segunda-feira, 16 de maio de 2011

Amamentação e sexualidade



Cláudia Rodrigues
Entre 50 e 100 nutrizes estiveram presentes numa manifestação batizada como "mamaço" na última quarta-feira numa galeria de exposição do Itaú Cultural, em São Paulo. O evento, um protesto pacífico, ocorreu poucos meses depois de uma mãe ter sido impedida de amamentar ali mesmo. Casualmente ela colocou a queixa numa rede de relacionamentos, por coincidência a rede social vinha retirando fotos de mulheres amamentando em nome da moral e dos bons costumes. Foi o estopim para surgir um evento organizado com apoio do próprio Itaú Cultural. As belas fotos de mulheres amamentando estamparam as capas dos sites de jornais da capital e como era de se esperar, a cobertura ficou no básico sobre o evento; número de presentes, que cada site calculou de um jeito, uma ou outra palavra de manifestantes e só.
Uma pena que nenhum repórter de plantão se perguntou: mas como é mesmo esse negócio de preconceito contra os peitos das mulheres que amamentam? Eu tenho isso? O colega ao lado tem? De onde nasceu isso? Nham nham, teria aqui na redação umas boas fontes para responderem essas questões?
Não deu tempo nem para pensar, zarparam os repórteres para cobrir o óbvio. Os colunistas saíram correndo atrás comendo poeira da notícia mal coberta. Alguns, politicamente corretos, defendem o movimento, embora insistam em separar peito com leite de sexualidade.Outros literalmente talharam o leite das colunas, como João Pereira Coutinho, da Folha de São Paulo, ao comparar direito de amamentar com direito de se masturbar, tomar banho ou fazer sexo em público. Coitado do rapaz, ficou assustado com as belas madonas, entrou fundo no buraco do que não teve e eureka: peito e sexo, algo a ver! Mas o quê exatamente? Fez uma salada russa do seu quase insight.
As militantes enraiveceram-se, a coluna do moço nunca foi tão visitada na vida, mas algumas delas, inconformadas com as comparações bizarras na coluna do João, enfiaram os pés pelos peitos e insistiram na premissa de que peito amamentando não tem nada a ver com sexualidade.  Uma pena, enquanto não enfiamos o dedo na ferida, ela não cura e a militância deveria saber que peito amamentando não perde sua função sexualizada, que o olhar dos homens para um par de peitos femininos, com ou sem bebê mamando, é um olhar sexualizado e pode ser confuso, mas tão confuso para um homem -- embora não seja para todos – ver um peito feminino exposto, sendo sugado, que ele desate a pensar, sentir, falar ou escrever besteirol infantilizado, mesmo quando tem uma boa formação, uma boa educação, como parece ser o caso do jovem colunista. Peitos de mulher sempre tirarão homens do sério levando-os para sonhos oníricos de tempos inconscientes. Mais do que isso, e quando entramos nas sombras, um par de peitos amamentando pode causar problemas na vida de muitos casais, impedindo o breve retorno da vida sexual ou literalmente levando o sujeito a permanecer sexualmente descomprometido com a -santa- mãe dos seus filhos. Aconteceu com Elvis Presley, por exemplo, e acontece todos os dias, tudo porque peito é sexualidade, peito mexe com a sexualidade de homens e mulheres e peito é, para a sorte desses bebês que mamam, a primeira grande lição de sexualidade feliz, plenamente satisfatória.  
A militância pode e deve promover mamaços, mas que seja de cabeça feita, sem falsos moralismos de que esse nobre gesto é assexuado como uma pintura bem comportada. Amamentar tem cheiro, cor, prazer de ambos os lados, muita satisfação em esvaziar e ser esvaziada, parece muito com um ato sexual sim, é sexualidade primária, fundamental, de base e quem não viveu ou não processou esse grounding da sexualidade humana de algum jeito, sofre, se confunde, não consegue ver, ouvir ou conviver com a amamentação de forma espontânea. Nas mulheres um dos sintomas, triste sintoma, é não conseguir amamentar.
Muitas fobias e transtornos relacionados à amamentação, ao desmame
e até mesmo um eventual prolongamento da licença-maternidade, que no Brasil é escandalosamente curta justamente porque não leva em conta as necessidades de aleitamento do bebê, podem ser resolvidos com um melhor entendimento da sexualidade via amamentação. O conhecimento sobre o gesto ancestral que possibilitou a sobrevivência da espécie humana não se encerra no fisiológico. Somos seres culturais, padecemos e temos prazeres intensos via cultura e nosso caldo psíquico, ainda que rico e esclarecedor, continua sentado no cantinho do castigo moral. É preciso alongar o olhar sobre os bastidores internos do tema, afinal entre a visão equivocada de que amamentar é apenas candura assexuada e o nojinho sarcástico de quem não desfrutou das bases da sexualidade humana, tem chão a ser percorrido.
O rapaz que escreveu a coluna na Folha não mamou prazerosamente por meses a fio na própria mãe, sequer deleitou-se no corpo nu da mãe; posso afirmar isso sem conhecê-lo, sem que ele tenha mencionado e me arrisco a afirmar porque um homem que mamou prolongadamente em sua mãe ou que teve livre acesso ao corpo nu da mãe, ainda que não tenha mamado, não fica tão confuso diante da sexualidade emanada da amamentação. O homem que pôde desfrutar de um pele-a-pele com a mãe conhece bem o corpo de uma mulher, sabe que aquele mesmo par de peitos tem múltiplas funções e vê com naturalidade a função básica, a mais fisiológica dos seios femininos, sem que isso o cinda, sem separar o peito que amamenta do peito que dá prazer sexual. Sem nóias, sem perversões.







