sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A lua e eu

Tia Blanca, irmã do meu avô paterno, foi quem me apresentou à lua no período em que viveu em uma casa vizinha a dos meus pais, em Tapes.
A lua em Tapes, na Lagoa dos Patos, é de fato inspiradora.
É claro que já havia visto várias luas antes dos16 anos, mas com tia Blanca foi diferente.
Talvez por ter sido na fase das cólicas mais fortes, talvez por acaso ou só por ela mesma ter sido uma pessoa tão agradável e intensa.
Buenas, a lua passou a me perseguir. Sempre soube em qualquer lugar do mundo que a lua deveria estar cheia a partir de sensações corporais. Ia confirmar e era certo, já cheia passadinha, quase cheia ou bem na noite mais brilhante nas fases direto ao ponto.
Ela foi se afastando de mim. Aqueles sintomas todos foram sumindo. Agora são sintomas novos que não se relacionam com a lua. O que era direto ao ponto agora é aliviar qualquer dor, evitar o mal e o mau a qualquer custo, diluição da dor e do prazer, que finalmente não se reconhecem mais como oponentes.
O inverno já não faz tão mal, o verão continua sendo uma delícia e as perfeitinhas primavera/outono continuam sendo no ponto. Os calorões são como cabelos brancos, têm vida própria, não se relacionam com a lua, são descargas espontâneas, espasmos. Pelo tempo e intensidade, lembram as contrações de parto. Quando passam há um frio prazeroso, um alívio, recomeço de qualquer coisa nos bons momentos e medo nos maus.
Lua vai, lua vem, fica a dúvida se foi mesmo embora ou está a dissolver-se no corpo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Espaço Flor do Yoga: Inscrições Corporais com Cláudia Rodrigues

Em Porto Alegre, 10 de setembro, Inscrições Corporais para casais- Pai/Mãe- Pai/pai- Mãe/mãe

Espaço Flor do Yoga: Inscrições Corporais com Cláudia Rodrigues: Cumprindo a programação do espaço Flor do Yoga, convidamos casais a participar da Oficina Inscrições Corporais. A oficina Inscriçõe...

domingo, 26 de junho de 2016

Marketing, o Deus da cara de pau

http://www.jornalja.com.br/marketing-o-deus-da-cara-de-pau/

CLÁUDIA RODRIGUES
Essa semana três notícias dadas pela mídia convencional celebraram a total falta de noção ética e social do setor de marketing de instituições públicas e privadas.
Primeiro foi o governo do Rio Grande do Sul que organizou exposição de roupas usadas em local privado, shoppings, para campanha do agasalho, expondo vestuário de inverno doado por personalidades gaúchas. É isso mesmo, 12 peças pregadas em estandes com o histórico sentimental da roupa. Deve ser o que consideram PPP, participação público privada. O slogan seria: “Ricos, comovam-se com a história sentimental de uma roupa”
Coca-cola, Pepsi e AMBEV exibiram nos jornais o press release de bom mocismo barato sobre o relacionamento alimentar abusivo que mantêm com crianças e adolescentes desde a década de 1960. Para quem não sabe a comida industrializada é a principal  responsável por problemas endócrinos, respiratórios, alérgicos e cardiológicos de crianças e adolescentes do país. O fenômeno atinge todas as classes sociais.
As empresas aproveitam o ensejo para anunciar que seu relacionamento abusivo com crianças e adolescentes continuará firme, mas agora, garantem, estão preocupadas com a saúde.
Os pequenos até 12 anos poderão tomar achocolatados repletos de açúcar, carboidratos, gorduras e ínfima porção de cacau. Ou aqueles sucos 100% fruta fermentada e fervida até morrer, também com muito açúcar. Tudo com corante, acidulante, espessantes.
Quem acha essa comida prática e fácil de comprar, consumir e descartar as embalagens, beleza. É só achar bacana o descarte de refrigerantes para os estudantes de até 12 anos.
A partir dos 12 pode tudo e até os 12, tudo menos refrigerantes.
O que mudou?
Nada, a não ser a ideia de que a Coca Cola, Pepsi e  Ambev estão preocupadas com a saúde infanto-juvenil e trabalhando nisso com afinco.
O Conselho Federal de Medicina exibiu-se no noticiário acatando a lei contra a qual vinha brigando: cirurgia cesariana a pedido da gestante somente após 39 semanas, a fim de baixar os níveis alarmantes de prematuridade de bebês no Brasil.
Se a cesariana eletiva fosse o único problema ético e prático da obstetrícia, seria uma boa notícia. Assim como o Brasil serviu de plataforma para a industrialização da alimentação, promovida por nossas relações internacionais, especialmente com os norte-americanos, serviu à indústria da cesariana. Não haveria problema algum se ações e argumentos usados fossem de natureza científica, fisiológica, biológica, psicológica, social, política, histórica e econômica, nessa ordem.
Infelizmente o que temos são argumentos baseados exclusivamente em mercado, consumo e marketing. Não em primeiro lugar, mas onipotente. Onipresente sobre toda e qualquer consideração de problemas e estudos humanos, sob bases exclusivamente econômicas de exploração, mais-valia e com argumentos baseados em crenças para justificar implantação de métodos abusivos, desnecessários e iatrogênicos.
Curioso que essas notícias sejam dadas assim pelo lado curinga da força. Quem trabalha com pesquisas sobre os prejuízos da alimentação industrial, por exemplo, não foi ouvido. Quem trabalha com alimentação limpa, sem veneno e orgânica, ficou fora da pauta, alheio ao mercado.
Labncheira_saudávelAlimentar bem crianças em escolas públicas e privadas deveria ser algo levado de maneira séria, em prol da saúde e do desenvolvimento, ou seja, educação alimentar. Governos e escolas que se preocupassem com educação sobre saúde procurariam manter relações melhores e mais estreitas com produtores locais de comida limpa, orgânica, sem venenos, com fruticultores, apicultores, gente brasileira que vive da terra, investindo em mercado interno e fortalecimento da economia por meio de relação direta entre gestores de educação e produtores de comida saudável e fresca.
A Zero Hora conseguiu entrevistar uma nutricionista que trabalha para duas escolas privadas. A profissional está revoltada com a proibição da venda de refrigerantes para estudantes de menos de 12 anos. “Para a especialista em nutrição infantil Magali Martins, que trabalha com cantinas de duas escolas particulares de Porto Alegre, parar de vender esse tipo de bebida nas escolas não deve mitigar o desejo de consumo. Sou contra a proibição, porque acho que tudo o que é proibido se trona desejável. As crianças não vão comprar na escola, mas vão levar de casa, ou pior, sair da escola para comprar. O pai que dá refrigerante para o filho não vai deixar de dar – avaliou.”
Cada escola tem apenas uma cantina, assim que os refrigerantes estarão lá, expostos. O que muda de fato?
Nada, a não ser a falsa polêmica criada pela Zero Hora ao colocar a fala de uma entrevistada que vai contra toda e qualquer pesquisa sobre alimentação infantil saudável. Especialista de mercado, para o mercado e pelo mercado, tipo opinião de bêbado em final de festa, temos.
O Conselho Federal de Medicina, em vez de assumir que embaça há anos para respeitar o tempo de gestação natural, que pode passar das 40 semanas, segura a bola nas 39 semanas, mas somente para situações em que a gestante pede a cirurgia. Obstetras continuam livres para mentir sobre ser cordão enrolado indicação para cesariana, assim como pressão alta, diabetes ou a famosa “ausência de dilatação”, que na maioria dos casos é apenas dilatação lenta e progressiva, absolutamente fisiológica. Continuarão os obstetras fazendo episiotomias, kristeller e outras manobras condenadas pela OMS.
O que muda de fato?
Nada, a não ser o falso cartaz de que o Conselho Federal de Medicina está atuante por menores índices de nascimentos prematuros, quando o fato é que vinha lutando contra e conseguiu no tapetão uma brecha para algo aviltante que mantinha como rotina.
O governo  do Rio Grande do Sul em vez de investir em relação direta com associações comunitárias e de bairros, fornecendo carros para buscar roupas ou organizando brechós solidários em praças e parques, por exemplo, se dá ao luxo de promover uma exposição chique com roupas usadas em shopping!
Era isso, três exemplos de operações de marketing, de verniz sobre coisas muito mais amplas que já contam com comprovação científica e lógica. Fica assim um sabor no ar de viva a Coca-Cola e nossa cerveja de milho transgênico, viva as gestantes que poderiam passar de 40 semanas, mas agora são levadas a entender que seus bebês de 39 precisam nascer porque depois de 39 pode, é seguro. Viva as celebridades e suas lindas relações sentimentais com o vestuário.
O que mudou de fato?
A cara de pau do marketing, cada vez mais encerada.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

