sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A galinha pintadinha de verdade








Cláudia Rodrigues

Na porteira da fazenda a mulher aguardava, mais alegre do que ansiosa, o carro fazer a curva na estrada de terra. Era a filha e o genro chegando para uns dias de férias no campo. Traziam a neta que estava para completar 4 anos, uma linda menina de cabelos encaracolados e olhos cor de jabuticaba. Mal viu a avó, a garota saltou para seus braços perguntando se havia mesmo na fazenda uma galinha pintadinha.
A avó confirmou, pegou a menina pela mão, pediu ao capataz que ajudasse a filha e o genro a instalarem-se no quarto branco e foi direto com a menina para o galinheiro procurar uma galinha pintadinha, daquelas pretas com pintas brancas.

Mas que sorte a sua, Duda, olha só quantas galinhas pintadinhas temos aqui hoje!
A pequena virou-se de costas perplexa e logo começou a ter um ataque de raiva rolando pelo chão em fúria infantil.
A avó tentava compreender o que se passava, examinou as pernocas gorduchas para ver se havia sido um ataque de formigas, uma mosca, um mosquito, algum inseto qualquer que estivesse causando tanta dor, mas a menina não conseguia expressar-se a não ser por fúria. Batia e chutava as pernas da avó, até que chegou a mãe para socorrê-la e em minutos, sob o olhar surpreso da avó, a mãe resolveu a situação levando a menina para dentro de casa, instalando-a na frente da tv com o dvd de A Galinha Pintadinha.

Entre soluços a menina tentou beber um suco natural preparado pela avó, que atônita tentava reparar a situação sentindo-se culpada e ainda sem compreender o que se passava, mas a garotinha teve novo surto e então o pai buscou no porta-malas uma caixa enorme de sucos artificiais. Depois de muito atendimento, explicações em inho e negociações, a menina escolheu um suco lóóóósa, de molaaaango e então os adultos quase sossegaram da tensão presa no ar, feito um balão de gás prestes a explodir a qualquer momento.

A noite caiu com seu manto rural e a avó convidou a menina para ver as estrelas e a lua, mas a menina pôs-se a chorar, ela queria apagar a lua para mimir. Apaga a lua papai, apaga a lua mamãe, eu peeeeciiiiso dumir! Os pais acharam graça, a avó, mais do que sem graça, foi dormir elucubrando o que fazer com aquela criaturinha urbana, que amava galinhas fictícias, sucos de caixinha e que acreditava piamente, aos quase quatro anos, que o pai e a mãe existiam no mundo exclusivamente para caprichos incríveis, como apagar a lua.

Na manhã seguinte perguntou para a neta o que ela gostava de comer e a menina respondeu: bataaaataaa fiiiita! Entusiasmada a avó colocou seu avental e fritou batatas crocantes por fora e macias por dentro, tudo com azeite novinho no maior zelo e boa vontade, mas ao sentar para comer a menina teve outro ataque de choro e fúria, então o pai  rapidamente enfiou a mão em uma sacola de mantimentos e abriu um saco de batatas fritas para a alegria imediata da garota. Olha filha, papi é o the flash!
O rio deu arrepio, o galpão deu comichão e quando faltou energia e a avó se prontificou a brincar com sombras à luz de velas, a pequena teve mais um de seus ataques. Historinhas da carochinha não substituíam o louvor que a menina cultivava pela televisão e pelas explicações de seus pais para seus ataques: ela está com sono, está carente, está com saudade de casa, das suas coisas, de seu quarto, de sua vidinha na cidade, não é filhinha?

A menina escutava atenta às explicações de seus pais e somente nesses momentos de explanações elaboradas ela parava de chorar, como se estivesse abastecendo-se de razões, antes de retornar ao roteiro do seu padrão de comportamento de sucesso na capacidade de demonstrar descontentamento. Até que em uma bela manhã os pais saíram para um passeio a cavalo. A ideia era voltar antes que a menina despertasse, haviam combinado isso com ela na noite anterior e ela, a pequena Duda, rainha do lar, havia permitido condescendente, mas mal eles saíram ela acordou furiosa. A avó aproximou-se carinhosa e tentou conversar, avisou que o pai e a mãe já  haviam saído, mas tendo sido expulsa com chutes da cama da pequena, resolveu fazer um bolo deixando a criança esbaldar-se em choramingos e exigências.

Depois de longos minutos ela enxugou as lágrimas e veio ter com a avó, que apenas sorriu, sem dizer uma palavra.
Pela primeira vez a avó escutou a menina fazer uma pergunta sem esticar na pronúncia das palavras.