31 comentários:

  1. vocÊ como sempre me emociona.

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  2. Cláudia,

    Excelente texto!!

    Explique mais sobre o assunto, por favor!

    Para quem, como eu, sabe necas sobre psicanálise, seria muito proveitoso.

    Abração,

    Talita

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  3. Olá Talita, está muito psicanalítico é? Eu sou reichiana, falo do ponto de vista antropológico e da crise gerada no cérebro e no comportamento humano quando o bicho cultural amassa o bicho ancestral em nós. Algumas tendências detectadas têm base na psicanálise, mas para entender isso do ponto de vista da psicanálise pura aí só buscando um psicanalista com formação específica mesmo.

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  4. claudia, vc se supera a cada reflexão! a vida sempre mais complexa que os rótulos, quaisquer que sejam eles, "depravados", "libertários" etc...

    e haha AMO esse tal bicho ancestral, to querendo levar ele mais seguido pra dar uns amassos no (ou com) meu bicho cultural!

    besos

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  5. Esse teu texto me provocou risadas prazerosas e sorrisos abertos. Estas imagens de bebês mamando literalmente enchem a nossa tela e é impossivel olhar uma vez so, a gente fica fascinado mesmo, é muita beleza.
    A cobertura foi de fato mediocre e infantil. Tanta coisa boa para explorar, para aprofundar, e a gente ficou apenas com frases ou com colunas como estas que você citou. Que armadilha, né?
    Tentar elogiar o mamaço "dessexualizando" a amamentação, cai na mesma rede superficial dos olhares contorcidos... Mandou bem!

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  6. Recebi o link desse texto maravilhoso via @possoamamentar. Como todas as mães que leram o texto do jornalista da Folha, eu não acreditei que aquilo realmente era a opinião de uma pessoa ligada a um jornal tão influente. O meu medo, e se tornou o medo do meu marido também, foi de que alguém com cabeça mais fraca ainda que a mente confusa do jornalista, leia aquilo e leve tão a sério que começaria a pensar que amamentar seja realmente um ato obsceno, e seja capaz de até violentar uma mãe que amamenta. Pode ser neurose minha, mas essa sociedade é tão doente, que eu espero o pior desse tipo de coisa. Parabéns pelo texto, seu blog agora faz parte da minha lista de blogs que eu leio diariamente! Abraços!

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  7. Ah, que chato, acabei de postar um comentário e ele não foi, por algum motivo que desconheço...

    Eu sou uma das que argumentou que amamentar e sexo não têm relação, mto embora reconheça e diga q amamentar me deu mto prazer, como tbém deu prazer a meu filho. Diante do seu texto, sou obrigada a perguntar (e desculpe-me por ser ignorante), todo prazer vem da sexualidade? e está ligado ao nosso bicho ancestral? Se reluto em aceitar, é porque não enxergo essa via tão claramente (o q pode se dever à ignorância). Mas ainda assim pergunto, porque gostaria de uma luz para, quem sabe, enxergar melhor, ou diferente...