"Calma e paciência que o nenê nasce fácil"



Foto e texto: Cláudia Rodrigues

Keretxu Miri, índia guarani de 77 anos de idade, que habita uma aldeia no Espírito Santo, fala de sua experiência como parteira
No universo civilizado, principalmente no ocidente, o parto virou um mito, tanto para as gestantes quanto para a classe médica. As mulheres estão desaprendendo a parir, a amamentar e cuidar dos filhos e os médicos estão cada vez mais preocupados em ganhar tempo e menos habilidosos para auxiliar um trabalho que é muito mais da parturiente do que deles. Atrás de toda a parafernália técnica da ciência e da medicina, está algo que podemos chamar de burrice emocional. Sabemos pilotar um computador, dirigir carros; podemos comprar berços que balançam sozinhos, chupetas coloridas que distraem os bebês, mas por que afinal temos tanta dificuldade em colocar filhos no mundo? Será que não podemos mesmo unir o saber tecnológico à sabedoria primitiva?
O depoimento de uma índia, que faz partos desde que se conhece por gente, resgata o labirinto em que nos perdemos: o do excesso de pressa e preocupação.
   "O sangue não pode subir e a cabeça ficar quente. A mulher precisa ficar calma e esperar a hora que ela vem" 
    Keretxu Miri não esquece a primeira vez que tomou conhecimento de como as crianças vêm ao mundo. Foi por volta de 1930, em algum lugar entre o Rio Grande do Sul e o Espírito Santo. Os índios Guarani fizeram, a pé, o trajeto entre os dois estados, em busca da terra prometida. Levaram muitos anos para chegar a Santa Cruz, no Espírito Santo, o local que hoje habitam. Durante o percurso não foram poucos os partos. "Lembro bem quando meu pai avisou que teríamos que parar porque minha mãe ia ganhar nenê", conta Keretxu.
    Era noite alta, mas quem já estava dormindo acordou para ajudar. O pai de Keretxu fez um 'rancho de palha de pindó' - palmeira doce - em volta de uma árvore para proteger mãe e filho do frio. "Todos os índios foram cuidar da floresta para não deixar nada de ruim acontecer com a minha mãe e o nenê, que nasceu antes do sol raiar". A tribo ficou acampada três dias e depois seguiu em frente com a mãe de Keretxu carregando, à moda indígena, a pequena Euá.
    Naqueles anos 30, a tribo andava por caminhos, estradas, mas também no meio da mata, perto das cachoeiras, procurando a terra prometida. Sempre havia algum português, italiano, alemão ou japonês  que já era dono das terras.  No meio do caminho chegaram a achar que a terra prometida era em Santos, São Paulo, onde viveram seis anos.  "Era bonito lá em Santos, mas os brancos queriam briga de novo, como no Rio Grande, e então seguimos caminho", revela Keretxu Miri, que não entende, depois de 77 anos de vida, porque os brancos brigam tanto para tirar o ouro da terra. Ela fala que Inhanderu - Deus - é justo com todos. "Inhanderu ajudou o homem branco e ajudou o índio, e fez a Terra para que todos  os viventes pudessem viver aqui, mas Inhanderu não gosta de briga; briga faz mal, faz adoecer, então índio vai embora, mas vai em paz, mesmo nas mãos de Juruá - os brancos".
        Um galo cantou, uma criança chorou e Keretxu Miri ficou silenciosa por longos minutos, antes de voltarmos ao nosso assunto; os partos. O galo pulou de cima da mesa, a criança ganhou o colo da mãe  e um raio de sol atingiu os olhos de Keretxu Miri. Ela me olhou e disse:  "A moça quer saber de parto, mas parto não tem segredo, não posso mentir, mas também o que é sagrado é sagrado", disse com simplicidade.
        Ela conta que sagrado é o getapaãurá, a tesoura de madeira que corta o cordão umbilical e também as ervas (chás calmantes e levemente anestésicos) que acalmam a mulher para o parto. Nada disso pode ser filmado ou fotografado, mas Keretxu conta alguns dos 'segredos'. Detalhe: ela sempre faz questão de, entre uma e outra informação, pontuar que só se aprende vendo, observando e pensando antes de fazer. "O pensamento é muito importante e olhar com os olhos. Não dá para contar, é simples, é bom, não é problema receber o nenê", revela com sinceridade, os olhos brilhando, a expressão sorridente e calma. Receber o nenê, como diz a velha parteira, é uma das maiores dificuldades no mundo civilizado, tanto em função do tempo, quanto por deficiência de escola, já que nossos médicos não estudam psicologia e entendem pouco de uma das coisas que parteiras como Keretxu mais entendem: o universo emocional, que é inexoravelmente primitivo. Índias ou brancas, amarelas ou negras; na hora do parto a mulher vira uma leoa, um bicho que dá conta de "se livrar da dor" expelindo o bebê. Caso contrário, é cirurgia na certa.
        SEGREDOS -  Apesar de afirmar convicta que o parto não tem segredo, Keretxu explica que o 'nervoso' da mãe e até do pai pode atrasar o momento final do parto, a hora da expulsão. "Quando a mãe fica nervosa, o sangue sobe para a cabeça e o nenê não vem". Mal sabe ela que esta afirmação contém mais ciência do que ela imagina. O Dr. Elsworth Baker, americano que trabalha com gestantes ocidentais há mais de vinte anos, revela no livro O Labirinto Humano, que "quando a parturiente enrijece o queixo, recolhe os ombros, segura os punhos e a respiração, isso a faz apertar o soalho pélvico, o fluxo sangüíneo fica preso na metade superior do corpo e isso dificulta a descida do bebê". Segundo o médico, a tensão e a ansiedade excessiva na mulher, que não se sente capaz de parir, podem elevar a níveis alarmantes os batimentos cardíacos do feto, o que acabará exigindo uma intervenção cirúrgica, a menos que mãe seja acalmada em suas preocupações e estimulada a se entregar para a situação que se apresenta, relaxando e recebendo as informações enviadas pelo seu próprio corpo.
      Keretxu Miri, que não sabe contar com precisão quantos partos fez na vida, afirma pacientemente que existem poucas providências a ser tomadas quando inicia o trabalho de parto. "Quando a mulher percebe que está chegando a hora, só precisa falar com Nhanderu e continuar normal, trabalhar um pouco e esperar com paciência que o nenê vem".  Keretxu fala também que se o pai ajuda em casa nesse dia, preparando a comida, limpando e arrumando, isso ajuda a mulher a ficar calma, mas se o pai está nervoso é mau sinal. "Quando o pai e a mãe estão em briga o espírito da criança quer fugir e ela pode enfraquecer e morrer dentro da barriga ou depois de nascida", revela com uma sabedoria que pode assustar os brancos mais desavisados.
        A velha índia, anciã da tribo Tekoa Porã, fala com simplicidade, sem qualquer traço de orgulho, que nunca teve problemas com os partos que fez. "Sei de ouvir falar. Minha mãe contava que o principal do parto era acalmar a mãe para o nenê poder sair. Ela já tinha visto mãe morrer e criança também por causa do nervoso" conta, sem tentar esconder a resignação diante da vida e depois acrescenta: "Meus olhos nunca viram nenhuma mãe e nenhuma criança morrer de parto". Eu pergunto se é sorte, ela responde que não, que é Nhanderu que a ensina a acalmar as mulheres que precisam.
       Depois explica que algumas índias têm medo e por isso vão ganhar seus bebês nos hospitais. "Acho que cada um faz a sua escolha, se a pessoa tem um medo que eu não consigo acalmar, não vou usar a força, deixo na vontade dela", conta, sublinhando que nenhuma das mães e das crianças que atendeu precisou ir para o hospital. "Existem mulheres que querem fazer coisa errada na hora do parto e isso pode atrapalhar para o nenê sair", afirma, explicando que as coisas erradas para o dia do parto são comer, falar demais, não sentir e não pensar. "Quando a mulher fica assim, ela não fala com Nhanderu, fica sem paz no coração e a cabeça esquenta" pontua. O Dr. Hélio Bergo, obstetra e homeopata, especialista em partos naturais, aconselha suas pacientes a ficarem com elas mesmas. "Durante o trabalho de parto é importante que a mulher preste atenção aos ritmos do corpo ao invés de fugir assustada para uma solução externa", afirma, endossando a sabedoria primitiva da parteira.
        O DIA 'D' - No dia de um parto, Keretxu Miri fica com Nhanderu. "Eu rezo, peço para Nhanderu proteger aquela mãe e aquela criança e Nhanderu me ajuda", relata tranqüila. Pergunto se ela conhece manobras para partos complicados e ela diz que não há nada complicado, que é só observar. "Se a mulher está muito nervosa a gente faz um chá. O bom é o caaminí ou então o capíía - chás com propriedades calmantes - e é importante que ela não coma nada de açúcar e nada de sal. O chá do mato amarguinho e mais nada, recomenda. Para acalmar é preciso também conversar, aconselhar e é isso também que Keretxu Miri faz. “Eu vou lá e falo com calma, que é assim mesmo, que não dá para fugir e então a pessoa se acalma e o nenê vem", conta, sem o menor estrelismo.
       Ela explica que, para facilitar o trabalho de parto, é bom ficar sentada ou agachada segurando alguma coisa bem firme no chão e que não adianta ficar fugindo, não querendo passar por aquilo. "Mas tem mulheres que preferem deitar na cama para ganhar os bebês. Não tem problema, a pessoa é que escolhe como se sente melhor" pondera, desmistificando a idéia de que toda a índia dá à luz agachada.
       Depois que o bebê consegue girar e sair, é hora de amarrar o cordão com uma linha feita de algodão, fabricada na aldeia e depois é a vez de cortá-lo, com o getapaãurá, uma tesoura de madeira, também feita pela tribo. "Tudo tem que estar bem limpinho", ressalta.
        Os primeiros meses, principalmente os três primeiros depois que a criança nasce, segundo Keretxu Miri, devem ser de muito cuidado e a mulher não deve comer carne de galinha, de boi e nem de peixe. "Só mais a canjiquinha cozida, bem leve e com bastante caldo até o umbiguinho cair, depois pode voltar a comer, mas sem exagero nos primeiros meses", aconselha para evitar cólicas ao bebê, mais uma vez evidenciando que o segredo das índias para conviver bem com a gravidez, com o parto e a criação dos filhos é calma, muita calma.
        Aí está. Palavra de índia que já pariu muitos filhos e já ajudou a nascer outros tantos. Em tempos de pressa, providências e precauções, urge a necessidade da palavra de uma especialista, de uma doutora do pensamento que sente, do sentimento que pensa. 
Unindo saberes 
Não somos índias, não passamos boa parte do dia acocoradas na beira do rio lavando roupas, não plantamos mais e nossa vida é mesmo apressada e cheia de estresse. Estamos então condenadas a colocar nossos filhos no mundo somente através de intervenções cirúrgicas?
É claro que não. As japonesas modernas, as chinesas e as européias do norte também trabalham o dia inteiro, vivem sob estresse e mesmo assim conseguem parir a maioria dos filhotes sem maiores neuras. O que elas têm que nós brasileiras, campeãs mundiais de cesarianas, não temos?
Várias coisas. Em primeiro lugar, apoio da sociedade médica. No Brasil a exceção à regra é o parto normal e não a cirurgia, mas é sempre bom lembrar que o velho ditado que afirma que quando um não quer dois não fazem, é muito válido.
     A mulher que deseja parto normal, na atual conjuntura social e cultural do país, necessita procurar um profissional que tenha feito mais partos naturais do que cirúrgicos. Não é exatamente como encontrar agulha no palheiro, mas é quase e neste caso não convém usar panos quentes. A maioria das clínicas privadas do país tem um índice muito alto de cirurgias e portanto é preciso checar esse detalhe. Tomadas essas duas providências - escolha do médico e de uma clínica ou hospital humanista- é hora de dar um mergulho profundo no corpo e aí temos chances iguais ou até maiores do que as índias e outros povos primitivos.
      Não podemos plantar grama e muito menos lavar roupa na beira do rio todos os dias, mas contamos com profissionais especializados que podem ajudar a gestante na preparação para o parto. Técnicas e vivências corporais como tai chi chuan, ioga, natação, bioenergética, biodinâmica e muitas outras estão à disposição das futuras mamães que, apesar de civilizadas, desejam aprender como chegar ao ponto final de um corpo de gestante: o desencadeamento do parto.
       Só para garantir, vale lembrar dos conselhos da velha índia: sentir, pensar, não comer, falar pouco e esperar com calma, muita calma para a cabeça não esquentar e o "nervoso" não atrapalhar.


