terça-feira, 23 de novembro de 2010

Cromossomos felizes

Cláudia Rodrigues *
Aconteceu comigo. Em vez de 46 cromossomos fui formada com 47 e isso faz de mim uma portadora da Síndrome de Down. Você, papai e meus irmãos Caio, de 12 e Jonas, de 10 anos, levaram o maior susto quando nasci. O Caio ficou até com vergonha de mim, olha só que safado, mas agora, depois de nove meses, todos se orgulham do meu jeito. O Jonas sempre me avisa quando esqueço a língua para fora. Ele me leva para frente do espelho e ficamos brincando de por a língua para fora e para dentro. O Caio não sossegou enquanto não me fez sentar e passa falando para todo mundo que é o maior responsável por eu ser uma Down que aprendeu a sentar antes de completar nove meses. Bobagem dele, eu ia mesmo sentar nessa data. Papai sempre quis ter uma filha e isso faz de mim alguém ainda mais especial; a Síndrome de Down é mais comum em meninos. É papai também quem faz aula de natação comigo duas vezes por semana. Esse cuidado é para que eu desenvolva meus músculos; nós, pessoal dos 47 cromossomos, temos tendência a engordar quando não praticamos exercícios.
Mas é você mamãe, por enquanto, a pessoa que passa o maior tempo ao meu lado. Os bebês, os que vêm ao mundo com os tais 46 cromossomos, aprendem por imitação e experimentação, desde a linguagem até os movimentos e raciocínios, dos mais simples aos mais complexos. Para mim é quase a mesma coisa, só que um pouco mais demorado. Hoje, por exemplo, acordei com a maior preguiça, não queria sentar de jeito algum. Você me colocou em frente à caixa de brinquedos, mas fui logo deitando sem interesse por qualquer coisa. Foi quando chegou o Jonas e resolveu sentar na minha frente e cantar agitando um caminhãozinho. Despertei como num passe de mágica e comecei, não somente a brincar com o caminhão, como também a cantar, imitando perfeitamente, com meus próprios sons, a cantilena de Jonas. Foi demais mãe! Todos pararam para me ver e me senti muito esperta. Agora estou jantando em meu cadeirão com a família toda. Você me dá uma colherada e depois come um pouco no seu prato, exatamente como fazia com meus irmãos. E o que mais vale na minha vida, sabe mãe, é que apesar de eu ser diferente da maioria das crianças e precisar de muita motivação, não sou um peso nessa família, ao contrário, sou a menina que faltava, uma companheirinha sua, a garotinha do papai que despertou um sonho esquecido. Não sou perfeita, ninguém é, e o susto que preguei em vocês ao nascer é hoje um fato velho e esquecido que tinha ranço de preconceito. Sou a Bruna, uma figura, como diz o Caio, uma princesa como me chama o vovô, uma peça como fala o tio Léo. Por essas e por outras é que você, papai, e nossa família toda não fazem o gênero coitados, os que foram castigados pelo destino. Não sou castigo de ninguém e ninguém por aqui é meu castigo. Vocês já eram felizes antes de eu nascer e a minha chegada só trouxe mais união e alegrias, sem contar com o alívio divino que todas as pessoas sentem quando se libertam de preconceitos. Sou Down sim, e em meus olhinhos amendoados cabe todo mistério do mundo e ainda sobeja vida.

Um comentário:

  1. Que texto mais lindo, Claudia! Parabéns. Me emocionou muito!

    Um beijo!

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