sábado, 6 de março de 2010

A menina má

Por Cláudia Rodrigues
Nasceu bem, muito amada, bem cuidada pela mãe, uma senhora bonita e vaidosa que se orgulhava da única filha mulher. Foi uma criança boazinha até começar a criar consciência, a maldita consciência. Cedo, muito cedo ela deixou de ser temente a Deus. Por uma confusão infantil sobre o Santo Padre Osíres e Deus serem mais ou menos a mesma pessoa, ela expulsou Jesus do coração ainda antes da primeira comunhão. O Santo Padre almoçava na casa da tia Danda todo santo domingo e a menina achava que o padre era um aproveitador, um comedor de santas almas. Menina má, tão pequena e já produzindo sentimentos ruins. Ela olhava o padre, com o canto dos olhos, a devorar a perna do frango ao molho pardo e tinha sentimentos maus, muito maus, que se materializaram em palavrões no dia em que ele resolveu passar a mão nas pernas dela com um olhar esquisito, santíssimamente demoníaco. A família inteira ficou do lado do padre, é claro. Menina má, agora nutria sentimentos maus por seus familiares, queria crescer, estudar e fugir para longe, muito longe. Os sonhos dela eram sonhos de menina, todos bons. Passava como um filme em sua cabeça o futuro sem hipocrisia, sem maldades, meias-verdades, uma cidade das crianças. Até que chegou à adolescência, conheceu Estelinha, tão boazinha, gostava de conversar mexendo nos botões das blusas das outras meninas, ia fazendo uma cantilena e levando todas para onde queria, fosse patinar ou tomar lanche na casa da vizinha, só para fazer mexericagens. Teve maus sentimentos sobre Estelinha, tão boazinha. Afastou-se de Estelinha, ela precisava colocar Jesus no coração, mas como num passe de mágica as outras meninas uniram-se a Estelinha e colocavam a língua para ela. Teve maus sentimentos, a menina má, por todas as meninas. Uniu-se aos meninos, passou a usar kichute e meiões, aprendeu a driblar, fazer passes e chutar a gol, mas no dia do jogo oficial não podia jogar porque era a única menina e não havia um time de meninas. Ah que má outra vez, novos maus sentimentos em relação aos adultos que despejavam
aquelas regras hipócritas. Chegou aos 15 anos, idade que achava brega, tinha vergonha de confessar, disfarçava dizendo que já havia passado dos 14 ou estava com quase 16. "A solidão era seu mestre, martírio sua recompensa". Aos 17 conheceu o prazer do sexo, sem amor e sem culpa. Que devassa, gostava de experimentar os meninos, as meninas, de pegar, amassar, lamber e beijar o ser humano até retorcer-se em orgasmos, por afeto e desejo, sem romantismo, sem planos, sem expectativas a não ser amar de corpo e alma. Tinha maus sentimentos sobre as pessoas que colocavam o amor dentro de uma planilha a ser executada. Não entendia enxoval, noivado e casamento. Como colocar o amor, a paixão, o desejo dentro de um palmo de plano? A essas alturas já era mal-vista e mal-falada, muito má e devassa. Não cabia em qualquer canto da comunidade, vagava solitária pelas ruas, banida do grupo dos bons, dos que fazem bem, dos que têm Jesus no coração. Falavam mal uns dos outros, trapaceavam, faziam média; do santo padre ao prefeito sem distinção de escolaridade ou crença, mas eles levavam Jesus no coração, eles oravam, todo dia faziam o bem para si mesmos e para o mundo inteiro: orando, comungando
juntos. A menina má, por mais que tentasse compreender os bandos humanos e suas estranhas regras de conduta, não conseguia deixar de ter sentimentos maus. Viajou o mundo inteiro procurando um lugar para deixar seu bicho visceral viver em paz, livre das meias-verdades, dos meios de interesse, mas só pagava cada dia mais caro por ter tirado Jesus do coração. Era tão má que questionava o perdão. Desde pequena era a única dos filhos que não pedia perdão. Os irmãos quando aprontavam, após apanharem jogavam-se aos pés do pai pedindo perdão. Ela não. Apanhava o dobro e quando o pai, exausto, pedia para ela gritar por clemência, só dizia uma frase: “Até antes de apanhar eu pediria perdão, agora você perdeu a razão”. Dito isso retirava-se para seu quarto e passava as noites lendo sob a luz da lanterna embaixo da cama. As leituras, como ela, não eram tementes a Deus. Deixou-se amaldiçoar pela família, pela igreja e pela sociedade. Um dia sumiu no meio da multidão. Uns dizem que enlouqueceu, outros que morreu bêbada, alguns afirmam que suicidou-se. Não importa, não tinha valor, era apenas uma maldita.
 "Solidão é seu mestre, martírio sua recompensa" Stanley Keleman em Anatomia Emocional

3 comentários:

  1. Era má por ser livre! ;) Conto bacana.

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  2. uma pequena bacante, bêbada de mundo! lindo mesmo.

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