segunda-feira, 7 de março de 2016

As meninas que fomos, mulheres assim seremos

Cláudia Rodrigues 

Esses dias uma amiga contou que sua pequena de 5 anos quer fazer aula de futebol, mas na escola o futebol é só para meninos e o balé só para meninas.
As escolas estão precisando rever essas questões e fazer grupos mistos. Quando são pequenas e pequenos, meninos e meninas não têm um diferencial de força física e só mais tarde, na adolescência, essas regras de separação de gênero fazem sentido e o sentido é só esse, da força física, que excetuando-se casos, é maior em meninos a partir da adolescência.
Essa discriminação de gênero em tão tenra idade é a base de comportamentos esterotipados que podem deixar sinais por toda uma vida, porque de 0 a 6 anos se forma a personalidade básica do ser humano.

Assim que é preciso conversar nas escolas, questionar e até exigir igualdade, mas o mais importante é praticar em casa. Uma menina que traz de casa sua valorização vai revalidá-la na escola, vai estranhar os comportamentos sexistas, vai pontuar. E ok, pode ser que seja a diferentona e saia catando minhocas no acapamento sem medo de sujar as mãos, pode ser que lidere o grupo e se safe na trilha sem ui ui ui de Cindi Cindi Cinderela porque se sente forte e capaz, não porque é "macha".

Um dos nossos problemas em relação à fabricação, ainda em massa, de meninas amedrontadas que correm para os braços dos meninos em vez de subirem na árvore na hora do "olha a cobra", é a repetição de frases que sempre ouvimos e que acabam reforçando a cultura misógina e a culpa da mulher em relação à liberdade e às capacidades do seu corpo.

Muitas de nós já ouvimos ou repetimos a famosa frase: "fecha essas pernas, menina! Nunca se ouve alguém dizer isso para meninos de quatro anos, mas meninas de dois anos já ouvem.

Pensem se não faz diferença para uma irmã ver que seu irmão pode abrir as pernas quando quer e do jeito que bem entende e ela não.

"Venha ajudar mamãe, deixe seu irmão ajudar o pai"
"Em menina não fica bem"
"Uma menina deve se comportar"
"Meninas devem ser boazinhas"
"Meninas devem ser delicadas"
"Meninas devem ser princesas"



Essas e outras frases não visam proteger as meninas do mal, mas as ensinam a lidar mal com algo eventualmente mau. Não repeti-las, de nenhum modo vai fazer com que suas meninas sejam mal-educadas, grosseiras, mal-comportadas, malvadas, indelicadas ou masculinizadas. Essas frases dão às mulheres desde pequenas uma ideia errônea sobre direitos, igualdade e liberdade sobre seus próprios corpos. Em resumo, formatam as cabeças das pequenas, que depois repetem isso, muito vezes para além da adolescência.

O desenvolvimento corporal das crianças entre 0 e 12 anos é muito semelhante e as meninas perdem muito quando a elas não é permitido ou não é incentivado que andem a cavalo, de bicicleta, assoviem, subam em árvores, mexam com ferramentas, experimentem todo e qualquer esporte, enfim desenvolvam habilidades corporais e manuais diversificadas e não somente as "restritas" às mulheres.
Quanto às restritas para mulheres, não é necessário evitar, é de fácil acesso, está à disposição para ambos os sexos, afinal bonecas e panelas é um bem que pode ser necessário a todos e todas, mais cedo ou mais tarde.



Viemos de uma longa linhagem de mulheres oprimidas. Grandes escultoras, musicistas, artistas, escritoras, esportistas que foram boicotadas em seus desejos mais profundos. Algumas morreram em manicômios, outras de tristeza, depressão e muitas por suicídio.

Os tempos mudaram, pero no mucho. Ainda hoje temos poucas mulheres na engenharia, poucas maestras, pouquíssimas e a razão é uma só: herança cultural do sexismo e da misoginia.

Não se trata de projetar que uma filha seja engenheira ou maestra, o importante é a criança desenvolver habilidades para estar apta mais tarde a atender seus desejos internos. Se não damos ferramentas de desenvolvimento, se só investimos em habilidades "ditas femininas", estamos reproduzindo essa cultura milenar do "lugar da mulher".