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  8. Olá!
    sou umas das militantes contra esse joão sem Mama, concordo com vc que amamentar não é algo assexuado, agora não podemos permitir a erotização desse ato, uma coisa é sexualidade outra é erotização,ambas estão relacionadas, mas pelo q entendi o cara acha q como defendemos a amamentação como algo natural e primordial a vida humana e que não deve ser proibida de ser feito em publico, coisas naturais como sexo, ir ao banheiro e masturbação deveriam tbm ser feitas em publico... ele não critica a amamentação, mas confunde uma necessidade primaria como alimentação com algo q fazemos por prazer como sexo e masturação.

    Todos comemos na rua, tomamos um sorvete q seja, nada mais natural q darmos nosso peito q é o alimento de nossos filhos na rua ou onde for, agora fazer sexo, se masturbar ou fazer nossas necessidades fisiologicas em plena avenida não dá né?
    Isso não é hipocresia e sim algo chamado BOM SENSO o que pelo jeito o moço ali não tem...

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  9. Amei o texto, apesar de muito psicanalitico (sou behaviorista) descreveu bem principalmente as atitudes dos homens frente a amamentação, qdo li a coluna a folha a unica coisa q meveio a cabeça a respeito do autor: foi desmamado precocemente e sofre as consequencias...

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  10. Olá,
    você leu este artigo:

    http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/916122-mamonas-celestinas.shtml
    Minha esposa leu e me passou o link, indignada, assim como eu também fiquei.
    Belo trabalho o seu!
    Marco

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  11. Denise e Laura, vou tentar responder as perguntas.

    Nem todo prazer vem da sexualidade,existem prazeres culturais, pós-pessoais, que vêm de coisas de fora de nosso corpo e causam prazer dentro de nós. Nâo é o mesmo prazer, não têm as mesmas funções, os prazeres que vêm de fora são mais entretenimento, estão mais ligados às vontades e não aos desejos.

    Todo prazer pré-pessoal, tudo o que vem de nossas necessidades básicas; comer, beber, fazer sexo, urinar e defecar pertence ao nosso bicho ancestral.

    Esse bicho vem deixando de ser livre, vem sendo aprisionado pelo bicho cultural em nós, que é ótimo, traz coisas lidas, distrações, mas também traz alguns problemas, especialmente problemas de saúde psíquica, que acabem revelados em nossos corpos e comportamentos. Chegamos a exigir, via bicho cultural, que crianças tenham hora marcada para fazer xixi na escola, elas, que precisam tanto atender o seu bicho ancestral para manutenção da saúde. Mas voilá, nem seria possível mesmo defecar no meio da rua por questões higiênicas, embora segurar desejo e doutrinar desejo de ir ao banheiro constantemente cause inúmeros transtornos para os intestinos.

    Não podemos praticar sexo livremente em nossa sociedade, mas creiam, sexo já foi impulso involutário, só guiado pelo desejo...Chegamos ao ponto em que muita gente acha que sexo entre pessoas do mesmo sexo é "errado", imoral, sabe-se lá mais o quê.

    Mas, de fato, estamos indo longe demais quando a doutrinação moral mira sua bazuca para o alimento que possibilitou a sobrevivência humana na Terra.

    É demais querer matar o bicho ancestral que faz viver, engordar e imuniza o ser humano, ainda mais que é um ser humanozinho tão pequenino, tão dependente.

    E pior que não é ignorância, nem falta de estudo, é dor de bicho muito cultural, de bicho ancestral muito amassado, pouco vivido em sua parte ancestral, que leva as pessoas a sentimentos e atitudes tão tensas em relação ao aleitamento humano.

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  12. Pensei exatamente nisso quando lí, mas jamais conseguiria descrever de forma tão bela.
    Lindo texto.
    Reflexão para muitos anos.

    Grata por nos dar voz.

    Maribel
    www.umblogdemae.blogspot.com

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  13. cheguei aqui por uma recomendação de um grupo de discussão e estou maravilhada com este texto. aprendi muito e minha cabecinha deu cambalhotas.
    obrigada!

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  14. Simples assim!!!

    Pereito seu texto!

    Parabens!

    (Vou copia-lo e divulga-lo, viu/)

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  15. Que lindo!! Você é junguiana??
    Parabéns pelo excelente texto, você expôs com propriedade e serenidade a amamentação dentro do conteúdo sexual....

    Beijos

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  16. Claudia,
    obrigada! Traduziu melhor que eu o que pensei qdo li o texto e os comentários nas listas e no próprio texto. Que muitas "amamentadoras" ficaram + passadas com ele comparar com algo sexual... O que para mim pareceu + um recurso apelativo do texto para chocar, do que um argumento mesmo...