Vó, o que você está fazendo?
Um bolo.
Um bolo de aniversário?
Não, apenas um bolo, um bolo de fazenda, não um bolo de televisão, um bolo bem diferente do bolo que aparece no filme da galinha pintadinha.
Aham...
Posso comer?
Não, não está pronto, mas eu bem que estou precisando de uma ajudante para ele ficar pronto, você quer ajudar?
Quero!
A avó então auxiliou a menina a ajoelhar-se em uma cadeira, deu a ela uma colher grande de pau e afirmou convicta sobre o que ela deveria fazer como ajudante.
Mas vóóóó eu quero colocar pimenta no boooolo!
Não pode, se você colocar pimenta o bolo vai ficar ruim de comer e o bolo não é para você brincar de fazer ficar ruim, é para ficar gostoso e todos poderem comer, mas você pode escolher entre esses itens aqui, explicou mostrando canela, mel e baunilha.
Esse pode, vó?
Esse pode!
O bolo foi colocado para assar e a vó sentou-se à mesa, começou a descascar uma manga suculenta, que passou a comer com vontade, enquanto a menina tomava seu suco de caixinha, olhando desconfiada, quase a pedir um teco da manga da avó, que manteve-se séria, sem ofertar a iguaria natural.

Vó, eu quero ver a galinha pintadinha na TV, liga pra mim?

Ah sim, mas eu não vou ficar aqui, agora preciso ir dar milho às galinhas pintadinhas de verdade lá no galinheiro.

Posso ir junto?

Você vai de boa, sem fazer aquele estardalhaço, sem assustar nossas galinhas de verdade?

Hã? Mas vó, eu fico cansada, tenho saudaaaade de caaaasa e soooono...

Ah, mas olhe bem, aqui perto da sua galinha pintadinha de mentira, que não sente frio nem calor, nem dor, que não ouve de verdade e nem pia, que não tem filhotes para cuidar e alimentar, você pode ficar e sentir sono, cansaço, saudade de casa e gritar o quanto quiser, mas lá no nosso galinheiro não dá porque lá tudo é vivo e quem é vivo merece atenção e respeito.

Mas vó, mamãe falou que eu meleeeeeço atenção e respeito porque sou uma quiiaaaança e gritar com quiiiiiaaaaança é covaaaadia.

Sim, concordo, mas as nossas galinhas não gritaram com você e nem vão gritar, muito menos eu. Todos nós devemos cuidar e respeitar quem é menor e mais frágil e te garanto que essa é a situação das galinhas, elas são bem menores do que você e merecem o seu respeito também porque afinal mal você se mexe elas coitadas saem correndo de medo porque te enxergam bem grande porque grande é você perto das galinhas. Entendeu?

Entendi, quero ir, não vou gritar!


Quando estavam dando milho às galinhas, ambas rindo muito, a menina levantando os braços e divertindo-se com o poder que possuía sobre os galináceos a correr espantados, chegam os pais, surpresos por ver a menina alegre, rosto corado, olhos brilhantes.

Mãe, pai, venham ver como sou maior que as galinhas pintadinhas de verdade!

A mãe apeia do cavalo e pergunta à avó:

O que foi que você fez para ela estar assim tão feliz?

Não bati batendo com minhas mãos, não gritei gritando com minha voz, mas digamos que orientei-a a colocar a mão na massa e a cabeça de quase quatro anos para funcionar sobre os direitos dos outros, não só os dela ué.

O genro olhou desconfiado e perguntou: você a ameaçou?

Digamos que ameacei-a a ser feliz, soltar-se, entender que não veio ao mundo a passeio manipulativo.
Mas afinal o que há com vocês que não compreendem a diferença entre educar e mimar, entre orientar e reprimir?
Que medo é esse que vocês adquiriram de serem repressores, que faz com que produzam crianças tiranas e de difícil convivência?
Ora, crianças podem ser legais, agradáveis, boas de conviver. Não tem graça nenhuma botar filho no mundo para viver sendo pentelhado e manipulado, uai.

Cerca de 50 metros de bravura adiante, a menina divertia-se com inefável prazer jogando milho às galinhas. Um prazer sem culpa, baseado no respeito à desigualdade.
Porque nenhuma criança no mundo é feliz manipulando os pais. Crianças são felizes manipulando brinquedos, interagindo com animais que dependem delas, o que certamente não é caso dos pais e outros adultos cuidadores.

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