Dizem que até a maneira como olhamos e seguramos um filho homem ou uma filha mulher e os comentários que fizemos desde recém-nascidos já contém graus de sexismo. Ouvi isso faz anos e reparei que é assim mesmo, só não dá para saber o grau de influência, mas por via das dúvidas talvez seja bom olhar para sua bebê e dizer: "que forte, que destemida, olha que safa ela é!"

Dói, especialmente para quem já reproduziu meninas manhosas e frágeis, pensar sobre isso, mas não é menos importante começar a agir pela liberdade das meninas e apoiá-las em seus enfrentamentos.

Meninas podem ser corajosas, fortes, destemidas, livres, inteligentes e seguras sem que sua identidade de gênero mude, é preciso vencer além do preconceito, o medo. Mas meninas ensinadas a serem covardes, frágeis, amedrontadas, bobas, inseguras, identificadas ou não com seu gênero, podem ser menos felizes.



Atrás de toda mulher que não consegue pontuar e fazer valer seus pontos para namorado ou marido sobre meras tarefas domésticas e cuidado com as filhas e filhos, existe um rol de sentimentos de inadequação, fragilidades, medos e inseguranças que foram plantados nela desde cedo. Ou pior, pode ser que elas só tenham sentido segurança básica exclusivamente nas tarefas culturalmente aceitas e então se vingarão (de si mesmas, mais do que deles) impedindo que marido e filhos homens as façam porque "eles não sabem fazer direito".

Não precisamos mais nos vitimar, não precisamos criar meninas para serem vítimas do machismo. Elas só saberão escolher bons companheiros ou companheiras para suas vidas se tiverem um olho clínico para isso.
Se vai sobrar homens machistas reproduzindo machismo, ok, eles não serão escolhidos, não por nossas filhas.










sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Quando o direito à sexualidade é um pecado sexualizado

Cláudia Rodrigues

O direito à sexualidade na adolescência fala de saúde, processos hormonais, sensações novas que desencadeiam novos comportamentos. A avalanche hormonal que começa a tomar conta dos adolescentes por volta dos 12, 13 anos, às vezes um pouco mais tarde, em outros casos mais cedo, promove não somente mudanças corporais, mas corticais, reflexivas.

Funcionamento cerebral e hormônios andam lado a lado e não estão fora disso os sentimentos de inadequação pela perda de uma identidade essencialmente infantil, bem como readequações para seguir em frente com esse novo corpo. Não é uma fase fácil de se viver, mas costuma ser muito invejada pelos adultos em geral. Adolescentes têm corpo de tamanho semelhante ao dos adultos, já vêem o mundo criticamente, mas ainda não são capazes de viverem sozinhos. Têm autonomia, mas não são independentes e isso pode ser muito irritante para adultos.

Faz parte da entrada na adolescência o direito à sexualidade, aos primeiro namoros, primeiras trocas afetivas com conotação sexual. É uma violência quando esse direito natural, espontâneo, hormonal, comportamental desse verdadeiro laboratório próprio de mudanças, desejos e sentidos; é sexualizado por adultos como algo ruim, que causa desconforto social.

Quando um adulto acha que uma adolescente está se exibindo, provocando-o ou provocando outros homens porque ela está desabrochando para a mulher que virá a ser em em cinco anos ou seis anos, ele está sexualizando, deturpando e reprimindo o desenvolvimento natural dessa fase.

Adolescentes, de maneira geral, não estão preparadas para fazer sexo. Essa fase é de experimentação sensual, arrepios, beijos, o "ficar" sem compromisso, o amor platônico, romântico, afinal elas eram crianças ainda "ontem" e a transição não se dá de imediato. É comum que uma menina de 13 anos gesticule sensualmente, em um momento, entre seus amigos e amigas e logo ao chegar em casa corra para arrumar as bonecas, desenhar, fazer exatamente aquilo que fazia aos 10 e que estava acostumada a fazer desde os sete.

Se para mulheres adultas é desgastante e causa nojo ser assediada, escutar palavrões como se fossem elogios, para as adolescentes é um fator de desagregação interna que pode causar transtornos em sua sexualidade em desenvolvimento, tanto quanto no futuro, quando vier a ter uma vida ativa sexualmente.

Adolescentes são crianças crescidas, não são adultos em ponto de bala para a vida sexual. Recentemente com a reivindicação de alunas do Colégio Anchieta pela abolição da proibição do short na escola, se viu, leu e ouviu uma verdadeira avalanche de desconhecimento sobre a fase em que estão.

Palavrões, desqualificações, insinuações de que queriam mostrar o ¨%$#@, que andavam com o short enfiado no &¨#, infelizmente revelaram o que estava e está por trás de regras sobre decência.

A proibição impede em primeiro lugar  a identificação conjunta por meio de um traje que é preferência atual, assim como foram os vestidinhos melindrosos da década de 1920, as mini-saias na década de 1960 e as calças saint tropez na década de 1980.

Em 1980 as adolescentes eram criticadas por usar um cabelo sobre o rosto e as calças baixas, com o umbigo de fora. Foram chamadas pejorativamente na época como "cocotas". Claro que havia as que usavam a calça muito baixa e a mini-blusa muito alta, assim como aquelas mais moderadas, mas de uma forma ou de outra elas estavam lá, todas juntas, buscando uma identidade nova, diferente dos vestidos rodados da infância e diferente também dos trajes de suas  mães, com ombreiras e calças de cós lá em cima.

Vale ressaltar que as adolescentes praticam através dos tempos um tipo de moda não excludente. Não importa em que zona da cidade habitem ou quanto dinheiro ganham seus pais, elas se vestem de maneira muito semelhante e sempre, em qualquer tempo, elas ousaram colocar partes do corpo para fora como forma de dizer, "olhem para nós, não somos mais crianças, nós estamos virando mulheres."

Adultos saudáveis aceitam adolescentes, acham graça, sorriem ao vê-las aos gritinhos, sabem que não passam de crianças grandes a caminho de maiores responsabilidades. Sabem que elas estão "se sentindo", experimentando não só vestes, mas formas novas de experiências via atitudes.  Entendem que o ar sensual é a expressão de suas primeiras sensações em relação a uma sexualidade já bem mais madura do que a infantil, mas ainda bem longe daquela que deveria viver um adulto. O "deveria viver" é proposital porque somente um adulto mal-resolvido com sua sexualidade vê em uma adolescente de shortinho, burca ou nua, uma proposta velada para ato sexual.

Meninas não deveriam corar por sentirem-se bem com seus corpos, por gostarem de sentir suas pernas, seus braços, seus rostos, mas adultos deveriam corar por pensar qualquer coisa sobre sexo com elas. Todas as mulheres em qualquer idade devem ser respeitadas, mas é cruel que as adolescentes sejam as mais visadas na rua e em sites pornográficos.

Buenas, adultos também deveriam se envergonhar por sentirem-se tão incomodados pela surpresa da sexualidade brotando nessa fase a ponto de tomarem atitudes radicais ditando o que elas não deveriam vestir a fim de evitar provocar os homens. Isso é apropriação do corpo das adolescentes em um momento em que as atitudes deveriam ir em caminho contrário, em direção a uma maior autonomia, ao apoio a uma independência maior justamente para que pudessem amadurecer de maneira saudável.

A fase passa, as roupas mudam, mas o que se destrói de auto-estima e construção de identidade pode afetar para sempre a segurança de uma mulher, não somente para escolhas de roupa, esse detalhe, mas em tudo que se refere ao prazer.

Quando o direito ao desenvolvimento natural da sexualidade na adolescência é reprimido em nome de uma sexualização pecaminosa, repleta de regras de decência contra o que se sente, o que se vive, sob a batuta de palavrões, ofensas e baixarias, estamos investindo em uma sociedade doente, que reproduzirá mais pessoas adultas com baixo poder orgástico, com dificuldades de aceitarem o próprio prazer como algo bom.

Pessoas que sofrem isso e não percebem que sofreram, não se tratam, nunca retomam o que ficou para trás, tenderão a repetir esse padrão e é assim que a massa conservadora vem se renovando no mundo. Porque repetir, apesar de ser menos prazeroso, é mais fácil do que se libertar. Porque submeter as novas gerações a sofrimentos vividos é uma forma morbida de sentir prazer por meio do boicote ao prazer do outro. E isso, claro, é simulacro de prazer, não prazer real.

