiva em relação às crianças não termina quando nossos filhos viram adultos. Ela continua por meio dos netos e se por um lado parece menor, ela se torna maior de acordo com a leitura e o aprofundamento da compreensão de cada uma das histórias que vivemos com cada um de nossos filhos. E mais: ela passa pela questão de gênero, já que na nossa sociedade os avós genitores de mães costumam ser mais próximos dos netos e netas filhos de suas filhas. Aí também sobram desculpas para as incapacidades de amar, "a nora não traz as crianças, ela que quis assim..." 

Tem muito caroço nesse angu dos afetos familiares. Haja coração e cérebro para lidar com a neurose humana e seus becos escuros. Fica aberto o debate para quem vive isso com seus filhos ou viveu isso com os próprios avós.


19 comentários:

  1. Escreveu tudo o que meu coração não consegue expressar... Parabéns pelo Texto....

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  2. Me sinto exatamente assim, dói ver seu filho ser notoriamente deixado de lado, ou culpabilizado por tudo, por causa do outro neto!

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  3. Estou vivendo exatamente isso agora com
    Minha filha e é uma dor horrorosa ver isso tentei achar que era da minha cabeça até os próprios familiares comentarem a situação

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  4. É muito triste minha Mae nunca me deu valor é hoje trata minha filha como sempre me tratou doi muito isso.

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  5. É muito triste minha Mae nunca me deu valor é hoje trata minha filha como sempre me tratou doi muito isso.

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  6. Cada pontuação do texto me trouxe uma cena vivida à cabeça. Sou a neta preterida desde bebê, mas isto hoje não me afeta tanto quanto já afetou. Agora, vejo meu filho passando pelo mesmo e tudo o que quero é poupá-lo da dor. Sofro em silêncio, deixo as lágrimas rolarem sempre que possível, mas lembrar da carinha dele ou de sua reação às vivências com a avó (e outros familiares "próximos") é algo que dói muito mais do que posso descrever.

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  7. Incrível isso! Vejo minha mãe que sempre me tratou muito mal, hj tratar meu filho com maior carinho e amor, o que não acontece com a outra neta..filha do meu irmão, curioso, pois deveria até me sentir bem, pois ela trata meu filho bem..mas eu me sinto mal pela minha sobrinha e por essa diferença, já falei com ela várias vezes sobre isso, ela tenta negar ou fica em silêncio..no fundo ela sabe..uma realidade muito infeliz, fui uma criança rejeitada pela minha mãe..e agora vejo ela fazer um comportamento muito semelhante com a neta e muito avesso com o neto...como era na minha infância, eu e meus irmãos..parece repetiçao..predileçao..bizarro!

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    1. Ta parecendo um problema dela com as meninas. Deve estar copiando um padrão aprendido. Ela se dava bem com a mãe?

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  8. Passo isso frequentemente com minha sogra e a família do meu marido acha que ela é uma doçura mas sempre ela apronta uma...minha filha já está percebendo e meu marido sofre demais...mas não tem coragem pra fazer nada.

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    1. Passo pela mesma situação.

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    2. Passo pela mesma situação.

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    3. Passo pela mesma situação

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    4. passo pela mesma situação, tenho 2 filhos uma de 9 anos e um de 3 anos,minha sogra e os tios presenteiam constantemente meu menino de 3 aninhos e deixa de lado minha menina ,ela sofre tanto!! chegou chorando um dia destes,é muita falta de sensibilidade!

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  9. Essas questões colocadas no texto são muito pertinentes, porque são mais comuns do que imaginamos, mas são veladas e escondidas em meio às relações familiares conflituosas, que mantém interesses pessoais e omissões, tais comportamentos são reproduzidos e causam tantos males não só no âmbito individual, por isso mesmo devem ser discutidas, no intuito de firmarmos relações mais saudáveis na nossa sociedade, sem reproduzir tamanha injustiça.

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  10. Nossa... Não soube o que era essa distinção até passar por ela com meu caçula. Ele tem dois anos, tem um irmão de dez por parte do pai, e eu perdi minha mãe há 8 anos, então ele so tem avó paterna... mas é como se não tivesse. Ele deixa muito claro a predileção pelo neto mais velho, muito claro mesmo, ao ponto de se recusar a ficar ou sair com ele quando meu marido pede à ela...Triste viu?! Moramos no mesmo quintal e meu filho pouco vê a avó... pois ela só vive com a porta fechada, justamente para ele não incomoda-la. Hj de manhã ela estava com a porta aberta e ele foi até ela e pediu um biscoito, ela disse que não tinha, passou um tempo e ele passou por la de novo com o pai e pediu outra vez um biscoito e ela novamente negou, mas como o meu enteado tbm estava aqui em ksa, ele foi lá na avó dele, não demorou nem dez minutos e ele voltou... com um pacote de biscoito na mão... justamente o biscoito q meu filho tinha pedido... Fiquei tão triste...

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    1. Nossa mas deve ser muita amargura mesmo, para chegar ao ponto de negar um biscoito a uma criança, que pecado!

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  11. Meo Deosss...parece que vc está contando a minha história... Achei que era somente comigo...Meus sentimentos.. Pq sofro e sei o quanto dói

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  12. Triste realidade!
    Tb convivemos com isso. Para nós pais, quando questionados por nossos filhos... temos que dar desculpas para que não nasça no coração dos nossos filhos o sentimento de desprezo.

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  13. Eu estou passando por isso agora. Perdi meu pai há 5 anos, e logo depois veio minha filha. Recentemente perdi minha mãe. Meu sogro e sogra tem meu enteado de 17 anos como neto mais velho, minha sobrinha de 15 anos e vejo que detestam ela. Curioso é que adoram minha pequena de 5 anos. Mas agora que minha mãe faleceu, estou grávida novamente e eles não gostaram nada da gravidez. Tanto é que meu nunca falaram absolutamente nada a respeito da gravidez, ignoram minha barriga e os assuntos relacionados à gestação.
    Isso dói muito. Muito mesmo, pois sou nova e não tenho mais meus pais como referência de avós para a criança que está por vir. meu sogro é uma pessoa amargurada, mesquinha. Já minha sogra é uma pessoa carinhosa mas já deixou claro, numa conversa no ano passado, que nos dias de hoje é inviável engravidar e "arranjar" mais filhos, pois as coisas não estão fáceis e acaba sobrando pra eles me ajudarem. Então parece que ela se sente traída e sobrecarregada.
    O pior de tudo é que eu e meu esposo trabalhamos muito e precisamos do apoio deles para ficar com as crianças nas férias, ou quando doentes, ou pra receber eles quando chegam da escola.
    Confesso que até ofuscou o brilho desta gravidez, vivo preocupada e com o semblante triste. Era nosso nosso ter duas meninas e estamks alcançando. Acredito que a escolha ainda pertença aos pais, de quantos filhos terão, pós mais que recebam o apoio dos avós.
    Eu trato eles muito bem, compreendo e defendo muitas vezes meu sogro diante da família e dos filhos, pelo fato dele ser tão grosseiro e mesquinho. Entendo que foi a criação que teve mas que é sim uma boa pessoa. E sou muito mais próxima dele e da sogra do que os filhos e a outra cunhada, que nunca aparece na casa deles. Tenho amor e respeito por eles como meus pais. Talvez porisso esteja tão magoada e entristecida com essa situação, mas dói demais saber que sua filha chegará e os únicos avós que terá não se importam com ela.

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