    Como leiga e só paciente de terapia, não achei seu texto psicanalistico, rsrs. Até pq para mim psicanálise costuma dar tanta volta, mas pode ser problema de interpretação da minha parte...
    Bjoks e parabéns pelo texto.

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  17. Sabe quando a emenda sai' pior que a encomenda? O caba tentou se explicar e piorou demais num novo texto. Deu preguiça.

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  18. Cláudia,

    Quando disse psicanálise, foi leigamente, rsss, o que quis comunicar é essa análise que fala das "razões que nossa razão desconhece", da psique.

    Desconheço mesmooo o assunto, e adorei o texto.

    Essa explicação aqui nos comentários sobre o bicho cultural X bicho ancestral é um exemplo do que eu gostaria de ler - psique 1.1.

    Acho que agora comecei a compreender o conceito de sexualidade primária que você aborda no texto.

    Abraço grande...

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  19. muito boa a análise! agente ainda tem muito a aprender sobre amamentação, inclusive sob esse aspecto, o do "prazer"!
    vou recomendar a aleitura à minha lista de discussão!!
    abs
    ana b.

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  20. Os comentários já feitos, não poderiam melhor dizer o que gostaria! Mas somando...

    Excelente pensamento!

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  21. Muchas gracias buena gente.

    Tassi, fiquei pensando no que você escreveu e não acho prudente que as mulheres passem a cobrir os seios na hora da amamentação, que isso vire uma preocupação, seria mais um desequilibrador do comportamento natural, mais uma fator para diminuir os níveis de oxitocina e prolactina no corpo da mulher, tão fundamentais para o sucesso no aleitamento. A mulher que amamenta precisa estar relaxada, sentir-se tranquila e aceita para que a oxitocina traga o reflexo de descida do leite. A prolactina, mais diretamente ligada à produção do leite, tem como carga pulsátil a alegria, o prazer, a satisfação entre as mamadas, no cotidiano da vida da nutriz. Muita regra, pouco espaço para ser e "se achar", vergonha, providências, tensões enfim, não são bem-vindas. A sociedade é que precisa se re-acostumar com o aleitamento humano e defender esse direito inalienável da criança. As perversões aumentam com os segredos, as mentiras, os "por debaixo dos panos". É uma ilusão acreditar que podemos evitar perversões investindo no alimento delas.

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  22. Por aqui, me deliciando, com suas palavras, suas reflexões...

    E cadê vc nas redes sociais? Amava ler seus debates no orkut...Como eu aprendia, como eu parava pra pensar em tudo...

    Um bjo de uma grande admiradora.

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  23. Maravilha de texto!! Falou tudo que eu gostaria de ter falado e mais um pouco! Lindo!! Bjos

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  24. Gracias, mujeres. Tatiane faz tempo que saí do orkut, tomava muito tempo. Textos grandes só por aqui no blog mesmo.

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  25. Enfim algo realmente interessante sobre amamentação, algo que foge do clichê "é lindo saudável e blablablá"

    porque a gente lá no fundo sabe que amamentação é muito mais...

    abçs

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  26. Oi Claudia, tudo bem? Acho que já nos esbarramos pelo orkut. Gostei muito desse texto e linkei ele hoje, neste aqui:http://www.whatmommyneeds.net/2011/05/maternidade-amamentacao-e-sexualidade.html

    Abraços!

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  27. cheguei pelo what mommy needs e como disse lá estive sedenta por textos inteligentes sobre o assunto!
    tenho sentido uma pressão externa crescente aos 14 meses de amamentação de meu primeiro bebê. os olhares repreendem, as pessoas se incomodam e perguntam: até quando? ele tem dentes? ele fala! ele já é um homenzinho...
    haha - eu tenho dado solenes risadas.

    mas depois dos textos de voc~es duas tenho um pouco mais de embasamento para compreender que que se incomoda tanto deve estar sim com alguma questão solta com a própria sexualidade...

    bjos obrigada pelo texto!

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  28. Disse tudo. Tudo que penso e jamais conseguiria escrever. Perfeito! Parabens Claudia. Aguardo ansiosamente uma oportunidade de ouvi-la aqui no Rio de Janeiro. Saudaçoes, Marly, do Vicente, 6 meses, que mama LM exclusivamente em livre demanda!

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  29. Daniele Rodrigues10 de junho de 2011 18:09

    Estou arrepiada.
    Vc escreve de um jeito mto emocionante!
    Texto lindo! Virei sua fã!
    com carinho
    Daniele

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