Assim que, se você é adulto ou adulta e anda irritado com a ousadia, a folga, a alegria, o achismo, a prepotência e a petulância de adolescentes, busque um psicólogo ou um terapeuta, se preferir pode até ser um psiquiatra, porque o seu problema com a descoberta do prazer dessa fase só revela que você vem desde a sua adolescência arrastando probleminhas em relação ao seu prazer.




sábado, 20 de fevereiro de 2016

Quando ouvir desabafos sobre lidas maternas é um tiro no pé do feminismo

Cláudia Rodrigues


Para atenuar a ira equivocada do velho feminismo que vestiu roupinha nova lendo academia feminista conservadora, pulou a parte que deu errado e vai afundar no mesmo erro outra vez, que é ficar batendo na tecla da maternidade inconsciente.
MATERNIDADE CONSCIENTE: quando entramos nessa, seja por descuido ou escolha e descobrimos que a coisa é séria e exige mais do que reflexão, envolvimento real, conhecimento e entrega para formar mais do que deformar. Faz parte da maternidade consciente a inclusão da paternidade consciente, a divisão igualitária de tarefas domésticas e cuidados com as crianças, assim como a luta por mais direitos políticos e sociais de acordo com as necessidades do desenvolvimento infantil. Na maternidade consciente não há ilusão do que poderia ter sido nossas vidas sem crianças, tendo as crianças sido planejadas ou aceitas acidentalmente. A busca pelo prazer profissional corre paralela à maternidade e às adequações. Não usamos, após nossas escolhas, a função materna como desculpa para eventuais fracassos. A criançada está no pacote, para o bem e para o mal, mas não é o bem ou o mal. Faz parte da maternidade consciente a luta pela descriminalização e/ou legalização do aborto porque uma mãe precisa saber de quantos filhos dá conta.
NÃO-MATERNIDADE CONSCIENTE: quando gostando ou não de crianças, escolhemos não conviver com elas por uma vida inteira como responsáveis, quando escolhemos não ter amigos genéticos, quando nossos objetivos pessoais e/ou profissionais requerem ou desejamos dar a eles nossa intensidade máxima, sem ter que dividir o tempo com a criação, educação e convívio com crianças. Na não-maternidade consciente a mulher pode desfrutar do convívio com sobrinhos,primos alunos e até entender muito sobre educação e deve ser respeitada por isso. Pode também optar por hoteis e passeios que não incluem a presença de crianças e não ser mal vista ou mal falada por isso. A não-maternidade consciente é pouco debatida em nossa sociedade, as mulheres que optam por não ter filhos carregam um fardo social e cultural enorme. Faz parte da não-maternidade consciente a luta pela legalização do aborto, por motivos óbvios.
MATERNIDADE INCONSCIENTE: quando diante da maternidade materializada, nos ressentimos do excesso de tarefas, lamentamos a perda da individualidade que se dará por toda uma vida inexoravelmente. Como a fase fértil da vida da mulher coincide com seus anos de maior vitalidade, força corporal, emocional e mental, as fantasias de superpoder abundam nessa fase. É comum que essa vitalidade não encontre igual coragem para ser canalizada para estudos, viagens e desenvolvimento de habilidades, sendo desviada inconscientemente para a fecundação.
Como ninguém tem realmente superpoder, nem com filhos, nem sem filhos, resta a ilusão de que sem filhos a vida seria mais tudo, a pessoa seria mais power, mais super, mais tudo. E então volta-se ao lamento. Porque quando não se consegue ser super saindo do zero sem filhos, livre e solta, a equação depois disso jamais vai fechar.
O que esse lamento traz quando mulheres se unem em torno dele já sabemos: fritação de direitos em relação à maternidade porque o ser humano não busca melhoria de fato para algo que desconsidera.
Faz parte da maternidade inconsciente opiniões diversas e contraditórias sobre direito ao aborto. Culpa, ausência de responsabilidade, ilusão, desilução e pensamento mágico abundam aqui.
Sair do quadrinho da Maternidade Inconsciente é fundamental para que o frágil braço materno do feminismo tenha força dessa vez, já que a década de 1980 se foi e a Badinter está uma velhinha até mais doce, mas deixa ainda muito a desejar sobre direitos em relação à maternidade e atenção aos das crianças.
Quanto a ser mar de rosas, %$#*¨*+%$ nenhuma nessa vida é, assim que a maternidade não tem a menor obrigação de ser.
Vamos lá pessoal, sair do 5º ano é fundamental.

Primeira tarefa é acolher a não-maternidade consciente aprendendo com as mulheres que optaram por não ser mães, ouvir seus motivos, acompanhar mães em jornadas diárias, tomar conta de bebês. Isso antes de entrar na maternidade, para eventualmente decidir conscientemente que essa não é a sua parada. Decidindo ser, ainda assim apoie essa ideia para outras mulheres. Decidindo não ser, saia do armário e conte suas razões, elas podem iluminar caminhos e eliminar a dor das mães essencialmente culturais, que acabam tendo filhos para cumprir sanha social.

Entrou, caiu na nave mãe, embalou, foi sem querer, foi acidente, foi planejado no esoterismo vendido pela publicidade, ok, então vamos tentar compreender que agora não somos mais o foco de atenção e cuidados de nós mesmas e entre nós. Abriu-se o leque da inclusão. Não é preciso desistir da sua vida, mas aprender a incluir.

A single life já era, acabou. Tudo que seu inconsciente esperneia para aceitar é irreversível. A menos que você coloque a criança para adoção ou a mate, o melhor a fazer é fazer o melhor possível porque a criança é a inocente da história e você o brutus adulto que deve tratar de ser só adulto, amparo e menos o brutus possível. Há muito a fazer pela educação das crianças e o umbigo da mulher agora precisa voltar-se para melhorar a assistência social e política materna. 

Legalização do aborto, educação de qualidade, licença-maternidade maior para crianças até dois anos, período integral para as maiores, descriminalização ou legalização do aborto, inclusão dos homens na vida cotidiana da casa com filhos, eliminação do machismo da face da Terra. Enfim, é tanta luta que ficar reclamando sobre o nenê não deixar tempo para você tomar chope com seu marido só revela que você quer sua vida sem filhos de volta. Como isso não vai ser possível e você querendo ou não passou, por azar ou sorte, como preferir, da fase 1 do joguinho, então entre na fase 2 e dê conta, faça bem seus pontos, be happy, baby, você está sendo filmada pela história da sua vida e a continuação dela, seus amigos genéticos ou adotivos. 

 Eles irão tocar suas vidas um dia sem você, nem lembrarão muito de te ligar nos seus melhores momentos com amigos e amores, mas você não os esquecerá jamais. Sempre antes de dormir vai pensar neles (e isso ainda pode incluir netos, multiplicação da espécie é assim, se não te contaram). Isso pode gerar tanta raiva quanto a que você sentia no tempo das fraldas, especialmente se você foi a mãe lamuriosa no passado. Ainda assim, lá na frente, você também pode aproveitar essa nova fase e ser feliz por você mesma e pela liberdade deles. É mais difícil se estiver acostumada ao modo reclamação, vitimização, mimimi, meus filhos roubaram minha vida, me levaram os pedaços, me deixaram aos pedaços.


Assim, se você já está mãe, torne sua maternidade insconsciente em maternidade consciente, até porque vida é só uma e viver reclamando da sua ad eternum é bombardear a sua vida, muito mais do que os ouvidos alheios.

Para as feministas a la Badinter que lançaram a campanha conte seu mimimi de como a maternidade não é facilzinha, meus sinceros votos que revejam a campanha. O contrário do mito a la Gutman, sobre a maternidade ser um paraiso com cocôs que cheiram melão fresco recém partido, não é dar ouvidos a essa multiplicação de mães lamuriosas que amam seus filhos mas odeiam ser mães.

Isso é uso abusivo de sentimentos mal-resolvidos e comuns, aliás primários, que toda mulher passa mais ou menos intensamente, e que, uma vez desabafados assim em rede se fortalecem coletivamente como direito, em vez de serem tratados. Esse direito já houve, sempre houve, esse direito de falar mal do trabalho que gera o cuidado com as crianças sempre esteve presente na rua, na padaria, na porta e dentro das escolas; esse direito que fortalece um certo bem-estar coletivo de adultos contra crianças já nos trouxe e nos traz muitos problemas, entre eles a falta de melhorias aos direitos de desenvolvimento infantil e a um acolhimento político e social do lugar de mulher-mãe escolhido.

É um tiro no pé do feminismo que já ocorreu antes e está a se repetir. Agora em rede.

As dicas de leitura abaixo podem ser um acolhimento consistente para que as mães entendam mais seus processos e lidem melhor pela vida afora.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Quando o homem e a mulher têm idades iguais, elas parecem mais velhas?


Cláudia Rodrigues  

Sim, responde a maioria de homens e mulheres.
Começa na infância, a menina é mais desenvolvida, afirma-se, ela amadurece primeiro então é natural que envelheça primeiro.
Ou a menina é mais exigida? Se espera mais da menina, se cobra mais das meninas e menos dos meninos?



A menina de 12 já é uma moça, os meninos são só meninos ainda. É o que dizem, mas ao observar meninos e meninas de idades iguais retirando o véu cultural, veremos que isso não é verdade, tanto que estudantes dão conta das mesmas classes com a mesma idade.

A menina é mais responsável, mais organizada, mais caprichosa?
Será mais cobrada com mais precocidade para ser mais responsável, mais organizada, mais caprichosa?

Bem, esse tema surgiu exatamente hoje. Estive conversando por duas horas em um café com uma jovem de 23 anos e veio à baila essa questão porque eu, eu mesma cometi a frase "a mulher envelhece primeiro".



Foi então que a jovem começou a me mostrar as pessoas que passavam.
Olhe, aquele homem, que idade ele parece ter?
Ele parece ter algo entre 40 e 50 anos, visivelmente, ele pode ser um homem de 40 ou um homem de 50 que se cuidou menos ou teve uma vida mais dura.
E aquela mulher, que idade parece ter?
Uns 40, 50 anos, de novo a mesma coisa.
Passaram jovens, entre 20 e 30, homens e mulheres, passaram adolescentes e sim, as pessoas parecem a idade que têm.



Falamos de uma amiga em comum, de 50, que realmente passa por 38 e rimos muito porque ela é uma exceção e parece mais jovem que o marido da mesma idade e nesse caso a exceção à regra não é pelo gênero, mas porque a mulher cuida-se muito, como sabemos, e é geneticamente favorecida, o que não se dá com seu companheiro.

Fiquei pasma em perceber como isso que estava montado em mim de um jeito tão inflexível se desfez em um papo de duas horas.
O cabelo grisalho do homem é charme, o da mulher é atestado de velhice, homem barrigudo é bonachão, mulher é relaxada e por aí vai.



Saindo do café minha companheira de conversa e eu fomos a uma livraria, ambas reparando em quanto não é possível de fato disfarçar muito a idade, por mais que se tente. Passou um homem notavelmente vaidoso, alto, cabelos passados no secador, do tipo que se cuida e tenta preservar a imagem, mas era, na visão da jovem, um "velho". Devia ter uns 50 anos. Estava na livraria uma mulher de uns 40, uma outra de cerca de 50, enfim, nenhuma das pessoas, menos ou mais montadas, conseguia de fato parecer tão menos ou tão mais. Vimos vários casais e a moça insistia comigo: veja ali, aquela casal, é um casal de uns 40, certo? Certo, isso mesmo.



A cartada final foi um livro que me chamou atenção. Escrito por um homem sobre as fases da vida da mulher. Um médico, óbvio.
Fui logo ver a fase da menopausa. De cortar os pulsos para quem está na fase e leva a sério essa história de velhice na mulher, esse marco como fim de uma era de sucesso e luz. Fim dos tempos, só notícia ruim para mulheres após os 50 anos: pele ressecada, manchada, músculos frouxos, cabelo é queda e ressecamento, falta de libido, irritabilidade, gordura que sai das pernas e vai parar na cintura, perda da cintura, flacidez, queda brutal de hormônios e claro, a recomendação do doutor é para que as mulheres após os 50 tomem hormônios.

 

 Mas e os homens após os 50, continuam mesmo como aos 30 ou será que são apenas menos cobrados, menos exigidos, exatamente como já vínhamos fazendo desde que eram pequenos?

Fica o samba para vocês sambarem, o choro é livre e a melhor coisa do mundo que pode acontecer a uma mulher de 52 anos é ouvir o que tem a dizer uma de 23. Pelo menos uma como essa que me acompanhou ao café e à livraria.

domingo, 3 de janeiro de 2016

A beleza violenta das bombas

Cláudia Rodrigues

Estive inspiradíssima para escrever sobre o efeito das bombas nas pessoas e animais, especialmente durante o dia, quando não produzem belas imagens, mas aí na tarde do dia 31, sentada na rede, ouvi argumentos da minha sobrinha Isis, de apenas 13 anos, e ponderei esse primeiro impulso, quando, diante do sofrimento dos cães mais próximos, Bob e Serena, exclamei: "Bá, mas que gente sem noção são todos uns &¨%$#, ficar assim do nada dando susto na bicharada, fazendo nossos corações dispararem de susto!" A menina, muito sensata, fez um belo discurso: "tia Cláudia, não podemos julgar as pessoas só por isso, podem ser boas pessoas que ainda não pensaram sobre o assunto, mas não quer dizer que sejam todas más, não se pode generalizar".
Tirei o chapéu para ela, me acalmei até que nova bomba, do nada, explodiu e então falei: Isis, tu estás coberta de razão, vou tentar não fazer um texto generalizado contra as bombas, mas vou ter que fazer, olha só os passarinhos, os gatos, os bichos todos sofrem muito, os bebês nem tem ouvidos bons o bastante para aguentar isso...Olha ali aquela casa, cheia de crianças e aí aquele homem, entre uma cerveja e outra, resolve se divertir soltando um rojão no meio da tarde."

Então chego aqui e vejo tantas fotos de gentes felizes e queridas em meio aos espetáculos pirotécnicos. Perdi a inspiração, fiquei me sentindo a azeitona da empada. Lembrei de quando fui assistir os fogos em Copacabana, das várias viradas de ano na saudosa praia de Manguinhos-ES, quando colaborávamos com o associação de moradores e pescadores para ter um um belo espetáculo pirotécnico, as barraquinhas todas enfeitadas com tochas iluminando a noite, das bombinhas da infância nos anos 1970. É, não dá para generalizar. Esse é o texto que resolvi não escrever.
Mas não desisti de pesquisar sobre.
É mais trash do que eu pensava, bem mais.
Coisas que descobri na breve pesquisa.

1-A poluição sonora pode ultrapassar 120dB. O ser humano tem um sobressalto natural no corpo semelhante ao stress visível nos outros mamíferos, mas temos o poder de acionar o cérebro e compreender que não é guerra ou um ataque mortal. Apesar da compreensão cortical produzimos rapidamente cortisol e adrenalina desnecessários, o que causa stress e estados de humor alterados.

2-As cores dos fogos de artifício são resultado da queima de sais de metais como o bário, o magnésio, o cálcio e do nitrato de estrôncio que, além do gás carbônico, produzem poluição na atmosfera provocando prejuízos à saúde.

3-Uma noite de fogos de artifício em Londres polui mais do que uma incineradora durante um ano.

4-Compostos de cobre são usados para produzir os tons azulados que contêm dioxinas, associadas ao câncer. Cádmio, lítio, antimônio, rubídio, estrôncio, chumbo e nitrato de potássio também são usados para produzir efeitos visuais bonitos e respiratórios graves.

5- Estatísticas de organizações não governamentais demonstram que é durante os espetáculos pirotécnicos que ocorre o maior número de fugas, mortes e atropelamentos de animais. Entre os seres humanos, os mais suscetíveis à morte súbita são os cardíacos, mas sentem mais os deprimidos e os que sofrem de transtornos mentais pela impossibilidade de acionarem seus cérebros corticais com eficiência.

6- O material utilizado para fazer os fogos não é seguro para reciclagem devido as substâncias tóxicas pois o manuseio pode ser danoso a saúde, além do risco de partes não acionadas do explosivo, virem a explodir durante a reciclagem. Por isso varias empresas recicladoras não recebem fogos de artifício.

7- Animais em geral podem ter problemas cardiológicos, reprodutivos e migratórios. Sabe-se que os sabiás podem parar de cantar por até 3 dias após uma festividade com fogos de artifício.

8- As ondas sonoras influem ainda na vida aquática, em peixes de água doce e salgada, além disso contamina mananciais.

9- A diversão é intimamente ligada à indústria bélica, extremamente dispendiosa, diverte por poucos minutos e rende danos duradouros e cumulativos.

10- Dizem que rodas de violão e conversas ao pé do fogo primário, possibilitam que bebês e animais continuem seu ciclo natural de sono e entre adultos, quem sabe, relações mais delicadas e amorosas com a própria natureza.

A beleza violenta das bombas está no ar.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Existe amizade entre homem e mulher?

Cláudia Rodrigues



Desde muito cedo ouvimos a famosa frase "não existe amizade entre homem e mulher". Crianças pequenas, muito pequenas mesmo, com apenas 3 anos de idade, quando escolhem um amigo de outro gênero, logo ouvem que são namoradinhos. Também é comum que mães e pais convidem para ir em casa apenas amigos dos mesmo gênero. Festa do pijama de meninas, festa do pijama de meninos e outras celebrações são divididas em gênero e esses comportamentos ajudam a sexualizar precocemente as relações humanas, impedindo a expressão espontânea dos afetos. A mal sexualizar as relações humanas porque não deixamos de nos apaixonar quando é o caso, mas inibimos as muitas possibilidades de afeto para além da sexualidade.

Quando jovem dividi apartamento com um casal de amigas, nessa época ouvi piadinhas e insinuações de que eu era lésbica. Anos depois minha filha teve como grande amiga e frequentadora de nossa casa uma jovem da mesma idade dela que costumava ter namoradas e então fui "avisada" que minha filha estava indo pelo "mau caminho", era necessário que eu cuidasse das amizades porque aos 16 anos era a fase em que "isso" deveria ser prevenido. Curiosamente ela teve a mesma atitude da mãe anos antes, deixava no ar, com ar maroto, e fim de papo.

A coisa toda em torno dos desejos humanos é tão mascarada e hipócrita que se coloca no lixo não só as mil possibilidades de afeto, mas a própria sexualidade, nossas pulsões vitais que não cabem nesses preconceitos todos. O problema de quem controla muito e reprime muito a liberdade do parceiro é a falta de gozo e só a falta de prazer nos afasta de um bom relacionamento. Assim é bem provável que uma sociedade inteira esteja bem doente porque não opta pela monogamia por amor, por escolha, mas porque tem que ser, porque é um risco amar demais.

Somos seres sociais mesmo quando somos de temperamento mais reservado. Gostamos de outras gentes por seus olhos, seus cheiros, suas ideias, por infinitos conteúdos que cada um traz, mas acabamos presos em guetos. A turma de casais, que não raro exclui um dos cônjuges em caso de separação, as inibições entre pares de amigos que se sentem atraídos, às vezes por mil outras coisas, mas acabam achando que é na sexualidade por pura falta de liberdade para tomar um chope.

Há mulheres que mal se autorizam a sair com amigas quando são casadas ou têm namorados. Com um amigo homem nem pensar! Elas mesmas não consideram aceitável seus parceiros saírem com uma amiga, isso só é liberado entre pares do mesmo gênero.



Claro que em uma sociedade com esse grau restrito de liberdade sobram fantasias de experiências da sexualidade e falta amor, confiança e entrega. Acaba faltando diversidade e aí as pessoas ficam estranhas, mulheres "comprometidas" quando perto de homens desconhecidos ficam piscando os olhos, homens "comprometidos" diante de mulheres desconhecidas ficam se pavoneando, é mesmo uma coisa deprimente o que esse conceito de que não existe amizade entre homem e mulher faz com os seres humanos.

Pessoas que nos afetaram na vida, como amores que se foram, mas deixaram boas lembranças, viram pessoas proibidas nos novos relacionamentos e isso é muito triste e totalmente desnecessário, conta de um ciúme doentio do passado do outro, de algo que o outro já ultrapassou em um nível sexual, mas que talvez nunca ultrapasse no rico mapa dos afetos.



Lembro uma vez, eu era muito jovem, estava com meu primeiro bebê de colo, em pleno retorno da vida sexual, quando meu marido anunciou que iria viajar para São Paulo e pretendia visitar uma ex-namorada, a jornalista Inês Knaut. Lembro bem, meu coração acelerou, senti ciúme, senti medo, bateu a insegurança, mas ficou nisso, afinal eu a havia visto alguns anos antes numa feira em São Paulo e ela fora muito gentil comigo,  percebi só carinho e amizade entre eles. Mas o marido, muito transparente, acabou me contando que eles haviam tido um romance, uma paixão forte, chegaram a fantasiar com uma vida no interior de Minas, o que não aconteceu. Depois dela teve outras namoradas e eu cheguei uns bons 3 anos depois, mas entre suas ex, essa era um afeto especial, eles se gostavam por muitos outros conteúdos, isso era evidente.

Enfim, ele foi para São Paulo a trabalho e foi jantar com ela, levar notícias da nossa vida, nosso bebê, saber dela, de suas filhas, seus romances.
Voltou para casa e contou com olhar meigo o encontro, o jantar na casa dela, de como uma das filhas que estava lá era bonita, quase tanto quando a mãe e de como riram juntos da fantasia que tiveram de morar no interior de Minas, ela fazendo geléia e ele plantando milhos. E eu serenei, o que ele tinha com ela jamais seria destruído na memória deles dois, o que havia comigo também não, tínhamos nossos planos e sonhos sendo realizados, tínhamos nossa cama e nossa vida na praia.



Alguns anos depois ela morreu, ele ficou triste, bem triste, chegou em casa com uma avenca naquela noite, pendurou na varanda, eu fiz um chá, ouvi suas memórias e eu mesma batizei a avenca com o nome dela e fiquei feliz por não ter impedido o encontro que tiveram, o último encontro, ainda antes dela adoecer.

E sim, essa não é uma história machista, eu recebi na nossa casa ex-namorado sozinho, em crise de separação, ex com suas novas namoradas e temos ambos amigos que não são comuns, mas de outras vidas que tivemos antes de nos conhecer, são afetos para sempre, afetos que se sobrepõem às eventuais experiências sexuais e obviamente não são todos os ex, dos muitos que nós dois tivemos, que fazem parte dessa trupe. Há amigos e amigas dessas outras vidas que sempre foram apenas amigos sem envolvimento sexual. E está tudo certo, as pessoas todas têm muitos conteúdos para além dos gêneros e de fases em nossas vidas. Ao longo da vida conhecemos pessoas,  colegas de trabalho que nos afetam, que nos comovem, se reprimimos isso, se não podemos amar, se não nos permitimos olhar, conversar, sentir coisas boas, as fantasias transformam tudo em sacanagem, literalmente. Está tudo ao contrário, não é a prisão dos afetos que circulam em nós que mantêm um relacionamento, mas nossa capacidade de deixar que os bons afetos polinizem nossos relacionamentos mais caros e profundos.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Explicando a morte para as crianças




Cláudia Rodrigues

Pessoas muito desconectadas da natureza e que criam os filhos sem contato com  plantas e animais costumam ter muita dificuldade para explicar a morte para suas crianças. As próprias crianças podem ter mais dificuldades para acessar qualquer explicação e imaginar o que é a morte quando não conhecem a palavra morte, quando nunca a materializaram com os próprios olhos, coisa que a natureza oferece todos os dias.
Tema complicado para os adultos, a morte envolve saudade, luto, fantasias e crenças de sermos os humanos mais especiais e diferenciados da natureza nua e crua, da viagem que não tem retorno, da finitude de nossa matéria viva e pulsante.

Para as crianças a morte envolve, em comum com adultos, a saudade, fantasias próprias e perguntas que podem ser respondidas sinceramente. O luto das crianças fica por conta do que os adultos em seu entorno produzem para preencher vazios dos cuidados imediatos. A caixa de memória delas, sempre muito recente e quanto mais nova a criança, mais recente, defende-se do luto saudoso e melodromático comum aos adultos. As crianças sofrem mais pelo luto dos adultos vivos, pelo que esses adultos deixam de dar a elas do que pela falta da pessoa que se foi. Criança tem fome imediata de vida e o que ela quer saber sobre a morte é tão material quanto o que quer saber da vida.

Adultos tendem a problematizar as fantasias das crianças de acordo com seus sofrimentos de adultos, suas memórias de adultos e suas crenças.
Como contar a uma criança pequena que sua avó morreu, por exemplo, passa a ser um emaranhado de palavras e projeções que nem sempre recebem com respeito as fantasias e a curiosidade natural das crianças. É comum que se fale de estrelinha no céu. Nada contra, se a estrelinha no céu foi imaginada pela criança, mas ela tem o direito de inventar seu próprio jeito de compreender a morte e para isso os adultos precisam aprender a controlar angústias e ansiedades para receberem a simplicidade da imaginação e da resolução infantil.

As crianças que vêem formigas morrer, que eventualmente matam formigas (quem nunca!?), que viram flores murcharem, plantas morrerem, animais de estimação morrendo, já conhecem o verbo "morrer", já entenderam que morrer é um sumir para sempre e em algum momento de suas vidas, muito rotineiramente por volta dos 6 anos, elas percebem isso de uma forma mais intensa e fantasiam um jeito de imaginar seus animais de estimação entes queridos vivos de alguma forma, em algum outro lugar. Algumas apenas ficam pensando, pensando e aceitam, vão se deixando engolir pela vida, como os adultos, só que mais rapidamente.
E sim, adultos podem estragar tudo se vivem falando dos mortos, se não deixam a memória dos mortos em paz.

Nossa experiência familiar com a morte e as crianças começou cedo na natureza. Eles falavam "moieu" ainda. Moieu o peixe no aquário, moieu o choim (cachorro), moieu a flô. Crianças brincam de morte, deitam-se no chão e morrem, crianças escutam histórias de bruxas que morrem, de queridas mamães que morrem, crianças falam "você vai moler com minha espada".
Mas em 1998 morreu o bivô deles, meu avô, e pela primeira vez o contato com a morte trouxe as famosas perguntas: de onde viemos, para onde voltaremos? Eles estavam com 5 e 7 anos respectivamente e queriam saber:



>>Para onde havia ido o avô da mamãe, que era mágico, poeta, violonista?
<<Não sabemos, só sabemos que não volta mais, esperamos que tenha ido para um lugar legal onde só faça o que mais gostava de fazer.
>>Os mortos se encontram, eles têm uma cidade em que vivem, um Planeta do mortos?
<<Não sabemos, esperamos que sim e que seja um lugar bem bacana.
>>Ninguém sabe, não está nos livros?
<<Ninguém sabe, nunca nenhum morto voltou para contar, mas há muitos livros e muitas lendas sobre a morte.
>>Crianças podem morrer?
<<Ui, essa é dura de responder, mas sim, em casos muito raros crianças podem morrer.
>>Criança morre só de acidente ou de doença também?
<<Das duas coisas, mas é bem raro, crianças sempre são mais protegidas, tem cadeira especial, quando um barco afunda elas são as primeiras a serem socorridas, todas as pessoas adultas sempre cuidam para salvar as crianças primeiro.
>>Mãe, podia ser assim uma fazenda bem linda e grande onde estão todos os mortos lá no céu?
<<Pode, pode ser.
>>Vamos escrever uma história dos mortos da nossa família vivendo na fazenda, o bivô tocando violão e fazendo mágica bem feliz?
<<Vamos.
E foi assim que passamos a escrever conjuntamente, a cada morte próxima, a nossa história conjunta, eles ditando e eu escrevendo, dando uns pitacos, fazendo algumas perguntas: "A Fazenda do Céu".
Começou com meu avô, bivô deles chegando com seu violão e sua mala de mágica, para alegria da bivó que estava lá esperando por ele já fazia alguns anos. Foi uma festa, uma grande alegria e havia até um lago para ele pescar, na volta do lago estava a égua Moreninha, a ovelha miu miu, o cavalo Vermelho, o cavalo Índio e até minha cadelinha de infância, a Lili.
Depois uma amiga muito querida, a Cássia, que cantava também, chegou por lá, também com seu violão e então meu avô e minha avó, (por dica minha) chamaram Janis Joplin , que cuidava da horta da Fazenda do Céu (ideia deles), para recebê-la. Um dia chegou por lá o nosso grande cão Babu, depois de 13 anos de existência e assim foi, a gata Panta, a gata Timi, o Sabinho, o sabiá, até que cresceram e não lembraram mais dessa história, quando a morte para eles ganhou o manto negro do luto da consciência real.



sábado, 12 de dezembro de 2015

A dor do parto

Cláudia Rodrigues 

Raramente assisto partos, dá para contar nos dedos das mãos os que assisti, mas como muita gente sabe, trabalho com isso, com atendimento particular e em grupo para gestantes e doulas aprenderem a lidar com o mais difícil do parto: administrarem a dor, aprendendo ao longo da gestação suas tendências corporais para evitar aquela que é uma dor que necessita entrega para que ocorra o desfecho: coroação do bebê com saúde. Ou seja, não trabalho com não doer, mas como lidar para que a dor flua e traga o bebê em segurança.

A cada parto que assisto me convenço que a maior das faláceas é preparar a gestante para não ter dor porque ela fatalmente sentirá algo jamais imaginado e após ter seu bebê nos braços provavelmente esquecerá o que viveu e ajudará a multiplicar a ilusão do parto sem dor. Diz-se popularmente: "a dor do parto é a única dor que a gente esquece".

Raríssimas mulheres têm partos orgásmicos. Eu nunca vi pessoalmente nenhum desses partos a não ser em filmes bem editados ou no momento do expulsivo, que realmente não dói. A expulsão é caracterizada por sensações intensas que algumas mulheres até denominam como dor, mas o fato é que as dores do parto têm a ver com o trabalho de parto e são mais fortes para as mulheres que temem cada contração, que se apavoram com a evolução. Evitando sentir dor, dói mais porque demora mais, é uma sinuca de bico.



Simples e explicável: as contrações uterinas aumentam progressivamente e a cada uma é possível que a mulher tensione o corpo ou use outras estratégias internas para adiar o andamento. Uma das estratégias para adiar a dor ou desintensificá-la é pela respiração. Respirando mais curto, expirando menos, engolindo o ar, apertando-se, a parturiente consegue evitar o aprofundamento de cada contração e assim adia o processo. Isso é tão natural no ser humano que o parto tem fama de ser algo demorado: "ah, tal coisa demorou como um parto".

Não se encerram os dramas das mamíferas humanas em respirar e manter o corpo relaxado, há todo um complexo histórico, familiar e cultural associado ao parto que também se concentra no imaginário da parturiente em suas horas de trabalho de parto. Algumas têm mais medo da expulsão, outras do atendimento ao bebê, se precisar de algo, mas é verdade absoluta que a maioria das mulheres fantasia que parto é só expulsão, quando na realidade a expulsão não significa nem em dor, nem em tempo, sequer 1% do que significa o parto como um todo. Sem dúvida é a expulsão o momento clímax, o melhor momento, o prazer, o final de uma etapa e o presente maior, o bebê. Pensar em parto apenas imaginando o expulsivo é investir em ansiedade e ansiedade atrapalha.

Embora eu faça muitas piadas e até mesmo dramatizações sobre as dores do trabalho de parto, mesmo entre as mulheres do grupo existe a fala do "minimizei a dor". E claro, elas se referem às horas do trabalho de parto. Óbvio que para as que temem muito a expulsão, esse momento pode ser mais dramático, daí vai de cada uma ao longo da gestação ouvir suas histórias internas, as mais impressionantes, aquelas que cavaram um medo maior. Mas com medo ou não da expulsão, quando o bebê coroa não tem mais saída a não ser nascer e aí é questão de minutos. Medo de "rasgar" ou medo do bebê "trancar", é medo do expulsivo e quem sente isso provavelmente vai adiar o andamento enquanto puder, enquanto tiver estratégias para evitar "o mal interno maior".

Existem mulheres que conseguem parir em poucas horas desde os primeiros sintomas, mas essas são mulheres que sequer qualificam os primeiros sintomas. Quase sempre em um relato de parto rápido há revelações como: "achei que estivesse gripada", "estava sentindo uma dor de barriga", enfim, as raras mulheres que têm partos rápidos e ainda mais raras entre as primíparas, percebem seus partos já perto do período expulsivo, dilatam "sem sentir dor", só sensações administráveis que vão levando com vida normal. O foco na dor aumenta a sensação de dor e de medo da dor, o foco na respiração e em áreas do corpo mais agradáveis, nas sensações de alívio ao final de cada contração, facilitam o andamento e desencadeamento do parto, o que acaba, por tabela, dando a impressão de doer menos.

No mais, na maior parte das vezes, partos demoram e doem durante todo o amolecimento do colo do útero e dilatação, ainda podem demorar algumas horas no período expulsivo e aí sim depende mais da cabeça, do imaginário da mulher. No período expulsivo a gestante precisa encontrar um lugar seguro, ela mesma. Pode ser cantinho do banheiro, da sala, banheira de água morna ou hospital, quando o medo maior é de que haja alguma intercorrência com o bebê e ela não se sente segura de que ele estará amparado.

Independente de tudo isso, o melhor trabalho de parto, mais eficiente e mais confortável para a parturiente é em sua casa, com mais liberdade de movimentos, opções de comidas, líquidos e pessoas carinhosas que recebem sua dor, seus queixumes e suas necessidades de atenção.

Se ela sente-se bem pode parir ali mesmo, se vierem os puxos da expulsão é ali mesmo que ela pode parir, se já há dilatação completa, nenê baixo, tudo certo e a mulher nitidamente não se sente segura para expirar profundamente a fim de que venham os puxos e isso demorar muito, então talvez ela precise migrar para o hospital a fim de relaxar.